ÁGUA E LUZ

No final do ano de 1907, ocorreram eleições para a escolha dos vereadores, que cumpriam o 14º período legislativo da Câmara Municipal de Ponte Nova. Esta Câmara, cujo mandato estenderia até 1911, iniciou seus trabalhos no dia 1º. de janeiro de 1908, com apenas treze, dos quinze vereadores que a completariam.

Caetano Machado da Fonseca Marinho.
Realizador de grandes obras fundamentais para
o progresso e desenvolvimento de Ponte Nova.
 

Caetano Machado da Fonseca Marinho, Manoel Cavalcante de Albuquerque, Landulfo Machado de Magalhães e Manoel Olympio Soares foram eleitos Vereadores Gerais. João Gonçalves Guedes foi eleito Vereador Especial pelo Distrito da Cidade; Domingos Cupertino Texeira Fontes foi eleito Vereador Especial pelo Distrito de Bicudos; Francisco Romualdo Ribeiro, pelo Distrito de Jequeri; Francisco Ferreira Martins da Silva, por Urucu; Inocêncio Bessa, eleito por Rio Doce; Joaquim Milagres, por Entre Rios; José Rodrigues Sette Câmara, por São Pedro dos Ferros; José Justiniano Gomes, por Santa Cruz; e Benjamim do Carmo, por Amparo do Serra.

A eleição no distrito de Piedade, que havia dado a vitória a Antônio Manoel Pinto Coelho, é anulada pela Comissão Verificadora de Poderes, que não reconhece o diploma a ele conferido. No distrito do Grotta, distúrbios impediram que a eleição fosse sequer apurada.

Em solenidade presidida pelo major Soares e secretariada pelo vereador Sette Câmara, ocorreu a escolha da nova mesa da Casa. Por nove votos a quatro, foram escolhidos Caetano Marinho, João Guedes e Manoel Cavalcante para os cargos de Presidente, Vice- presidente e Secretário, respectivamente.

Caetano Machado da Fonseca Marinho era filho de João Nepomuceno da Fonseca Marinho e de Ana Francisca de Oliveira. Descendia, portanto, dos Gonçalves Torres, tradicional sobrenome ligado ao desbravamento e a povoação do território de Ponte Nova.

Nascido na Fazenda do Engenho, em 05 de fevereiro de 1864, Caetano Marinho estudou em Mariana e no Colégio do Caraça e, mais tarde, doutorou-se em Medicina pela Universidade da Bahia.

Casado com Guilhermina Cerqueira, desde jovem Caetano Marinho demonstrou interesse pela política e, pelas mãos do comendador Antônio Martins, iniciou sua carreira, que o levou, como presidente da Câmara e agente do Executivo, a governar Ponte Nova por onze anos ininterruptos.

Durante esse extenso mandato, Caetano Marinho conseguiu realizar obras da mais alta relevância, marcando sua passagem na chefia do município como uma das mais profícuas de toda a história de Ponte Nova.

Caetano Marinho iniciou seu governo com austeridade. Acionou uma nova e rígida política tributária, diferente de tudo aquilo que se conhecia em Ponte Nova até então. Foram criadas leis para agilizar a cobrança de impostos, atualizando velhos débitos, já que uma política de "apadrinhamento" vinha fazendo vista grossa nos últimos anos.

Profissionais liberais, comerciantes e produtores rurais passam a recolher tributos pelo exercício de sua profissão. São criados os cargos de Inspetor de Rendas do Município e de Coletor Municipal.

A imprensa local é instada a colaborar emitindo cobranças e insistindo com os inadimplentes. Exemplo disso é o jornal "O Piranga", que publica o expediente da Câmara Municipal do dia 03 de fevereiro de 1908, nos seguintes termos:

"Para os que devem à Câmara impostos atrazados de penna d'água tanto aqui no districto da cidade como nos de Rio Doce e Bicudos, fica marcado o prazo de 30 dias a contar do 9 do corrente, para executarem o pagamento dos respectivos débitos, nesta collectoria.

Para os que devem quaisquer outros impostos atrazados à Câmara Municipal, fica marcado o prazo de 90 dias a contar do 9 do corrente, para efectuarem, nesta Collectoria, o pagamento de seus débitos. "

Os efeitos dessa nova política fazendária são tão rápidos quanto ágeis são, os passos para sua implantação. Em apenas um ano a arrecadação do município aumenta em quase 50%, passando dos 48:909$905, do ano de 1907, para 74:792$737 no ano seguinte.

À medida que ia saneando as finanças do município, Caetano Marinho dava inicio a uma série de grandes obras que marcariam, definitivamente, sua administração.

Pela importância e grandiosidade, a implantação do serviço de força e luz tornou-se o grande marco do governo de Caetano Marinho. Entretanto, outras relevantes obras foram realizadas em Ponte Nova, tais como o serviço de abastecimento de água, a implantação de redes de esgoto e a instalação de telefones na cidade.

Nos primeiros anos do século, o prestígio do senador Antônio Martins Ferreira da Silva era grande. Líder absoluto de vasta região, ditava os destinos da política de Ponte Nova e, por esta razão, era considerado e respeitado na capital do Estado.

Antônio Martins foi vereador e presidente da Câmara Municipal de Ponte Nova.

Para as 27ª. (1886 a 1887) e 28ª. (1888 a 1889) legislaturas havia sido eleito deputado provincial e, em 1891, tornou-se senador estadual, quando participou da 1ª. Constituinte do Estado de Minas Gerais, no período republicano.

Com todo esse currículo, adquirido ainda no século passado, o senador Antônio Martins transitava com desenvoltura nos meios políticos do Estado, onde sua reputação era das melhores. Assim, sob sua influência, o governo de Minas destinou vultosos recursos para a execução de importantes obras em Ponte Nova.

Foram, então, construídos os edifícios destinados ao primeiro Grupo Escolar da cidade e ao Fórum local. Também, foram realizadas, sob os auspícios do Estado, importantes melhorias na infra-estrutura do município.

A Câmara Municipal, através da Lei nº. 149, de 26 de dezembro de 1908, autorizou seu presidente a tomar as providências necessárias para estabelecer na cidade os serviços de abastecimento de água potável e o de fornecimento de energia elétrica.

No primeiro caso, a obra abrangia o sistema de captação de água em mananciais situados no local denominado "Passa Cinco", a construção de um reservatório de boas proporções no bairro do "Pito" e a implantação das redes de distribuição por todo o perímetro urbano.

Já o serviço de força e luz, muito mais complexo e dispendioso, previa a construção de uma barragem junto à "Cachoeira do Britto", no rio Piranga, a montagem da usina geradora, a instalação das linhas de transmissão até a cidade, a construção da subestação no "alto do cemitério" e a implantação das linhas de distribuição, com os respectivos pontos de luz.

Quatro empresas se habilitaram à concorrência para a execução dessas obras: Arens & Cia, C.T. Hargreaves & Cia, Trajano Medeiros & Cia e H. Smyth & Cia.

No dia 28 de março de 1910, era assinado o contrato com a vencedora da concorrência, a H. Smyth & Cia, que dispunha de apenas nove meses para executar toda essa monumental obra. O prazo, entretanto, s6 foi suficiente para que a arrematante implantasse o serviço de abastecimento d'água, pois durante a construção da barragem ocorreu uma grande enchente no no Piranga que danificou grande parte da obra já iniciada. Por outro lado, a H. Smyth tinha sérias dificuldades com o transporte do material de construção, máquinas e equipamentos.

Tendo em vista o não-cumprimento do cronograma, a Câmara prorroga o prazo previsto no contrato. Mesmo assim, a contratada não consegue concluir as obras da instalação da hidroelétrica.

A H. Smyth não suporta os custos de tão tumultuada construção que, somados à multa de vinte contos de réis imposta pela Câmara, levam-na à falência.

Criado o impasse, Caetano Marinho resolve evitar nova concorrência pública, que consumiria mais tempo e recursos. Opta, então, pelo sistema de obra por administração e designa os engenheiros Raul Alvares e Raul Ribeiro da Silva para darem continuação às obras de implantação do serviço de força e luz de Ponte Nova.

O município já havia recorrido a um empréstimo de 200:000$000 junto ao Banco de Crédito Real de Minas Gerais, o qual seria pago no prazo de 12 anos, a juros de 8% ao ano. Eram necessários mais recursos.

A carreira do senador Antônio Martins atingia o apogeu. Em 1910, na chapa encabeçada por Júlio Bueno Brandão Filho; ele B eleito vice-presidente do Estado de Minas Gerais.

Assim, mais uma vez com a intervenção de Antônio Martins, Ponte Nova pode ver concluída uma obra de grande porte e de extrema utilidade.

No dia 1º. de novembro de 1913, é inaugurada a luz elétrica da Cidade de Ponte Nova.

Extensas matérias, publicadas nos jornais locais, exaltavam o acontecimento :

"Luz elétrica

Esteve muito animada a festa com que se solenizou, a 1º do corrente mez, a inauguração da luz eléctrica desta cidade.

Ao cahir da tarde desse dia, uma verdadeira multidão, deliciando-se no largo da Matriz com a audição de bellas páginas musicaes, executadas pela maviosa "Ceciliana', anciava pelo momento de ver a nossa urbs sob a luz intensa e brilhante das suas dezenas de lâmpadas.

Veio gente de toda a vizinhança, de todos os districtos do município e da Villa do Rio Casca, sendo muito notável o movimento popular dos trens do dia.

A Usina tranformadora, a que o revdmo. padre Parreira acolytado pelo revdmo.. padre Corrêa, havia, á tardinha, lançado a bençam, estava repleta. Nesse estabelecimento se achavam, além de outras muitas pessoas gradas e de destaque social, os Srs. senador Antônio Martins, representando o srmo. sr presidente do Estado, e o sr. dr. Caetano Marinho, presidente do Município.

Pouco depois das 6 horas; do Britto para a Usina se fazia uma consulta pelo telephone, e a que se dava logo a seguinte respostas "Vou fechar o circuito, doutor; dentro de meio minuto..."

incumbido dessa pequena e rápida operação o exmo. sr. Antônio Martins Ferreira da Silva, vice-presidente do Estado, instantaneamente ficou a cidade bellamente iluminada.

Vivas calorosos se levantaram em seguida à primeira e a segunda autoridades do Estado, ao dr. agente executivo, aos engenheiros construtores da barragem do Britto e a outras pessoas enquanto a "Ceciliana" executava uma peça enthusiastica e foguetes, em grande quantidade, estrugiam nos ares.

Terminada a cerimonia na Usina Transformadora, o povo acompanhado da referida banda musical, se dirigiu para o edifício da municipalidade, onde se deveria realizar uma sessão commemorativa do acontecimento, que para nós abriu uma nova era de progresso.
Nesse edifício que tinha boa e farta iluminação, já se achavam o sr. senador Antônio Martins, o dr. Caetano Marinho e muitos outros distinctos cavaleiros.
 
Assumindo a presidência da reunião, o exmo. sr. vice-presidente do Estado, deu a palavra ao orador oficial, dr. Miguel Lanna, que proferiu excellente discurso, seguido logo de outros egualmente bons, proferidos pelos drs. Pedro Palermo, José Sette Câmara e Manoel Vieira de Souza.
Esgotada a série de oradores, foram servidos licores, cervejas, champagne outros vinhos ao povo.
Novos vivar se ergueram a diversos, e depois parte da grande massa popular que compareceu á festa se dispersou pela cidade, apreciando a luz enquanto outra parte foi ao Cinema Avenida, onde se realizou uma concorridíssima sessão lyrico cinematographica, em homenagem ao dr. Caetano Marinho e em sua presença.
 
A tarde do dia seguinte, domingo, uma onda de povo, formada no largo da Matriz e tendo á frente a banda musical Ceciliana colleou, ladeira abaixo, em direção á fazendo do dr. presidente da câmara.
Era uma significativa manifestação de apreço que se ia fazer ao digno administrador do município. O dr. Caetano Marinho e sua exma. família receberam carinhosamente os manifestantes, em nome dos quaes falou o dr. Paulo Motta, que entregou ao homenageado, como lembrança da população, um retrato de s. ex. e uma estatueta de bronze.
A cada um dos drs. Raul Ribeiro e Raul Alvares, engenheiros constructores da barragem do Britto, foi entregue também um valioso mimo.
 
A família dr. Caetano Marinho serviu abundantes e lindas mesa de doces bem como delicados vinhos, a todos os presentes. Por essa ocasião fizeram brindes os drs. José Sette e Câmara e Stockler Coimbra e o acadêmico Sylvio Marinho, que em nome de seu illustrepa e agradeceu a manifestação.
 
Animadas danças em que tomaram parte muitos pares, pozeram termo à encantadora festa.
 
Dois nomes devem ser aqui citados como os dos principaes responsáveis pelo facto que acabamos de inaugurar festivamente: o exmo. sr. senador Antônio Martins, ilustre representante do Estado e prestimoso advogado da câmara na consecução do empréstimo para os melhoramentos do município e o do exmo. e distincto sr. dr. Caetano Marinho que, não desanimando jamais, nem quando falliu a casa arrematante do serviço, prosseguiu sempre na pertinácia para que o emprehendimento fosse por diante e se transformasse em fim na obra que é um passo agigantado que damos para o progresso local e um attestado de operosidade para uma administração!
A ambos façamos a justiça do nosso reconhecimento, e aos demais, componentes engenheiros e valorosos e dignos operários, enviemos as nossas sinceras saudações, de mistura com os nossos francos applausos, pala inauguração da luz elétrica."
 
 
Banda de Música "Ceciliana"
No centro, assentado, aparece o maestro Manoel José Ferreira da Silva.

"abrilhantou" a inauguação da luz elétrica .Esteve sempre presente nos momentos festivos de nossa cidade.

Este dia foi de alegria e júbilo para o povo de Ponte Nova, mas particularmente de glória para o Dr. Caetano Machado da Fonseca Marinho. Para a Sessão Extraordinária da Câmara Municipal desse mesmo dia, estava prevista grande homenagem ao presidente, como se lê na ata daquela sessão:
"Leu-se uma representação de grande parte do povo desta cidade, pedindo á Câmara para dar a denominação de 'Avenida Dr. Caetano Marinho' à Rua Direita desta cidade.
O dr. presidente declarou que sendo a presente sessão convocada para fins especiais, entendia não poder submetter á apreciação da câmara esta representação.
O sr. dr. Miguel de Lanna, obtendo a palavra, ponderou que, partindo a representação do povo entendia não poder a câmara deixar de toma-la em consideração; portanto que não procediam os escrúpulos do sr. presidente. Assim entendendo a câmara, o sr. presidente passou a presidência ao sr. vice-presidente, que enviou a representação à comissão de leis. O sr. dr. Miguel de Lanna, por parte dessa comissão, obtendo urgência, apresentou a seguinte indicação.
-A câmara municipal de Ponte Nova resolve:
A antiga rua Direita desta cidade passa a se denominar "Avenida Dr. Caetano Marinho"
 
Sala das sessões, 1º. de novembro de 1913
 
Miguel A. de Lanna e Silva, Antônio Martins da Silva, Dr. Francisco Vieira Martins, José Justiniano Gomes, Antônio Ayres s José Myboy Campos.
 
Submetida a discussão foi unanimimente approvada."

O surto desenvolvimentista que se iniciou ao findar o século XIX em Ponte Nova prolongou-se pelo inicio do século XX, intensificando, de fato, no período em que Caetano Marinho presidiu a Câmara Municipal.

A chegada da energia elétrica foi decisiva para a expansão das indústrias no município.

A agroindústria se fortaleceu, e a pioneira Usina Anna Florença conheceu estabelecimentos congêneres que iam sendo fundados, tornando a produção de açúcar, álcool e aguardente fator de desenvolvimento econômico para Ponte Nova.

As industrias urbanas também se multiplicavam. Desde as oficinas de mecânica pesada e fundições, que desenvolviam tecnologia de ponta, até as diversas fábricas de banha, ladrilho, papel, sapato, bebida etc. puderam ter sua produção garantida em função da energia elétrica.

A Câmara Municipal havia adquirido um imóvel no Largo da Matriz que deveria dar lugar à construção de um Grupo Escolar. Inicialmente, esta construção foi orçada em 18:999$066, e a hasta pública ocorreu no dia 13 de fevereiro de 1910, imediatamente após iniciados os trabalhos de demolição do antigo Prédio.

A construção propriamente dita foi relativamente rápida e em apenas dezoito meses estava concluída, tendo consumido 36:094$685. Desta quantia, um terço coube ao Estado e o restante foram recursos do próprio município.

Após a conclusão da obra, ainda foram necessários 2:259$000 para a aquisição dos móveis e equipamentos indispensáveis ao funcionamento da escola.

Oficialmente, o primeiro Grupo Escolar de Ponte Nova foi criado pelo Decreto nº. 3.805, de i8 de janeiro de 1913, e passou a denominar-se "Grupo Escolar Antônio Martins". E no dia três de maio, têm infcio suas atividades escolares, sob a direção de Mário Carneiro da Fontoura.

As primeiras professoras foram as senhoras Rosalina da Luz Campos, Idalina Benvinda Campos, Ana Eliza Lanna, Francisca Amorim, Marina do Nascimento, Maria de Lourdes Vieira Martins, Antônia Femandes Torres e Francisca Emília Martins.

Os dois primeiros funcionários, designados pela Câmara e encarregados da limpeza e manutenção do grupo, foram Gregório dos Santos e Joaquina de Paiva Marinho.

Desde que Ponte Nova tornou-se sede de Comarca, em 1875, os trabalhos forenses eram feitos ou no prédio da Câmara Municipal ou em edifícios alugados. Não existia, ainda, um local especifico para o funcionamento do Fórum.

A Câmara, presidida por Caetano Marinho, adquire, na Rua Direita, uma velha casa que, demolida, cederia seu lote à construção do prédio do Fórum.

Antigo Forum de Ponte Nova
Sua construção teve início em 1915 pelo governo Caetano Marinho
e terminou em 1919 durante a gestão de Custódio Silva

O presidente da Câmara e agente do Executivo, cumprindo seu terceiro mandato, faz gestões junto ao Governo do Estado para que tomasse iniciativa com respeito às obras do Fórum.

No dia 19 de agosto de 1917 é publicado no órgão oficial do Estado, o "Minas Gerais", o edital de concorrência pública para a construção do edifício.

A administração Caetano Marinho ainda assistiu ao inicio da obra, não vendo, entretanto, sua conclusão, ocorrida em 1919, já no governo Custódio da Silva.

O prédio era assobradado e, com sua bela fachada neoclássica e suas dimensões avantajadas, resistiu até a década de 70, quando, em completa ruína, cedeu lugar a atual edificação onde funciona o Forum de Ponte Nova.

Caetano Marinho, durante seus três mandatos de presidente da Câmara e de agente do Executivo; deu ênfase também a importante questão da infra-estrutura urbana de Ponte Nova. Durante sua gestão foram assentadas as primeiras redes de esgoto, atendendo às regiões mais populosas da área urbana.

As principais ruas foram calçadas ou tiveram seus calçamentos refeitos, bem como os respectivos passeios.

À Câmara cabia a colocação do meio-fio e ao proprietário dos imóveis, a construção dos passeios públicos.

Aos proprietários de casas no Largo da Matriz e na Rua Direita, a Câmara envia a seguinte circular:

"Para que mandeis construir o respectivo passeio de 1,50 metros de largura, desta data a 30 dias, precedendo alinhamento pelo encarregado deste serviço, communico-vos que a sargeta em frente a vossa propriedade está prompta e, se vos convir a câmara poderá mandar fazer o dito passeio, á razão de 3$000 cada metro quadrado.

Saudações

O Presidente da Câmara. "

Para outras ruas que ia sendo calçadas, a determinação de se construir o referido passeio foi publicada em jornais locais, em forma de editais.

No caso da Rua do Rozário, "O Piranga", de 20 de maio de 1911, estampa a seguinte publicação:

"Edital

De Ordem do exmo. sr. dr. presidente da câmara municipal, recommendo aos proprietários abaixo relacionados, para, quanto antes, sob penas da lei, mandarem construir o passeio em frente a seus prédios, á rua Rosário, ante a Sarjeta já concluída. E para constar, eu, Geraldino Lessa lavrei este e assigno.

Nomes dos Proprietários

1. Tenente Augusto Ferreira Brant (3 casas)
2. José Joaquim da Fonseca
3. Capitão Elisiário Serra
4. Hiram Salleé
5. Vigário João Paulo Maria de Britto
6. Carlos Pinto Moreira
7. Francisco Carvalho
8. Capitão José Pedro Ribeiro Soares
9. João José da Silva
lo. Tenente Olympio Otaviano de Oliveira
11. d. Altina de Godoy Giesta
12. Tenente Marcolino Ferreira Campos e irmãos

20 de maio de 1911

G.Lessa. "

A estrada que ligava a cidade ao então novo bairro das Palmeiras trazia sérios problemas para seus usuários, principalmente na estação das chuvas. São, então, executados serviços de retificação do traçado, alargamento e ensaibramento de todo o percurso.

Em pronunciamento à Câmara Municipal no dia 26 de novembro de 1908, Caetano Marinho solicita autorização para executar a aludida melhoria:

"Sendo de enorme difficuldade e muito dispendiosa aconservação da estrada das Palmeiras; além da Ponte do Vau Assu, julgo que a câmara deva autorizar a compra dos terrenos comprehendidos entre o Pau d'Alho e a dita ponte, pertencentes ao coronel José Carlos Soares da Silva para que se possa abrir uma rua de fácil conservação, dando franco transito. Esta rua, partindo da ponte do Vau-Assu e terminando no Pau d'Alho com uma declividade suave, se prestará a edificações, que darão rendas à câmara, importando isso,em uma despesa reproductiva.

Julgo que já é tempo de tratarmos dos melhoramentos materiais de nossa cidade para que esta possa acompanhar prazenteiramente as suas irmãs. "

Depois da luz elétrica, Caetano Marinho empenhou-se na instalação da telefonia em Ponte Nova.

Aberta a concorrência pública para a implantação dos serviços de telecomunicação, o vencedor foi Joaquim Araújo.

A assinatura do contrato ocorreu no dia 28 de fevereiro de 1915 e em menos de quatro meses, no dia 13 de junho, foram inaugurados os primeiros telefones de Ponte Nova.

Ao lado da atuação eficaz e proveitosa do governo Caetano Marinho, desenvolveu-se também, junto ao empresariado pontenovense, intensa atividade.

Os comerciantes e industriais da cidade, convencidos da importância da organização da classe, uniram-se para a criação da primeira Associação Comercial e Industrial de Ponte Nova.

No dia 29 de agosto de 1907, aconteceu a primeira reunião desta associação, sob a presidência do professor Mário Carneiro da Fontoura.

Nessa mesma ocasião, é eleita a primeira Diretoria, assim composta: Presidente, José Domingues Machado; Secretário, Francisco Machado; e Tesoureiro, capitão João Batista Alvarenga.

Em outubro do mesmo ano, a Associação Comercial e Industrial estava juridicamente criada, e seu presidente comunica o fato à Câmara Municipal, em correspondência datada de 11 de outubro de 1907.

Os empresários ligados ao meio rural também se organizam e, no dia 08 de março de 1908, resolvem criar a Cooperativa Agrícola Pontenovense.

Para seu primeiro diretor é eleito o coronel Custódio José Ferreira da Silva.

A cooperativa logo se desenvolveu e, em pouco tempo, já se distinguia dentre as congêneres do Estado.

Através do Decreto nº. 2.235, ela é reconhecida pelo Governo de Minas Gerais.

A economia do município se define e adquire corpo, colocando Ponte Nova dentre as mais progressistas cidades do Estado, nos primeiros 15 anos do s6culo XX.

Os primeiros passos para o desenvolvimento e a modernização da economia de Ponte Nova foram dados com a construção da estrada de ferro, em 1886, e a implantação da energia elétrica em 1913.

Essas duas obras foram, sem qualquer dúvida, fundamentais para o progresso que se observou nesta fase da história do município.

Em uma cidade progressista, com economia forte e em desenvolvimento acelerado, não podia faltar a figura de um banco.

Mais uma vez os Drs. José e Francisco Vieira Martins lideram importante movimento, que redundaria em outro beneficio para Ponte Nova.

No Rio de Janeiro, encontram com o Dr. José Fellipe de Freitas Castro, então influente líder político da vizinha Cidade de Viçosa. Ligado ao senador Vaz de Mello, José Fellipe,numa promissora carreira política, reelegera-se, pela terceira vez, deputado estadual. A ele é formulado o pedido para que interviesse, junto, ao governo do Estado, no sentido de trazer para Ponte Nova um banco.

A despeito de atuar, como político, pelo 2º. distrito, cuja área de abrangência não atingia Ponte Nova, José Fellipe atende ao pedido dos Vieira Martins e, no dia 1º. de março de 1912, é inaugurado o primeiro estabelecimento bancário da cidade.

José Felipe de Freitas Castro e Edmundo Bittencourt, este do Jornal "Correio da Manhã", com suas esposas. A grande amizade dos tempos da Faculdade de Direito de São Paulo foi interrompida por ocasião da campanha presidencial de Arthur Bernardes. José Felipe era perrenista convicto e Edmundo desferiu violenta campanha contra Bernardes o que, aliás, custou-lhe o fechamento do jornal e resultou em sua prisão durante o governo de Arthur Bernardes.

Este fato trouxe sérias consequencias políticas, pois as providências visando à intalação do banco foram tomadas à revelia do vice-presidente do Estado e então maior líder político pontenovense, Antônio Martins.

Irritado com a intervenção do político viçosense nos negócios de Ponte Nova, Antônio Martins rompe com José Fellipe. Mantém, no entanto, uma posição de neutralidade, não impedindo a vinda deste estabelecimento que significaria importante melhoramento para a região.

Grandes festas e justificada euforia no meio empresarial marcaram a instalação da agência do Banco de Crédito Real de Minas Gerais em Ponte Nova. Para assumir sua gerência foi escolhido o coronel José Domingues Machado, um dos mais ativos empresários da cidade.

José Domingues distinguiu-se como empreiteiro de obras e como líder dos comerciantes da cidade, organizando e presidindo a primeira Associação Comercial de Ponte Nova.

Em razão do grande número de obras publicas, era difundida a especialidade dos empreiteiros que concorriam nas licitações para executar tais construções. Alguns destes empreiteiros, com firmas constituídas, adquiriram fama por terem realizado alguma grande obra.

A Vieira Martins & Cia, dos irmãos José e Francisco Vieira Martins, proprietários da Usina Anna Florência, foi uma dessas grandes empreiteiras.

Construíram, em 1911, o pontilhão de ferro sobre o rio Piranga, para que fossem assentados os trilhos da Leopoldina. Para esta obra de vulto, que havia sido arrematada com a própria Estrada de Ferro Leopoldina, foi necessário a sublocação dos serviços, quando partes da construção foram transferidas a outros empreiteiros, como José Domingues Machado e Manoel Cavalcante de Albuquerque.

O engenheiro responsável era Urbano V. Woolman, então funcionário da Estrada de Ferro e, mais tarde, superintendente e grande acionista da Companhia Açucareira Vieira Martins (Usina Anna Florência).

O governo Caetano Marinho acompanhou, durante todos os onze anos que durou sua gestão, uma moderna orientação, dentro de uma mentalidade avançada.

Leis como a de nº. 189, de 27 de janeiro de 1908, demonstravam, com a proibição da pastagem de animais pelas ruas da cidade, da pesca nos meses de setembro e outubro e do uso de dinamites nas pescarias, a saudável preocupação com a higiene e os inovadores cuidados com o meio ambiente.

Por força de lei, foram construídos dois currais, um na cidade e outro em Palmeiras, nos quais seriam recolhidos os animais que se encontrassem vagando pelas vias públicas.

Tal medida, é bem verdade, não agradou a todos.

A Câmara, em seu expediente do dia 10 de outubro de 1913, informava:

"Expediu-se uma denúncia criminal contra o procedimento de Mário Alypio Rodrigues que, á força, armado de carabina, tomou um animal de sua propriedade, apprehendido porque estava vagando no patrimônio das Palmeiras, isto debaixo de impropérios contra as autoridades. "

Outros donos de animais apreendidos, entretanto, não davam muita importância ao fato e, às vezes, nem chegavam a reclamar seus bichos. É o que mostra um edital de 1908:

"Edital

Bens de Evento

Ovidio Walter Dias, fiscal do districto da cidade de Ponte Nova etc.

Faço publico, para conhecimento de quem interessar possa, que ás 12 horas do dia 10 de setembro vindouro, na porta do paço municipal, serão vendidas em leilão e a quem maior preço oferecer, duas bestas, sem donos conhecidos, apprehendidas como bens de evento neste districto, com os seguintes sinaes:

-A primeira de cor avermelhada, com diversas malhas brancas no lombo, sem marca alguma, ascos regulares de 12 a 16 annos de idade.

- A segunda de pelo de rato pangaré embornal branco, duas pintas brancas no lombo, altura regular, nova e de bons cascos. Quem se julgar com direito a estes animaes, poderá reclamal-os, antes da arrematação, por meio de justificação, processada legalmente, pagando todas as despezas.

Si a reclamação for depois da arrematação, o reclamante terá direito ao producto liquido, deduzidas as despezas.

E para constar, mandei passar este para ser publicado pela imprensa local. Ponte Nova, 10 de agosto de 1908

Ovidio Walter Dias. "

No ano de 1911, circula em Ponte Nova e região o oitavo jornal editado na cidade.

Com data de 06 de junho de 1911, ganha público o primeiro exemplar de "O Município", sob a direção de João Stockler Coimbra, advogado e poeta.

Stockler Coimbra, um dos primeiros diplomados da Faculdade de Direito de Belo Horizonte, natural de Santa Luzia do Carangola, estabeleceu-se em Ponte Nova logo após seu casamento com Augusta do Monte Brant, filha do tenente Augusto Ferreira Brant.

O jovem advogado cria uma linha editorial independente para seu jornal, o que não agrada a muitos políticos locais.

Stockler Coimbra, intelectual versado e poeta de primeira grandeza, atrai para seu convívio e para enriquecer "O Município" outros nomes não menos brilhantes, como os de Sizenando Starling, Arnold de Souza e Francisco Soares.

Grande orador, João Stockler tem rápida passagem pela política de Ponte Nova.

João Stockler Coimbra
Advogado, poeta e grande orador.
Fundou o jornal "O Município" e, na política,
fez forte oposição ao senador Antônio Martins.
 

Em 1910, quando surge a campanha civilista liderada por Rui Barbosa, em Ponte Nova Stockler Coimbra adere ao movimento e, compondo-se com nomes como os de Manoel Vieira de Souza, José de Almeida Campos, Cantidio Drumond, Antônio Manoel Pinto Coelho, Armando Martins Vieira, Caetano de Vasconcellos, José Justiniano Gomes, Antônio Gomes Cândido, Manoel Gomes Ribeiro, Ney Drumond, dentre outros, forma uma forte corrente política, desenvolvendo oposição aos hermistas liderados pelo senador Antônio Martins.

Indispondo-se, desta forma, com as forças políticas dominantes, não adiantou a João Stockler Coimbra vencer as eleições municipais quando, em 1911, disputou a vaga de vereador pelo distrito de Piedade.

Por intermédio da espúria Comissão Verificadora de Poderes, invenção pouco democrática da "Política dos Governadores" que visavam manter as oligarquias no poder depois de proclamada a República, Antônio Martins e seus correligionários não reconhecem a diplomação do vereador João Stockler Coimbra e de outros declarados civilistas: José de Freitas Drumond Neto e Luiz de Assis Marques, eleitos pelos distritos do Grotta e de Jequeri, respectivamente.

Apesar de derrotados nas urnas, são efetivados nos cargos os vereadores José Myboy Campos, Elpidio Guerra e Francisco Romualdo Ribeiro, hermistas e companheiros políticos do Senador.

Pois, como afirma o Prof. Leonardo Trevisan, naquela época "pouco adiantava vencer nas urnas,era preciso vencer também nas Atas, onde normalmente ocorria a degola da oposição."

Em 1913 aparece um novo jornal na cidade, "A Evolução", de propriedade de Aníbal Lopes. Jornalista nato, Anibal associa-se a Arthur Victor Serra e funda, dois anos mais tarde, "O Correio da Semana".

Alguns anos depois, em 1935, o mesmo Anibal Lopes fundaria o "Jornal do Povo", que, sobrevivendo a seu fundador, circula por mais de 40 anos, tornando-se o jornal com existência mais duradoura de toda a região.

Anibal Lopes, tendo trabalhado em diversos periódicos e dedicado toda a sua vida ao jornalismo, pode ser considerado uma das figuras mais importantes da imprensa de Ponte Nova.