PERÍODO CANTÍDIO DRUMOND

Com sérios problemas de saúde, Custódio Silva envia à Câmara, no dia 31 de janeiro de 1925, um pedido de licença para tratamento.

Assume a Presidência do Legislativo e o cargo de Agente do Executivo o Coronel Cantídio Drumond, que, na ocasião, era o Vice-Presidente da Casa. Sua ascensão a tão relevante posição fugiu totalmente à previsão dos políticos da situação. Não sendo, por sangue, membro dos clãs que se revezavam no poder, os Martins da Silva e os Gonçalves Torres, sua arrojada e independente militância política era vista com maus olhos.

Cantídio Drumond
 

Cantídio nasceu a cinco de agosto de 1867, na Fazenda Vitória da Lealdade, em Alto Rio José Pedro, que, mais tarde, se tornaria Ipanema. Órfão de pai com quatro anos de idade, vem para Amparo do Serra, morar com parentes. Aos 17 anos, muda-se para Ponte Nova e emprega-se na firmo J. Bhering & Cia. Com 21 anos de idade, já com alguma expressão política, mas desprovido de fortuna, caso-se com Anna Leonarda Teixeira da Silva. Esse enlace não foi bem visto pela família da noiva, contudo Cantídio Drumond tornou-se genro de Leonardo José Teixeira da Silva, um dos mais expressivos membros da família Martins da Silva. O Dr. Leonardo havia sido Presidente da Câmara de Ponte Nova, Deputado Provincial e, no ano seguinte ao casamento de Cantídio, foi Vice-Presidente da Província.

Muito jovem, engajou-se no movimento republicano e, acompanhando Silva Jardim, levou a propaganda republicana a grande porte dos Estados de Minas e do Espírito Santo.

Seu primeiro cargo eletivo foi em 1907, quando se tornou Vereador à Câmara Municipal de Ponte Nova. Com 56 anos, em 1923, novamente elege-se Vereador, tornando-se o único nome de sua corrente política que poderia compor a mesa do legislativo ponte-novense, na qualidade de Vice-Presidente. Ele, na verdade, sempre estivera em posição contrária à dos Martins da Silva. Fora republicano de primeira hora. Discordara, depois de proclamada a República, da política traçada pelos governantes militares, que compunham com os antigos conservadores. Retornara, com mais vigor, à política na Campanha Civilista. Atacara os Hermistas de todo o Estado. Em Ponte Nova, a corrente política que apoiava o Marechal Hermes tinha em seus quadros os Martins do Silva, que eram liderados pelo Comendador Antônio Martins Ferreira da Silva. Em 1923, Cantídio, como Vereador, estava alinhado com nomes como o do Coronel Francisco Martins do Silva, tradicional oposicionista, também conhecido como Chico Flexa.

A seu favor, Cantídio possuía a respeitabilidade imposta pela idade madura e o bom trânsito no clã dos Martins da Silva. Afinal, ele havia convivido com a família durante os 20 anos em que estivera casado com Anna Leonarda, filha do Dr. Leonardo José Teixeira da Silva. Cantídio também era muito bem relacionado nas capitais do Estado e do País, onde gozava da amizade dos mais importantes políticos de então. Convivera com Ruy Borbosa, General Pinheiro Machado, Wenceslav Braz, Arthur Bernardes, Antônio Carlos, General Flores da Cunha e Olegário Maciel.

A escolha dele para ocupar a Vice-Presidência da Câmara foi um "arranjo" ideal. Ao mesmo tempo que tinha um bom relacionamento com Custódio Silva e Ângelo Vieira Martins, que eram Martins da Silva, ele se identificava com os irmãos Jayme e Sylvio Marinho, representantes dos Gonçalves Torres.

Cantidio Drumond, é bem verdade, era oposição, mas havia granjeado amizades e simpatias entre os membros da situação. Além disso, como um simples Vice-Presidente, ele não tinha como comprometer a estrutura dominante. O que saiu errado foi a doença de Custódio Silvo, que o afastara da Presidência da Câmara e do cargo de Agente do Executivo em janeiro de 1925. Seu afastamento deveria ser temporário e, portanto, o governo de Cantídio também. Porém, a moléstia do Coronel Custódio Silva fora, aos poucos, minando suas forças, e em 31 de agosto de 1925, totalmente impossibilitado de voltar à vido pública, renuncia aos cargos para os quais fora eleito em 23.

No dia 10 de setembro, Cantídio Drumond assume efetivamente a Presidência da Câmara. Nos sete meses em que esteve substituindo o Presidente, Cantídio, político habilidoso, manteve as diretrizes do Presidente afastado, não tomando decisões importantes sem, antes, consultá-lo. Fazia questão absoluta de ser chamado de "Vice-Presidente no Exercício da Presidência da Câmara Municipal de Ponte Nova"

Experiente, o novo Presidente do Legislativo e Agente do Executivo atendia a todos os seus pares com muita cordialidade, dispensando a todos a atenção devida. Assim, à vontade, os vereadores passaram a apoiar Cantídio Drumond e seu projeto político-administrativo.

E, de fato, Cantídio tinha um projeto. De posse de um minucioso levantamento feito pelo estatístico Alberto Martins, no qual foram levantados todos os núcleos produtivos do município, ele iniciou a construção de estradas de rodagem, ligando esses pontos à sede. O estabelecimento dessa malha rodoviária tinha como objetivo facilitar o transporte da produção agrícola, que, na ocasião, representava quase 90% da renda do município.

As primeiras estradas abertas ligavam a Estação de Bandeiras ao Distrito de Urucânia, Palmeiras à Usina Anna Florência e trecho da estrada da Usina do Britto, a estrada que ia do Matadouro Municipal à Raza.

Junto com a abertura de estradas, Cantídio inicia uma série de obras no meio urbano. Surgem as primeiras ruas calçadas com paralelepípedos na cidade. São beneficiadas as Ruas do Rosário, Caetano Marinho, Municipal, Vigário Miguel Chaves, Maior Soares (parcialmente), Senador Antônio Martins, João Pinheiro e Arthur Bernardes.

O Município de Ponte Nova tornou-se um verdadeiro canteiro de obras. Junto com as construções levadas a efeito pela administração municipal, outras importantes obras eram executadas pela iniciativa privada e pelos governos estadual e federal.

Hotel Glória nos dias de hoje.
Longe do "Glamour" dos anos 20.

O suntuoso "Hotel Glória" era inaugurado em fevereiro de 1925, por seus proprietários, Sebastião Drumond, filho de Cantídio, e Antônio Pinto de Oliveira. A Usina Jatiboca, cuja empresa havia sido constituída em 1920, mói sua primeira safra em 1926 e é festivamente inaugurada a 23 de setembro desse ano. O Bairro de Palmeiras ganha a Matriz de São Pedro, em 28 de novembro de 1926.

Entretanto, a obra que marcou essa fase foi a chegada a Ponte Nova do ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil. Desde 23 de julho de 1889, quando a estrada de ferro chegara a Ouro Preto, a região pleiteava a ligação de Ponte Nova à antiga capital de Minas, ficando, assim, ligada também à moderníssima Belo Horizonte. Essa obra, tão almejada, foi, de fato, iniciada nos primeiros anos da República, durante o governo de Prudente de Moraes. Só em 1914 Mariana receberia os trilhos da Central do Brasil. A partir daí, os trabalhos tornaram-se ainda mais morosos.

Com a ascensão política de Arthur Bernardes, que, sendo da região, conhecia a importância dessa ligação, a obra adquiriu novo ritmo. José Domingues Machado e Custódio Silva ganharam a empreitada da construção do ramal, cuja inauguração aconteceu ainda durante o governo de Bernardes, no dia 28 de agosto de 1926.

O Presidente Bernardes, que havia deixado o Palácio do Cotete para inaugurar, na sua terra natal, a Escola Superior de Agricultura de Viçosa, que evoluiria, mais tarde, para Universidade Rural de Minas Gerais (UREMG) e, em seguida, para a importante Universidade Federal de Viçosa (UFV), aproveita para tombém inaugurar, em Ponte Nova, a Estrada de Ferro. Deslocaram-se para Viçosa, representando o Câmara de Ponte Nova, o Vice-Presidente Raimundo Martiniano Ferreira e os Vereadores José Felipe de Freitas Castro e Francisco Martins da Silva, amigos pessoais de Bernardes. Às 14h30min, chega a Ponte Nova, em uma composição especial da Leopoldina, a Comitiva Presidencial. Arthur Bernardes fazia-se acompanhar do seu Ministro da viação, Francisco Sá, do Presidente de Minas, Fernando de Mello Viana, do Secretário Estadual da Agricultura, Daniel de Carvalho, e do Capitão e futuro Almirante e Ministro da Marinha Jorge Dodsworth Martins, ponte-novense de nascimento. Os representantes da cidade que haviam ido até viçosa acompanhavam a comitiva no vagão especial.

Presidente Bernardes em Ponte Nova
Aparecem na foto Ângelo Vieira Martins, Cantídio Drumond, Cristiano de Freitas Castro,
Emílio Jardim de Resende, José Felipe de Freitas Castro, Eugênio Lamartine,
Antônio Manoel Pinto Coelho, Jarbas Sertório de Carvalho, Miguel Lanna e outros correligionários.

 

Na gare da Leopoldina esperavam o Presidente da Câmara, Cantídio Drumond, todos os vereadores e demais autoridades municípios. No Hotel Glória, o Presidente foi saudado por Evaristo de Freitas Castro, filho de José Felipe.

Em nome de Arthur Bernardes, agradeceu o Ministro Francisco Sá.

Ponte Nova atravessava uma fase de grande progresso e desenvolvimento. Nas classes empresarial e política e no povo em geral tudo era otimismo. Na Câmara, Cantídio Drumond desconhecia oposição, e o seu retorno para o período seguinte (1927 a 1930) foi apenas uma conseqüência. A habilidade política de Cantídio Drumond e uma administração proveitosa, que pode contar com a boa vontade política de homens como Arthur Bernardes, Raul Soares e Mello Viana, reconduziram-no, novamente, à chefia supremo do município.

Em 1926, no dia 9 de setembro, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade assume a Presidência de Minas em substituição a Mello Viana. Este, eleito Vice em 22, assume o cargo deixado vago com o falecimento de Raul Soares, em 1924. Na Presidência da República, Washington Luiz substitui Arthur Bernardes.

Em Ponte Nova haviam morrido o Deputado Camilo Augusto Maria de Brito e o ex-Presidente da Câmara, Custódio Silva. Este, não resistindo à peritonite que há algum tempo o incomodava, falecera no dia 19 de setembro de 1926, aos 52 anos de idade, em sua residência, no Bairro de Palmeiras.

O ponte-novense Luiz Martins Soares, também conhecido por Zito Soares, com 37 anos de idade, elege-se Deputado Estadual. Sua eleição, no entanto, não teve o apoio de Cantídio Drumond, que havia dado claros sinais de que esta não lhe agradava. Assim, o jovem advogado viu-se sem legenda partidária para disputar o cargo, não lhe restando senão o opção de sair candidato "extrachapa" Esse expediente, que constava da legislação da época, permitia que um candidato concorresse a cargo eletivo sem um vínculo partidário desde que, evidentemente, possuísse o apoio político necessário.

Esse apoio, imprescindível a Zito Soares, surgiu de uma composição engendrada por Emílio Martins da Silva, líder político do então Distrito do Rio Doce. Emílio, como consta em seu nome, era membro do clã dos Martins da Silva e, portanto, parente de Luiz Martins.

Desde que assumira a vereança, em 12 de maio de 1927, Emílio assumira oposição a Cantídio Drumond e exercia certa liderança sobre outros chefes políticos distritais, que foram convocados para apoiar a candidatura rebelde. As sim, Zito Soares obteve uma votação expressiva. Essa eleição projetou-o no cenário político mineiro, de tal forma que, nos anos seguintes, ele se tornaria um dos mais importantes políticos do Estado de Minas.

Luiz Martins Soares nasceu a 22 de novembro de 1888, filho do Maior Manoel Olympio Soares e Francisca Ignácia Martins. Era, portanto, um puro Martins da Silva, da Fazenda Quebra Canoa, uma vez que, pelo lado materno, era bisneto do Capitão Manoel José Martins da Silva.

Com a eleição de Zito Soares, inicia-se um trabalho lento e gradativo, visando reverter o quadro político em Ponte Nova, onde Cantídio Drumond detinha o "mando" político. Isso só ocorreria, de fato, nove anos mais tarde, quando Cantídio se retira da vida pública e é substituído, na Prefeitura, por Otávio Martins Soares, irmão do Zito.

Novo período legislativo inicia-se em 12 de maio de 1927 e deveria se estender até 31 de dezembro de 1930, caso não houvesse a revolução de três de outubro de 1930. Assumem, como Vereadores, Ângelo Vieira Martins, Anselmo Vasconcellos, Aniceto de Barros, Emílio da Silva Martins, Emílio Martins, Emílio Rabello Barbosa, Francisco Martins da Silva, José Pinheiro Brandão, Josephino Caldeira, Octávio Martins Soares e Pedro Tibúrcio Alves de Souza. Cantídio Drumond é reconduzido à Presidência e Jayme Marinho ò Vice-presidência.

Cantidio Drumond não diminui o ritmo de trabalho. Continua cortando o município com estradas que ligam a cidade a Amparo do Serra, Oratórios, Bandeiras e Pontal. Outros ligam a região denominada Chalé à Estação do Vau-Açu e à Fazenda das Perobas, na divisa de Jequeri. São dezenas de quilômetros que passam a ligar várias regiões produtoras, o que, de fato, facilitava o escoamento da produção agrícola.

Ainda na legislatura anterior, pela Lei nro. 372, de 22 de janeiro de 1927, a Câmara autoriza o Agente do Executivo a adquirir a antiga propriedade denominada Villa Centenário. Cantídio Drumond, já no novo período, concretiza a negociação e abre o novo bairro, ampliando, assim, o perímetro urbano da cidade. E construído o Matadouro Municipal e iniciada a grandiosa obra do cais da Avenida Arthur Bernardes.

Em terreno situado na esquina da Rua Senador Antônio Martins com a Avenida Arthur Bernardes, adquirido pela Câmara, é construído o Almoxarifado Municipal. Também, o serviço de calçamento das vias públicas, com paralelepípedos, continua sendo executado. Em 15 de março de 1928, Cantídio Drumond inaugura a ponte, construída com cimento armado, sobre o ribeirão Vau-Açu, normalizando, definitivamente, o tráfego entre o Centro e o Bairro de Palmeiras. A Avenida Caetano Marinho é urbanizada, recebendo canteiros centrais e calçadas decoradas com pedra-portuguesa.

Nesse período, Cantídio também volta os olhos para o ensino e a instrução pública. Cria a Biblioteca Pública e organiza o Arquivo Municipal. Só no ano de 1928 são criadas nada menos do que 30 escolas, distribuídas por todos os cantos do município. São feitas gestões no governo do Estado, visando ò construção de novo Grupo Escolar na cidade e outro no Bairro de Palmeiras, cujas construções, de fato, se iniciam no ano de 1928.

Grupo Escolar Dr. José Mariano -
Construído por Cantídio Drumond em Palmeiras

Afirmando que traria resultados práticos, além de substanciais dividendos políticos paro Ponte Nova, mormente no que diz respeito à divulgação de seu nome, Cantídio Drumond resolve realizar o Congresso das Municipalidades. Em maio de 1928, esse evento traz a Ponte Nova delegados de dezenas de cidades da Zona da Mata. Para a abertura do Congresso comparecem o Presidente do Estado, Antônio Carlos Ribeiro de Andrade, o Ministro da agricultura, Odilon Braga, e os Secretários de Estado, Gustavo Capanema e Israel Pinheiro.

Participante do Primeiro Congresso Mineiro de Municípios - 1928
 

Na realização desse conclave foram feitos grandes esforços por parte da administração municipal. Especificamente na escolha do local onde ocorreriam as reuniões, curioso fato demonstra a capacidade de trabalho, a tenacidade e o espírito aventureiro de Cantídio Drumond. Sem um local apropriado, que comportasse confortavelmente todos os delegados e convidados, o Agente do Executivo convenceu os diretores da Companhia Telefônica Aliança Mineira da necessidade de demolir o imóvel de propriedade da companhia, localizado nas confluências das Ruas Municipal (hoje Benedito Valadares), Rosário (hoje Cantídio Drumond) e a Praça da Matriz (hoje Getúlio Vargas). No local do velho casarão foi construído, em 60 dias apenas, um moderno e interessante edifício, inaugurado para a abertura do referido evento. Esse prédio existe ainda hoje, pertencendo, atualmente, à Associação Comercial da cidade.

Prédio Construído para o Primeiro Congresso
Mineiro de Municípios - 1928

Hoje, Associação Comercial e Industrial do Vale do Piranga.

 

O ano de 1929 ficou marcado pela construção, em concreto armado, da ponte da Barrinha. A velha ponte de madeira, sem nenhuma segurança, já não cumpria sua finalidade de desafogar o trânsito da ponte Arthur Bernardes, então única ponte de cimento da cidade. Essa obra foi executada pela municipalidade, tendo, entretanto, a ainda do Estado, que destinou 120:000$000 para sua efetivação.

Ponte da "Barrinha" em fase final de Construção.

A abertura de estradas continuava sendo item importante no governo de Cantídio Drumond. Em 1929, foram construídas as rodovias Jatiboca-Santa Cruz do Escalvado, com 14 quilômetros; Paiol-Piedade de Ponte Nova, com 8.000 metros; e Perobas-limite do Município de Jequeri, com 9 quilômetros.

O ano de 1930 reservava surpresas para Ponte Nova, como de resto para todo o País. A economia estava combalida. O "crack" da Bolsa de Nova Iorque, que derrubou a economia americana e carregou consigo toda a estrutura financeira do Ocidente, se fazia sentir também em Ponte Nova. Produtora de café, com fortes comerciantes e exportadores do produto, a cidade só não faliu completamente por ter também outras atividades, como a lavoura, a indústria da cana-de-açúcar e a bovinocultura.

Esse ano também foi marcado pela agitação política, que culminou com a revolução de três de outubro e o início de uma nova fase na história da República brasileira.

Com a argumentação de que a eleição de Júlio Prestes, ex-governador de São Paulo, havia sido fraudada para assegurar a "política do café-com-leite", na que( se revezavam presidentes paulistas e mineiros, surgiu o movimento denominado Aliança Liberal. Os liberais se fortaleceram, alastraram-se pelo País e, aproveitando o assassinato de João Pessoa, que havia sido candidato a vice-presidente na chapa derrotada de Getúlio Vargas, levaram a efeito a revolução que depôs o Presidente Washington Luiz, já no finalzinho de seu mandato, deportando-o para Portugal e dando posse a Getúlio Dornelles Vargas.

A revolução de 30 trouxe, em seu bojo, reformas radicais. Foi interrompido o período conhecido como República Velha, ou Primeira República, que se havia iniciado com a queda da monarquia, no qual prevalecia a "Política dos Governadores". No interior governavam, com mão de ferro, os "coronéis", que recebiam as dádivas dos governadores. Era um verdadeira simbiose: os coronéis, desfrutando das benesses do governo do Estado, se mantinham no poder. Com o poder absoluto nas cidades, eles detinham os votos da sua região, mesmo que de forma fraudulenta. Esses votos eram, então, destinados aos elementos indicados pela estrutura dominante, que, dessa forma, se perenizava.

O caudilho gaúcho assumiu a Presidência da República, estruturou-se nos Estados da federação e decidiu perpetuar-se no poder. Não convocou a prometida Constituinte e passou a hostilizar ex-aliados que queriam ver executado o programa da Aliança Liberal.

Getúlio Vargas foi mais votado do que Júlio Prestes em Ponte Nova, onde Olegário Maciel, para o governo de Minas, também recebeu a maioria dos sufrágios, nas eleições de 30.

No pleito daquele ano, Luiz Martins Soares chegou à Câmara Federal e teve sua liderança cristalizada.

Cantídio Drumond, ligado aos líderes mineiros da Aliança Liberal, como Antônio Carlos, Arthur Bernardes, Virgílio de Mello Franco e outros próceres, assumiu a causa liberal. Seu envolvimento com a Revolução de 1930 extrapolou os limites de Ponte Nova. Com grande experiência e vasta penetração em todo o Estado, ele articulou o movimento em grande parte do Zona da Mata, no Vale do Rio Doce e até em regiões do Espírito Santo, onde também exercia significativa influência.

Batalhão de voluntários que sequiria para o "front"da Revolução de 30.Em primeito plano aparece o vice-Presidente da Câmara, Jayme Marinho.

 

Vitoriosa a Revolução, Olegário Maciel foi conduzido ao comando do Estado, pois, além de ter, de fato, sido eleito, ele era um aliancista de primeira hora. Em Ponte Nova, ocorreu fato semelhante. Cantídio, que concluía o mandato iniciado a 12 de maio de 1927 e havia prestado relevantes serviços à causa revolucionária, foi mantido no governo do município.

Todos os governantes de estado indicados pelo governo revolucionário passaram a ser denominados Governadores. Os mandatários municipais, a partir de 1930, passaram a ser designados Prefeitos Municipais, e foi com esse título que Cantídio Drumond continuou à frente dos destinos de Ponte Nova, depois de 24 de outubro de 1930.

O biênio que se seguiu foi marcado pela desaceleração do ritmo alucinante de obras que Ponte Nova vinho experimentando. Era a crise instalada na economia brasileira. O Estado fechou a torneira dos recursos. A contenção de despesas chegou a afetar as escolas públicas e, no município, foram fechados 24 estabelecimentos de ensino, que, até então, eram mantidos pelo governo do Estado. Os empréstimos a que Cantídio Drumond sempre recorria para manter o grande número de obras em andamento se escassearam. Os bancos já não dispunham das polpudas linhas de crédito de outrora.

Nesse período, entretanto, Cantídio Drumond reabriu, a expensas dos cofres municipais, oito das escolas estaduais fechadas, concluiu a abertura da estrada que ligava a Estação de Felipe dos Santos ao Distrito de Barra Longa e estabeleceu o Serviço de Iluminação Pública nos Distritos de Santa Cruz do Escalvado e Piedade de Ponte Nova, assim como no povoado do Xopotó.

Pronto o espaçoso edifício do Grupo Escolar Antônio Martins, situado no Bairro da Olaria, Cantídio Drumond fez calçar a Rua Presidente Antônio Carlos, que dava acesso ao moderno estabelecimento.

O antigo edifício do "Grupo", situado na Praça da Matriz, foi totalmente reformado e passou a abrigar diversas repartições públicas municipais.

No decorrer dos anos de 1931 e 1932, as tensões políticas foram constantes no âmbito nacional. Em São Paulo, uma sucessão de medidas impopulares, levadas a efeito por Getúlio Vargas, fez desabrochar a idéia revolucionária, que rapidamente se espargiu por outros Estados, como Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Grandes nomes da política nacional tramavam uma nova revolução para depor Getúlio, convocar a Constituinte e colocar o País nos caminhos do democracia. Forjavam a Revolução Constitucionalista, que, afinal, eclodiu em 9 de julho, em São Paulo.

Em Minas, Olegário, desde o início, rejeitou a idéia de se opor frontal mente a Getúlio Vargas, mas se comprometeu com a cúpula do Partido Republicano Mineiro - PRM a manter a Força Pública, como era denominada a polícia mineira, nos quartéis. Antônio Carlos e, principalmente, Arthur Bernardes tinham como certa a isenção do velho Presidente de Minas.

Contrariando o que havia sido acordado, Olegário Maciel assume posição contrária ao movimento. A Força Pública marcha para o sul do Estado, a fim de dar combate às tropas paulistas, aquarteladas na divisa dos dois Estados.

Muito próximo a Ponte Nova, em Viçosa, Arthur Bernardes se recolhe em seu "bunker", de onde passa a coordenar as forças revoltosas de Minas Gerais. Para aquela cidade também se voltam as atenções do governo de Minas. Bernardes precisava ser neutralizado, e, para isso, Olegário envia para Ponte Nova um corpo de voluntários, sob o comando de oficiais da Força Pública.

A convocação de voluntários ocorreu porque a maioria absoluta do efetivo da Força Pública estava combatendo no sul e, para atuar no interior do Estado, o governo recrutou, sem nenhum critério, milhares de elementos dos mais afastados pontos de Minas Gerais. Marchando sob o comando de oficiais verdadeiros, estes aventureiros, em muitos confrontos, deram mostras de completo despreparo.

Bloqueando as estradas que deixavam Viçosa, através de Ponte Nova e Visconde do Rio Branco, as autoridades mineiros pretendiam isolar Arthur Bernardes e seus partidários estabelecidos na cidade vizinha.

Em Ponte Nova, Cantídio Drumond manteve-se fiei ao Presidente do Estado e a Getúlio Vargas Contrário à Revolução Constitucionalista, Prefeito do cidade e Coronel da Guarda Nacional eram as melhores credenciais para que lhe fosse conferido o comando geral do movimento contra-revolucionário na região. Essa honraria, entretanto, foi rejeitada por Cantídio Drumond. Pelo que tudo indica, ele não queria tomar medidas impopulares e que comprometessem velhas amizades com outros líderes regionais que aderiram à Revolução.

Assim, foi que o prefeito de Ponte Nova se negou a acompanhar o Coronel Oliveira quando este seguiu para a Fazenda do Canadá, à procura de Cristiano de Freiras Castro, filho do velho prócer do PRM, José Felipe de Freitas Castro, e genro de Bernardes. Em outra ocasião, quando foi preso em Ponte Nova o Coronel Antônio Pádua de Bittencourt, líder político da vizinha Cidade de Teixeiras, Cantídio Drumond, novamente contrariando os oficiais da Força Pública, impediu que o político teixeirense fosse embarcado, algemado, para o Rio de Janeiro. Cantídio também não quis se envolver na série de medidas tomadas pelos militares, sediados em Ponte Novo, que visavam prender o seu velho amigo e ex-Presidente da República, Arthur Bernardes.

O Prefeito de Ponte Nova manteve-se fiel ao Presidente do Estado, apoiava Getúlio Vargas mas não queria brigas domésticas.

Em 32, já despontava outra importante liderança política em Ponte Nova. O Deputado Federal Luiz Martins Soares era "bom de voto", já havia se firmado como um astuto articulador político e possuía importantes ligações nas capitais do Estado e do País.

Na sua terra natal, ele não "lia na mesma cartilha" do velho Prefeito, que assumia, desde as primeiras horas, uma posição pró-Getúlio. E bem verdade que Zito Soares queria ver um aliado seu na Prefeitura, pois esse era o próximo passo para ver concretizada, de fato, a sua liderança em Ponte Nova. E esse aliado, evidentemente, não seria o Prefeito, que tinha luz própria e ainda era o verdadeiro chefe político de Ponte Nova. Assim, sua posição durante a Revolução de 32, teoricamente, deveria ser contrária à de Cantídio. Entretanto, amigo dos principais assessores do Presidente Olegário, o jovem Deputado não poderia aderir à Revolução apenas para medir forças com Cantídio Drumond. Seria o seu suicídio político.

Um dos pelotões de voluntários se instalou no edifício pertencente à Companhia Telefônica Aliança Mineira, onde funcionava o Câmara de Vereadores, na Praça da Matriz. O outro foi alojado no recém-construído Grupo Escolar José Mariano, na Praça de Palmeiras. Pouco trabalho tiveram esses dois contingentes, que somavam 120 homens.

José Felipe de Freitas Castro, ex-Deputado e ex-vereador em Ponte Nova, bernardista fervoroso, e três de seus filhos, Evaristo, Caio e Cristiano, foram as figuras principais do movimento constitucionalista em Ponte Nova. Também aderiram ao movimento o advogado José André de Almeida, filho de Custódio Silva, ex-Presidente da Câmara e Agente do Executivo de Ponte Nova; o também advogado, banqueiro e ex-vereador Emílio Rabello Barbosa; o ex-Promotor e Vereador Pedro Moura; Antônio Manoel Pinto Coelho; e o comerciante, estabelecido na Usina Anna Florência, Paulo Pereira da Silva.

Nos distritos, algumas lideranças ligadas a Arthur Bernardes também se manifestaram a favor da Revolução. Em Piedade de Ponte Nova, Francisco Martins da Silva, o Chico Flexa, e seu filho, apelidado por Fidoca, sediados na Fazenda do Pântano, tomaram parte ativa no movimento. Amaro Gomes, em Santa Cruz do Escalvado, o farmacêutico Antônio Ayres de Souza, em Urucânia, e João Pereira, em Rio Doce, também eram simpatizantes da causa constitucionalista, embora tenham tido atuação pouco marcante no movimento de 32.

Evaristo e Cristiano de Freitas Castro foram presos em Viçosa. Caio foi apanhado na Fazenda de Otávio Bernardes, sobrinho do ex-Presidente, em Ipanema. José André de Almeida e o Fidoca deixam Ponte Nova durante uma madrugada de setembro. Paralelamente, as forças paulistas iam-se enfraquecendo, e em Visconde do Rio Branco e São Geraldo são presos o médico José Domingues Machado Filho, também genro de Bernardes, e o todo-poderoso dono dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, respectivamente.

A Revolução Constitucionalista durou pouco, e para a região tudo terminou, em 24 de setembro, com a prisão de Arthur Bernardes, em uma fazenda, nas proximidades de Viçosa.

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É do folclore político de Ponte Nova o curioso diálogo entre Cantídio Drumond e um funcionário da Prefeitura local em 1932. A cidade se preparava para comemorar o centenário da criação da Paróquia de São Sebastião. Era uma data importante, pois, no século passado, o elevação de uma Capela Filial, como a de Ponte Nova até 14 de junho de 1832, à categoria de Paróquia era acompanhada de uma série de mudanças políticas e administrativas que traziam significativas vantagens para o lugar. Aproximando-se o dia do centenário, todos trabalhavam no embelezamento da cidade. Os funcionários da Prefeitura tratavam dos locais públicos, consertando muros e passeios, armando palanques e limpando ruas e praças. A população se preocupava com suas residências. Algumas tinham suas fachadas reformadas e outras eram apenas pintadas. O trabalho era incessante. O funcionário público municipal Juquinha, com a função de coordenar os trabalhos de seus colegas, estava a ponto de se desesperar. Dormia pouco, não tinha mais tempo paro ira casa almoçar e não via mais a família, tal a sobrecarga de trabalho. No dia 12, o Prefeito corria as diversas frentes de trabalho, quando encontrou o Juquinha alguns quilos mais magro, muito abatido, a correr de um lado para o outro. Ao avistar Cantídio Drumond, Juquinha se aproxima, cumprimenta-o, respeitosamente, e diz:

- í, Coronel, neste centenário O senhor me pegou, mas, no próximo, o senhor não precisa contar comigo não, viu ?

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(Extraído do livro " Lavoura e Riqueza, Voto e Poder" do escritor e historiador Antônio Brant. À este grande pontenovense, todos os créditos)