OS DESBRAVADORES

 

No inicio da colonização do Brasil, por diversas razões todos os interesses do Reino concentravam-se no litoral ou próximo dele.

O extrativismo, com a produção do pau-brasil e o plantio da cana-de-açúcar, não se expandiu, logo no princípio, pelo interior da colônia.

O fator orográfico, com certeza, foi um dos que mais desmotivaram a penetração dos colonizadores. A Serra do Mar, que mais se assemelha a uma grande muralha, recoberta, naquela época, por densas matas, dificultava a penetração do branco.

Em 1585, Fernão Cardim, tendo acompanhado o padre jesuíta Cristóvão de Gouveia, da Companhia de Jesus, em uma viagem de São Vicente até São Paulo, relatou: "O caminho é cheio de tijucos, o pior que nunca vi e sempre íamos subindo e descendo serras altíssimas e passando rios e caudais de águas frigidíssimas"

Os rios, que na América do Norte serviram aos pioneiros nas viagens rumo ao interior, no Brasil puderam servir tão-somente como pontos de referência. De modo geral, os rios brasileiros oferecem poucas condições a navegação, apresentando grande número de quedas d'água, corredeiras e formações rochosas em seus leitos. Esse foi outro fator que atrasou a penetração do branco no território brasileiro.

Algumas poucas expedições foram feitas ao atual território de Minas Gerais, durante os séculos XVI e XVII. Essas entradas foram, no entanto, muito mal registradas e, hoje, sobram poucas informações sobre os caminhos e os acontecimentos das viagens dos primeiros desbravadores.

Na realidade, os bandeirantes, em sua grande maioria, eram homens corajosos o suficiente para aventurar-se em regiões desconhecidas e fortes o necessário para sobreviver às mais diversas privações, mas suficientemente despreparados para não dar importância ao registro e à documentação de suas viagens.

Assim, toda uma bandeira vagueava por anos, adentrando matas e sertões, sem um elemento sequer com conhecimento de astronomia e geografia para guiá-la com exatidão. Até mesmo a interpretação errôneas da língua de uma tribo indígena fazia com que uma expedição alterasse seu percurso, concluindo, as vezes, incursões infrutíferas.

A própria inexistência de uma pessoa responsável pelo diário e pelas anotações das bandeiras comprometia o correto registro da viagem. Nem mesmo os grandes historiadores conseguiram definir, com exatidão, os caminhos destes primeiros exploradores.

J. Capistrano de Abreu, comentando a descrição de Gabriel Soares sobre a viagem de Sebastião Fernandes Tourinho, diz: "No meio destas indicações e contra indicações, fielmente resumidas por Gabriel Soares, é impossível uma pessoa entender-se. "

O cientista alemão W. L. Von Exchewege, que viajou pelo interior de Minas, ocupando-se de geologia e mineralogia no inicio do século XIX, deixou registrado o seguinte: "Em um pais inculto, onde não haviam ainda penetrado os homens civilizados, sendo os seus primeiros descobridores privados de toda instrução científica, não é de se admirar que estas andassem muitos dias como que em circulo, apequenas distâncias das localidades de onde haviam partido. "

A região de Ponte Nova tinha como porta natural o vale do rio Doce. Por ele chegavam os primeiros exploradores, vindos da Bahia, a procura da foz desse grande rio. Sabe-se que Sebastião Fernandes Tourinho tenha subido o rio Doce até a sua origem. Ora, hoje é considerada a origem do rio Doce a união dos nos Piranga, Carmo e Xopotó, poucos quilômetros abaixo de Ponte Nova. Naquela época, então o bandeirante considerou a "origem do rio Doce" a nascente do Piranga, do Carmo ou do Xopotó?

J. Capistrano de Abreu, no "Caminhos Antigos e Povoamento do Brasil", fala que Fernandes Tourinho teria subido o rio Doce até junto ao "Cuité".

Já Johann Moritz Rugendas, ilustre desenhista, pintor e gravador alemão, em seu "Viagem Pitoresca através do Brasil" (1835)afirma: "Sebastião Fernandes Tourinho foi o primeiro português que, da costa, penetrou o interior do pais. Partindo, em 1573, de Porto Seguro, subiu o rio Doce até as proximidades de Vila Rica... " passando, portanto e inevitavelmente - pela região de Ponte Nova

Na "História do Brasil", de Pedro Calmon, não se reconhece o percurso exato de Tourinho: "Largou ele (Fernandes Tourinho) em canoas de Porto Seguro, alcançou e subiu o rio Doce (que os índios chamavam Mandij, e explorou-lhe as margens para o sul, voltando com alvissareiras noticias de pedras verdes. É a história das esmeraldas que começa. Pretende Gabriel Soares que Tourinho tivesse chegado à vista da Serra dos Órgãos "

Hoje, é sabido que Fernandes Tourinho não encontrou as esmeraldas, que foram o sonho de muitos bandeirantes, e podemos questionar, considerando o pouco conhecimento da geografia da região e as precárias anotações que se têm da época, uma possível confusão da Serra dos Órgãos com os picos íngremes da região de Ouro Preto ou, mesmo, com as montanhas escarpadas da Serra dos Arrepiados (Araponga-MG).

Só depois de 1650 é que, com o incentivo dos reis de Portugal, se intensificaram as incursões nos territórios mineiros. Já naquela época eram crescentes os boatos da existência de verdadeiros eldorados no interior do País.

Essas expedições partiam, entretanto, sem qualquer outro interesse que não o da descoberta de ouro e pedras preciosas. Os desbravadores não pretendiam sesmarias e nem se interessavam em se fixar nas terras descobertas.

Há notícias de que José Gomes de Oliveira e Vicente Lopes foram das margens do Paraíba às nascentes do rio Doce, passando, muito provavelmente, pelas proximidades de Ponte Nova.

Foi o bandeirante taubateano, Antônio Rodrigues Arzão, que, seguindo os caminhos abertos por Fernão Dias Pais (1674-1681), teria descoberto a primeira jazida de ouro nos sertões das Minas Gerais, em 1692 ou 1693.

"Antônio Rodrigues Arzão por 1692 (neto de Brás Rodrigues Arzão) andara com cinqüenta companheiros pelos mesmos rumos (bacia do rio Doce). Encontrou deveras, no rio da Casca, areias auríferas; encheu os alforges; e descendo o rio Doce chegou ao Espirito Santo, a Cujo capitão-mor comunicou o descobrimento. O roteiro, deu-a ao con-cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira, também paulista, que se pôs em campo - em 1694 - através das regiões de Congonhas e Suaçui".

Diogo de Vasconcellos detalha a viagem de Arzão que, após breve estada em Itaverava, alcança a Serra do Guarapiranga de onde, pela manhã, avista os píncaros agudos de Arrepiados. Afirma ainda que, em razão da luz oriental, supôs mais próxima a serra. Seguindo, então, em sua direção, encontra o rio Piranga.

"Há várias versões sobre quem descobriu o ouro das Minas Gerais. Prevalece, geralmente, aquela que atribui à bandeira de Antônio Rodrigues Arzão a descoberta que localizou cascalhos auríferos nos sertões do rio Casca, por volta de 1693. Arzão morreu logo após regressar a Taubaté. Mas deixou a seu cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira, os dados necessários para futuras expedições. Em meados de 1694 Bartolomeu Bueno e Carlos Pedroso da Silveira, este ultimo companheiro de Arzão, descobriram ouro na serra de Itaverava e remeteram amostras para o Rio de Janeiro".

Com a escassez de alimentos, Bartolomeu Bueno divide seus homens, deixando alguns sob o comando do capitão Miguel Garcia de Almeida e Cunha a cuidar de plantações de milho, e segue com os demais em direção ao rio das Velhas.

Miguel Garcia, enquanto aguardava a produção das lavouras, fez algumas incursões, chegando a alcançar o rio Gualaxo do Sul, em cujo leito descobriu abundantes de ouro. Mais tarde, e após desentendimentos com Bartolomeu Bueno, embrenha-se no Sertão do Guarapiranga, onde, numa emboscada dos botocudos, é morto.

Com referência à Casa da Casca, citada por Arzão e companheiros, querem alguns autores que se localizava nas imediações do Cuité, enquanto outros apontam para aquela construção a região onde hoje se encontra a cidade de Abre Campo(MG). Entretanto, Salomão de Vasconcelos diz que a localização exata da Casa da Casca é nas fraldas da Serra dos Arrepiados, em Araponga (MG).

Mais uma vez, fica patente a inexistência de qualquer acompanhamento técnico ou cientifico nas nossas Entradas.

Todos esses desencontros e escassez de informações tornam impossível, ao pesquisador, afirmar, com exatidão, quem foram e quando estiveram na região de Ponte Nova os primeiros desbravadores.

Entre os anos de 1695 e 1696, o bandeirante taubateano Salvador Fernandes Furtado descobriu riquíssimas jazidas no ribeirão do Carmo e ali se estabeleceu com Carlos Pedroso da Silveira e Bartolomeu Bueno. Logo, surgiu o povoado, para onde afluíram aventureiros à cata do precioso metal. "Os arraiais começavam por um rancho de tropas onde os mineradores iam fazer suas compras em mãos dos comboieros que levavam, do Rio ou de São Paulo, mercadorias de consumo. Disseminados pelas montanhas e vales, os lavradores e mineradores erguiam casas junto às capelas e aos sábados vinham nelas pernoitar com suas famílias para no domingo assistirem a missa e fazerem suas compras".

Enquanto isso, outro bandeirante de Taubaté, Antônio Dias, encontrava as primeiras minas nas margens do Tripuí. Também, o padre João de Faria percorria aquela região e, acompanhado pelos paulistas Tomás Lopes de Camargo e Francisco Bueno da Silva, descobrira inúmeras jazidas, das quais se extraía, em abundância, ouro de uma coloração negra, que chamaram de ouro preto.

Todos esses desbravadores, com a mesma ambição com que se deslocaram de seus lares, no longínquo São Paulo, com toda certeza, expandiram suas explorações de forma centrífuga em relação ao Itacolomi. É muito provável, também, que nessa época o rio Piranga e a região de Ponte Nova tenham sido minuciosamente vasculhados.

De certo, Francisco Bueno de Camargo divide com outros a glória do pioneirismo na povoação da região de Barra Longa. Por ali andou Bueno de Camargo a procura de novas descobertas de ouro.

Consta, também, que esse paulista tenha fundado algumas povoações nas margens do rio Piranga, uma das quais, citada pelo cônego Raimundo Trindade, no encontro do ribeirão do Carmo como rio Piranga, na qual teria feito construir uma capela.

Esse emérito genealogista e historiador atribui ao mestre de campo Matias Barbosa da Silva o desbravamento e a povoação de Barra Longa e região.

A julgar pela proximidade e analisando o espírito inquieto de Matias Barbosa, certamente suas viagens e incursões visaram também à região de Ponte Diogo de Vasconcellos descreve uma dessas incursões: "Em 1734, tempo em que esses selvagens (referindo-se aos botocudos), vinham até as imediações do Furquim, o mestre de campo Matais Barbosa, em acordo com o conde de Galesa, desceu com uma bandeira de setenta camaradas e cinqüenta escravos, em batida a esses canibais até as Escadinhas da Natividade; e nesta ocasião fundou o Presídio de Abre Campo, como anteparo que os contivesse".

Nos trinta anos que ele esteve na zona do Carmo, é evidente que, audaz e aventureiro como era, pesquisou todo o rio Piranga, em suas duas margens.

Em seu testamento, redigido no dia 1º de fevereiro de 1738, consta que Matias Barbosa possuía, dentre muitos outros bens, "terras minerais na freguesia do Gorapiranga" (Guarapiranga, hoje Piranga-MG). Esta freguesia (Piranga), vasta que era, fazia limite com a freguesia do Furquim, à qual pertencia Ponte Nova.

Em uma sesmaria ganha em 07 de setembro de 1736, Matias Barbosa construiu uma das maiores e mais belas fazendas de toda a Capitania. A Fazenda da Barra do Gualaxo do Norte ou Fazenda da Barra do Matias Barbosa ou, simplesmente, Fazenda da Barra, possuía uma estrutura equivalente às famosas propriedades dos Barões do Café ou dos grandes Senhores de Engenho.

Tendo sido herdada pelo 1º. conde de Linhares, D. Rodrigo Domingos Antônio e Souza Coutinho, bisneto de Matias, essa fazenda foi visitada, a convite deste, pelo cientista inglês John Mawe, em 1809.