José Maria da Silveira

Há quantos anos os das gerações antigas contemplamos, na retentiva obstinada, o vulto esguio algo inquieto do artistas notável em que se configurou o querido José Maria da Silveira, violinista para nós incomparável, ao lado a pianista exímia, D. Badú, assim carinhosamente tratávamos a esposa e mãe - Balduina Lessa da Silveira.

A orquestra do famoso Cinema Brasil, sugestivo programa daquele inolvidável cinema silencioso, abrangendo, até, no palco ao fundo, apresentações teatrais em que empolgavam, além dos astros de universal conceito - Procópio Ferreira, sua filha Bibi, Eva Tudor, os atores de João Rios -, aquela tradicional orquestra assinalou época áurea nos fastos artísticos de Ponte Nova. Virtuosos pontenovenses faziam magistralmente ouvir-se - Astolfo Serra dominando o contrabaixo de cordas, Aurita Serra, Violoncelo, Joaquim Clarineta, o violino apreciado, Laurita Dias, no mesmo tom Edith Serra, vindo, empós, D. Gerthe, alemã que se fez nossa conterrânea, participante de mais um conjunto, o da cinqüentenária Banda Ceciliana, sob a direção do maestro Juca Clímaco. Este, primo do grande José Maria da Silveira, freqüentava o Cinema não só por amor à sétima arte, também a encantar-se diante dos arroubos de um conjunto realmente maravilhoso. Zé Maria, sendo dominador incrível do violino, era um homem sem inveja: recebia artistas de sua arte com entusiasmo, a exemplo dos figurantes citados, empolgando, na derradeira exibição no velho teatro de nossa saudade, jovem Vicente Trópia, filho de Ouro Preto. Homem puro de sentimentos, incentivava, aplaudindo-os calidamente, os colegas ao domínio de suas cordas.

Aquele recanto da Rua do Rosário, residência de José Maria da Silveira, ali surgia, egresso de Mariana a fim de secretariar a primeira Câmara Municipal da Vila de Ponte Nova, em 26 de abril de 1863, Lucindo Lázarro Lessa. Eis no mestre consumado, por tradição consagrado na vetusta Cidade dos Bispos e na clássica Ouro Preto, o "Pai da Música de Ponte Nova", professor do próprio José Maria, da filha Bauduina, que o mestre fez pianista: José Carlos de Souza Clímaco e Cacilda Clímaco, depois regendo, ao longo de 70 anos, os conjuntos piedosos da Matriz e do Hospital de Nossa Senhora das Dores nossa primeira instituição hospitalar, carregada de tradições, ligou-se a família de José Maria da Silveira, pois seus avô, de quem ele herdou o nome ilustre, formou a tríade piedosa erigindo, junto ao Vigário João Paulo Maria de Brito e Dr. Leonardo José Teixeira da Silva, a Santa Casa sob a égide da Imagem Peregrina que todos veneramos: - NOSSA SENHORA DAS DORES. O inesquecível José Maria Boticário (chamavam-no assim os contemporâneos) constituiu exemplo da caridade cristã em São Sebastião e Almas de Ponte Nova, eis que prodigalizava a todos, tivessem ou não recursos, os medicamentos manipulados em sua farmácia, que ele, santificado na missão de caridade, levou para o Hospital. Família Silveira, eternizada na gratidão pública de nossa terra, de vez que cinqüenta e tantos anos incorporar-se-ia à plêida de ilustres médicos devotados ao Hospital o jovem médico José Maria da Silveira Júnior. Ainda hoje duas filhas do consagrado violinista José Maria devotam-se ao Coro do Hospital, Maria José e Maria das Dores Silveira.

Homenageando-lhe os méritos, o Senador Antônio Martins Ferreira da Silva visitaria a casa generosa de José Maria e D. Badú, a fim de formular convite para o nosso conterrâneo ingressar no serviço público, na qualidade de titular do Cartório do Registro Civil de Ponte Nova. O velho José Maria da Silveira assim o fez, engrandecendo-se, no exercício de suas funções.

Esta coluna hoje se enriquece na modesta homenagem a um dos vultos mais eminentes da música de Ponte Nova, contribuição ativa, ao lado a família numerosa, cujo nome se impõe, para sempre, ao reconhecimento do Município.