Sufocada a Revolução constitucionalista, deveria permanecer a mesma ordem política em toda o Nação. Getúlio Vargas se manteve no poder, de onde não "apearia" tão cedo. Em Minas, Olegário Maciel e Gustavo Capanema acabavam, de vez, com os "camisas-pardas", grupo que, na realidade, era o braço mineiro da Legião de Outubro.

Era necessário manter uma estrutura capaz de atender as elites interiorizas, que ainda afluíam, sempre com a mesma política clientelista da Primeira República. Para tanto, o próprio governo mineiro patrocinou a criação do Partido Progressista, que passaria a abrigar os "coronéis", os "caciques", ligados a ele.

No dia 5 de setembro de 1933, já octogenário, Olegário Maciel falece em Belo Horizonte. Gustavo Capanema, Secretário dos mais prestigiados e companheiro de todas os horas, assume o corgo que deixaria três meses mais tarde, em 15 de dezembro.

Nos últimos dias de 33, Getúlio Vargas deixa perplexa todo a classe política mineira, com a nomeação de Benedicto Valladares para o governo do Estado. Foi um duro golpe para os expoentes da político no Estado, como Francisco Campos, Virgílio de Mello Franco e o próprio Gustavo Capanema, uma vez que qualquer um deles poderia ser considerado o sucessor natural de Maciel.

Essas mudanças, em nível de Estado, se refletem em Ponte Nova. O desaparecimento de Olegário enfraquece politicamente Cantídio Drumond. Com 66 anos de idade, ele estava, agora, com menos prestígio na capital. Em Ponte Nova, passou a ser incomodado por um novo adversário, cuja força crescia a cada dia.

Luiz Martins Soares, com apenas 45 anos, concluía um mandato de Deputado Federal extremamente proveitoso para sua carreira. Político hábil, reorganizou as forças políticas que compunham a tradicional corrente dos Martins da Silvo, na região de Ponte Nova, e se firmou como parlamentar sério e competente,na capital federal.

Luiz Martins Soares

Enquanto Zito Soares ascendia na política, a vida pública de Cantídio Drumond entrava no ocaso. Sabiamente, evitando um confronto que se avizinhava e no qual poderia sair derrotado, Cantídio vai a Belo Horizonte e "entrega" a chefia política do município.

Durante a República Velha, era comum o procedimento em que o governo do Estado outorgava a um líder der regional a chefia política daquela área. Esse líder mantinha-se no poder até o momento em que sua atuação satisfizesse ao poder estadual. Tal prática fazia parte da Política dos Governadores, que perdurou no País por meio século. Mesmo após a Revolução de 1930 isso continuou acontecendo, pelo menos até o golpe de 37, quando a ditadura estabelecida por Getúlio passou a não mais prescindir dos votos do interior.

Cantídio entrega a chefia política, mas não a Prefeitura. Como o velho líder não queria o confronto e cedeu o "chefio", Zito Soares também evitou o embate e não exigiu, de Benedicto Valladares, a Prefeitura.

Cantídio Drumond já havia executado um volume de obras incomum desde que assumira, interinamente, o governo de Ponte Nova em 1925. Até 1932, por exemplo, foram abertos, retificados e melhorados 159 quilômetros de rodovias, ligando os principais núcleos produtores do município à sede. Em 1933, mesmo com as dificuldades financeiras e políticas, Cantídio leva a efeito algumas obras de importância significativa. A Vila Centenário, recém-adquirida, torna-se bairro e, para tanto, são construídas a avenida e as principais ruas. Dez quilômetros de estradas são abertos no Distrito de Rio Doce, até as divisas com o Município de Alvinópolis. Amparo do Serra ganha um novo edifício paro o Grupo Escolar. Um trecho da Avenida Caetano Marinho recebe calçamento de macadame e parte da Rua Presidente Antônio Carlos é calçada com paralelepípedo.

O ano de 1934 apresenta novidades políticas em todo o País. A Ação Integralista, que havia surgido sob o inspiração do fascismo italiano e do nazismo alemão, cresce rapidamente. Já, então, contava com mais de mil núcleos, organizados em "milícias", que se espalhavam pelo Brasil. Nessas milícias, jovens, intelectuais e personalidades ilustres, que se haviam deixado seduzir pelas idéias do movimento, formavam verdadeiras tropas, em cujo fardamento realçavam as camisas verdes. Bandos de fanáticos marchavam aos gritos de "anauê".

Os integralistas, comandados por Plínio Salgado, espalhavam panfletos, organizavam manifestações e desenvolviam a antipática companha anti-semita.

No outro extremo estavam os comunistas, liderados por Luiz Carlos Prestes, que também se organizavam em todo o País. O fruto desse trabalho foi finalmente, em novembro de 1935, a rebelião, que explodiu, principalmente, no Rio Grande do Norte, em cuja capital chegou a se instalar um "Comitê Popular Revolucionário", em Pernambuco e no Rio de Janeiro. Na capital da República, o levante limitou-se ao Terceiro Regimento de Infantaria, sediado na Praia Vermelha, e à Escola de Aviação Militar, no Campo dos Afonsos.

Com os votos de Ponte Nova, Luiz Martins Soares, agora filiado ao Partido Progressista, reelege-se Deputado Federal e torna-se membro da Assembléia Constituinte, solenemente empossada a 15 de novembro de 1933. A nova Constituição da República é promulgada em 16 de julho de 1934. Minas Gerais, por sua vez, também ganha sua Constituição.

Em Ponte Nova, nesse ano, Cantídio Drumond concluía algumas obras e, ainda, abria estradas, como vinha fazendo durante todo o seu governo.

Estrada, para Cantídio, era como uma obsessão. Estendeu a rodovia do Vau-Açu até os limites de Viçosa e refez todo o trajeto de Santa Cruz do Escalvado até Rio Doce. Todas essas estradas tornavam-se próprias ao trânsito de veículos automotores e implicavam a construção de pontes e de sistema de captação e canalização de águas pluviais.

A política municipal tornava-se cada vez mais tensa. O Prefeito Cantídio Drumond capitaneava uma corrente que tinha nomes de significativo prestígio. Na oposição, Zito Soares trazia consigo, além do irmão Otávio e do sobrinho Cid, outros importantes políticos, como o médico José dos Reis Cotta, João Pinheiro Brandão, Manoel Marinho Camarão e Juca Fonseca. Existia ainda uma terceira força política de expressão municipal, composta por José de Almeida Costa, Chico Flexa, Emílio Rabello Barbosa, dentre outros.

O ano de 1935 chegou, trazendo a certeza de novas e radicais mudanças no quadro político ponte-novense.

Os Martins Soares estavam fortalecidos. Zito já gozava de muito prestígio. Otávio, cultura brilhante, também havia optado pela política e respondia, na região, pelo irmão Deputado. Cid, ainda novo e também com aptidão para a política, ensaiava os primeiros passos na militância.

Seguindo o processo que levava à constitucionalização dos municípios, o governo estadual definiu as eleições para prefeitos e vereadores para o dia 7 de junho de 1936.

Cantídio Drumond, já cansado, depois de uma extensa vida pública que havia iniciado ainda no Brasil Império, resolve se afastar, de vez, da política. Não seria candidato nas eleições que se avizinhavam. Não queria sequer coordenar o pleito como Prefeito Municipal.

Em outubro de 1935, afasta-se do cargo e recolhe-se em sua chácara, fora do perímetro urbano da cidade, o mais longe possível do burburinho do política.

Com o afastamento do velho Coronel Cantídio, estava desocupado o espaço tão cobiçado por Luiz Martins Soares. Agora, ele era o "comandante" absoluto do política regional. Podia, então, ditar, sozinho, os rumos de Ponte Nova.

No dia primeiro de novembro, nomeado por Benedicto Valladares, Otávio Martins Soares assume a Prefeitura de Ponte Nova. Deveria permanecer no cargo até 1936, quando presidiria os eleições municípios, marcados para aquele ano.

Como determinava a legislação vigente, essas eleições eram indiretas. Primeiro, seriam eleitos, pelos votos populares, os vereadores, que, a seguir, escolheriam os prefeitos e seus vices.

A Câmara, que se instalou em 8 de julho de 1936, tinha como membros da situação, aquartelados no Partido Progressista, os médicos Antônio Caetano de Souza e José dos Reis Cotta, os Coronéis Emílio Martins da Silva e João Pinheiro Brandão e os industriais José Felício da Fonseca e Manoel Marinho Camarão, além de Silvio Vieira Martins, Otávio Martins Soares e o Cônego Raimundo Otávio da Trindade. A oposição, que formara a Coligado Municipal, composta pelo PRM e todos os partidários do Coronel Cantídio Drumond, elegeu os advogados Antônio Bento de Albuquerque, Cantídio Drumond Filho, Jayme Cerqueira Marinho, José André de Almeida e Emílio Rabello Barbosa, além dos fazendeiros Júlio Martins Messias e Francisco Martins da Silva.

No primeiro caso, da situação, apresentavam-se algumas novidades: Antônio Caetano de Souza, do Distrito de Amparo do Serra, que acabara de ingressar no vida pública, distinguir-se-ia, anos mais tarde, elegendo-se Deputado Estadual. José dos Reis Cotta, que, apesar de ter-se dedicado mais à medicina do que à política, chegaria, dias depois, a ocupar a Prefeitura, por curto espaço de tempo. José Felício, também conhecido como Juca Fonseca, permaneceria na vida pública por vários anos, sobressaindo também como desportista e filantropo.

José dos Reis Cotta

Já Manoel Marinho, ou Duduca Camarão, projetar-se-ia mais como industrial, construindo fábricas e usino de açúcar. Raimundo Trindade teria uma curta passagem pela política. Ele se dedicava, mesmo, à religião e o seus estudos e, como historiador, linhagista e museólogo, alcançaria notoriedade nacional.

Do outro lado, estavam três filhos de ex-mandatários ponte-novenses: Jayme, filho de Caetano Marinho; José André, filho de Custódio Silva; e Cantidio Filho, cujo pai acabava de entregar a Prefeitura. A oposição abrigava também dois legítimos Martins da Silva, que não se alinhavam com Zito Soares: Júlio e Francisco.

Com maioria absoluto, a situação elege para Presidente da Câmara o Cônego Trindade e, para Prefeito Municipal, Otávio Soares.

A oposição não se acomodo, e Jayme Marinho, como advogado, entra com recurso no Tribunal Regional Eleitoral, apontando fraude na eleição, além de incompatibilidade do Prefeito eleito, e pedindo a sua anulação.

Em 22 de março de 1937, Otávio é afastado do cargo para aguardar o julgamento definitivo.

Enquanto se desenrolavam os acontecimentos, o Cônego Trindade renuncia à Presidência da Câmara, substituindo-o José dos Reis Cotta. Assim, quando Otávio se afastou, Cotta passou a responder pela Prefeitura, a partir de 23 de março.

Em Ponte Nova, o momento político era particularmente conturbado. Zito Soares era uma forte expressão política, mas a oposição, há pouco alijada do poder, ainda desfrutava de certa influência em Belo Horizonte e prometia brigar até o fim. Dr. Cotta, no meio do "tiroteio", ameaça deixar o cargo, e isso complicaria ainda mais as coisas.

A movimentação dos situacionistas era intensa. Finalmente, Benedicto Valladares encontrou uma solução para o impasse. Numa medida invulgar posto que pouquíssimo democrático, ele nomeia Cid Martins Soares, que sequer era vereador, para ocupar interinamente a Prefeitura. Além de arbitrária, essa nomeação era também comprometedora, pois o Prefeito nomeado era, simplesmente, sobrinho do Prefeito afastado.

Com essa nova medida, levada a efeito pelo Interventor Estadual, Zito Soares demonstra que sua força e influência políticos eram concretas e aproveita para sepujar, de vez, a oposição em Ponte Nova. Se não podia ser o irmão, Otávio, o Prefeito de Ponte Nova, seria então o sobrinho, Cid.

Cid ficou poucos dias no cargo, pois, acabada a "pendenga" judiciária, Otávio retorna a Prefeitura, no dia 30 de julho de 1937, para só deixá-la sete anos depois, com a sua morte.