PONTE NOVA NA GUERRA DO PARAGUAI

No final do ano de 1864, com a captura do vapor "Marquês de Olinda" e a invasão do Mato Grosso por tropas paraguaias, o Brasil entra efetivamente em guerra contra o vizinho Paraguai.

Naquele ano, o exército brasileiro possuía um pequeno efetivo de aproximadamente 16 mil homens, e outros 18 mil cidadãos compunham a "Guarda Nacional".

Por outro lado, o Paraguai, melhor preparado e equipado para a guerra, dispunha de um contingente de 150 mil militares.

Assim, com a suprema necessidade de recrutar homens para a guerra recém deflagrada, no dia 07 de janeiro de 1865 o Imperador cria, por força do Decreto nro. 3.371, o Corpo dos Voluntários da Pátria. Esse decreto enumera, em seus quinze artigos, as vantagens materiais e honoríficas para atrair um maior número de voluntários.

"art. 2" Os voluntários, que não forem Guardas Nacionais, terão, além do soldo que percebem os voluntários do exército, mais 300 rs. diários e a gratificação de 300000 guando derem baixa. E o prazo de terras de 22:500 braças quadradas nas colônias militares ou agrícolas.

Ou ainda:

"art. 11" Todos os voluntários que trata este decreto trarão no braço esquerdo uma chapa de metal amarelo com a coroa imperial, tendo por baixo as seguintes palavras: VOLUNTÁRIOS DA PATRIA, da qual poderão usar mesmo depois da baixa. "

Os presidentes das Províncias, por seu turno, mantinham intensa correspondência com os municípios, incitando sempre a formação dos "corpos para o serviço da guerra". Na Circular de 22 de julho de 1865, assinada por Cerqueira Leite, a Câmara de Ponte Nova recebe a seguinte mensagem:

"O Governo Imperial tem julgado necessário que esteja aberto o alistamento para Voluntários, em quanto durar a guerra.

Comprehendem V.Sas. quanto convém repetir os esforços que já empregarão, e de que darão tão assignaladas provas neste importante serviço, convidando e remettendor o maior número de Voluntários para o serviço da guerra.

As comissões ficam autorisadas a dar aos alistados o vestuário indispensável, e a sua etapa na razão de (1OO rs. para a Corte e 400 rs. dentro da Província, enviando-os para ali, para Capital da Província ou para Uberaba, conforme estiverem mais próximos desses lugares. O Governa espera que V.Sas. com a mesma boa vontade e dedicação ultimem esta obra já tão adiantada, e indispensável á bem do Estado e nas actuais circunstancias.

Deos Guarde a V.Sas."

O proposital e forte apelo ao patriotismo, à honra e à necessidade de manter a integridade Nacional, juntado ~s vantagens e distinções oferecidas, fez com que a campanha tivesse excelente resultado.

"100 mil homens arregimentaram-se, no estilo dos velhos exércitos, e seguiram confiantemente para os campos do sul.

O Pais compreendera que a invasão deverá ser castigada e levantara-se para rebate-la. "

De Ponte Nova, várias pessoas se ofereceram e seguiram para as frentes de batalha. S6 no ano de 1865, 35 voluntários da cidade seguiram para o Mato Grosso, integrando a 1" Brigada Mineira de Voluntários. Entretanto, a história registrou apenas quatro destes verdadeiros heróis que, deixando seus lares e suas famílias, foram engrossar os batalhões que combatiam Solano Lopes.

Jarbas Sertório de Carvalho, na publicação "Brazão de Armas da Cidade e do Município de Ponte Nova", cita três destes voluntários: João Gabriel Pereira da Cunha, Francisco José de Souza e Narciso Pereira de Carvalho.

Tendo aquele autor conhecido pessoalmente o primeiro dos citados, dedica-Ihe dois parágrafos no referido trabalho:

"O primeiro voluntário serviu sob o comando do Coronel Carlos de Morais Camisão, chefe da Expedição, trazendo-nos a medalha "CONSTÂNCIA E VALOR", que nos foi doada pela sua família, em Ponte Nova, no exercício de nossa clínica, nesta cidade, por volta do ano de 1915.

O Cel. Camisão era o chefe do 17" Batalhão de Voluntários, onde se incorporaram os Pontenovenses e outros procedentes de vários lugares e regiões. João Gabriel assistiu, ao chegar de volta a margem do Rio Miranda, a morte do bravo Coronel Camisão, vitimado pela cólera-morbus. "

João Gabriel também é citado por Machado de Magalhães:

"Dos heróes da Laguna aqui velho existia

Em novembro atrasado inda João Gabriel

Que na guerra alcançou ser até furriel,

E voltando da mesma, em trabalho se via. "

Com avançada idade, João Gabriel Pereira da Cunha faleceu em sua terra natal, no dia 15 de novembro de 1920.

O quarto voluntário, cuja atuação na Guerra do Paraguai é conhecida e citada pelo professor José Schiavo e pelo jornalista Anibal Lopes, em matérias publicadas no "Jornal do Povo"; foi o senhor Luiz Garro.

Nascido a 10 de fevereiro de 1852, de família radicada há muito tempo na cidade, Luiz Garro residiu no Beco da Olaria, hoje Rua Antônio Carlos, em uma modesta casa, que deu lugar à atual sede do "Centro de Chauffers".

Existem referências de que após a guerra, engajando-se no exército, Luiz Garro participou dos movimentos da Proclamação da República, sob as ordens do marechal Floriano, assim como da Campanha de Canudos.

Como membro das "Forças Policiais", já septuagenário, o major Garro ainda participou das revoluções de 1924 e 1930.

A seu respeito, interessante matéria jornalística circulou no "Diário de Noticias" de 29 de janeiro de 1950.

O articulista descreve curiosa passagem quando funcionários da Panair do Brasil, no aeroporto Santos Dumont, verificaram que iria embarcar, no vôo com destino a Poços de Caldas, um senhor com 98 anos de idade. Na lista de passageiros constava ainda que este senhor encontrava-se desacompanhado. Providenciou-se então, imediatamente, uma cadeira de rodas, e uma experiente aeromoça foi designada para atender a um alquebrado ancião já quase centenário.

Qual não foi a surpresa dos funcionários da companhia aérea ao depararem com um empertigado e rijo senhor, que de idoso só tinha mesmo a vasta cabeleira branca.

Diz ainda o artigo que o "serelepe" major Garro contagiou, com sua simpatia, toda a tripulação da Panair.

 
-Extraído do livro " Ponte Nova 1770 -1920, 150 anos de Hisória" .
de Antônio Brant. Todos os créditos ao autor.