Abdalla Felício, Sette de Barros,
Revolução de 64

De fato, as eleições de outubro de 1958 trouxeram grandes surpresas. Na dança dos partidos, na composição dos chapas, nos resultados, enfim, elas foram diferentes em tudo o que estava habituado a ver o eleitor da região. Entretanto, a surpresa maior ainda estava por vir.

O prefeito eleito já havia sido diplomado e aguardava o dia de sua posse, compondo as secretarias e estruturando seu plano de governo, quando foi acometido de grave doença.

Atacado por uma nefrite, ainda durante a campanha, viu rapidamente esvaírem-se-lhe as forças. Na madrugada do dia 9 de fevereiro de 1959, às 5h30min, faleceu, em sua residência, Luiz Martins Soares Sobrinho. Seguia o destino de grande parte de seus parentes, falecendo, ainda com pouca idade, aos cinqüenta anos .

A morte de Soares Sobrinho causou consternação e trouxe dúvidas políticas ao mesmo tempo. Seu enterro teve enorme acompanhamento, e manifestações de pesar chegavam de todos os cantos geográficos do município e de todas as facções políticas.

A "Tribuna da Mata", ligada ao PTB, estampou longa matéria na primeira página, assinada por Nelson Alves, que lamentava o passamento do político e exaltava suas qualidades:

"Revelou, na hora precisa, qualidades que explicam o êxito, e que herdara de parentes que se projetaram no função pública: possuía de Milton Campos a simplicidade, a simpatia e a sedução pessoal; de Otávio Soares a prudência administrativo; de Luiz Martins Soares, um pouco daquele engenho político e, finalmente, de seu pai, Adolfo Soares, herdou o coração generoso, o "mão aberta", o impulso incontido de dar aos necessitados a próprio camisa do corpo".

Soares Sobrinho era o último representante político do clã dos Martins Soares. Morria com ele toda uma geração de homens públicos da mais alta envergadura. Nos meios políticos surgiu a dúvida quanto à legalidade da posse do vice-prefeito, uma vez que o próprio prefeito não chegara a assumir. Os zitistas, portanto, trataram de dar, logo, posse a Raimundo Bellico Sobrinho, para evitar medidas judiciais ou legais, que pudessem ser tomadas pela oposição petebista.

A Câmara também se empossou e escolheu a mesa-diretora, que se apresentou composta apenas de peerristas. Francisco Linhares Ribeiro era o Presidente, Bueno Guerra o Vice e Luiz Carlos Soares Martins o Secretário.

O novo prefeito era homem trabalhador. Fazendeiro, no Distrito de Amparo do Serra, ele dividia seu tempo entre os afazeres de agricultor e uma intensa atividade política.

A situação financeira da Prefeitura não era muito boa. A administração João de Carvalho havia executado um volume de obra pouco comum, e isso custara dinheiro. Bellico volta a atenção para o meio rural e desenvolve um perfeito serviço de conservação das estrados municipais. Constrói pontes, melhora acessos, encascalha trechos e retifica estradas inteiras.

A antiga Rua "do Vai-e-Volta" é prolongada até encontrar a Rua João Pinheiro e recebe, nesse trecho, o nome de Inocêncio Alves Costa, co-fundador da Fundição Progresso, por onde a rua passa. Essa obra foi cara, dependendo de desapropriações, construção de muro de arrimo e instalação de balaustrada.

O Mercado Municipal e a Rodoviária, que tiveram suas construções iniciadas no governo anterior, foram concluídas por Bellico. A rodoviária homenageou Reynaldo Alves Costa, antigo político e construtor ponte-novense, e o mercado recebeu o próprio nome do prefeito que o inaugurou.

Em Amparo do Serra foram executadas dezenas de grandes obras. As principais ruas foram calçadas, praças foram construídas, novos bairros foram abertos, as estradas rurais foram mantidas muito bem conservadas e o distrito ganhara, de fato, outra aparência.

Não podendo contestar a seriedade administrativa e a capacidade de trabalho do prefeito, a oposição encontrou no volume de obras executadas em Amparo do Serra o principal motivo de suas críticas. José Kleber Leite de Castro, pela imprensa, afirmava que Bellico Sobrinho deixava de fazer obras na sede do município e nos demais distritos para executá-las, apenas, em Amparo do Serra. Essa polêmica se agravou a tal ponto que chegou a ser instaurado inquérito para apurar verdades e responsabilidades.

No dia 26 junho de 1958, faleceu, em Belo Horizonte, também prematuramente com 53 anos, o ex-Deputado Antônio Caetano de Souza. Ligado ao PSD, ele fora Vereador pelo Distrito de Amparo do Serra, Deputado Estadual e, na época de sua morte, era Chefe de Assistência Social do Departamento Estadual da Criança.

Antônio Caetano não se afastara do PSD quando ocorreram as mudanças na direção do partido em Ponte Nova. Dessa forma, João de Carvalho fazia gestões perante o Governador Bias Fortes para nomear Caetano Diretor da Imprensa Oficial de Minas Gerais, quando lhe sobreveio a morte.

Apesar de ter sido derrotado nas últimas eleições municipais, o PTB ponte-novense estava bastante fortalecido.

João de Carvalho gozava de prestígio, em Belo Horizonte, no governo pessedista de Bias Fortes. Sette de Barros era amigo pessoal de próceres petebistas, como Francisco Clementino San Tiago Dantas, e do próprio Vice-Presidente da República, João Goulart.

Jango e Sette de Barros

Adriano Fonseca, Waldemar Jorge e Helder de Aquino faziam parte do Diretório Estadual, e Sette de Barros era membro efetivo da Executiva Nacional do Partido.

Todo esse prestígio nas altas esferas do PTB fez com que José Sette de Barros, que era formado em Medicina, assumisse uma Diretoria do Serviço Nacional de Medicina de Urgência-SAMDU. Esse órgão, ligado ao Ministério da Saúde, construía, equipava e mantinha postos de saúde, que funcionavam como pronto-socorro. Aproveitando sua posição privilegiada e a proximidade das eleições estadual e federal, Sette de Barros instala uma dessas unidades em Ponte Nova, que funcionou, primeiramente, na Rua Otávio Soares e, posteriormente, em edifício próprio, no Bairro Guarapiranga.

No dia 20 de julho de 1960, no auge das campanhas para Governador e Presidente, é lançada, com grandes pompas, a pedra fundamental do SAMDU de Ponte Nova. Estiveram presentes, nessa ocasião, o candidato a Governador, Tancredo Neves, o candidato a Vice-Governador, San Tiago Dantas e o candidato à reeleição, o Vice-Presidente João Goulart. Após as solenidades de inauguração, a comitiva petebista participou ainda de um grande comício na praça Getúlio Vargas, que reuniu milhares de pessoas.

O PTB de Ponte Nova estava mesmo disposto a "dar o troco" nas eleições seguintes.

Estava-se vivendo os últimos dias do Governo Juscelino. Um tempo de euforia, de grandes obras, da construção da nova capital do República, dos estradas, das hidrelétricas, da indústria automobilística, de grandes realizações.

O sétimo recenseamento brasileiro aponta 70.992.343 habitantes no País, que se convulsionava com as eleições presidenciais, disputadíssimas.

A coligação UDN-PL-PTN-PDC lança a chapa composta pelo ex-Governador paulista, Jânio da Silva Quadros e pelo ex-Governador mineiro, Milton Soares Campos, enquanto outra coligação, PSD/PTB, apresenta o Ministro do Guerra de Juscelino, Marechal Henrique Batista Duffles Teixeira Lott, e o próprio Vice-Presidente de Juscelino, João Belchior Marques Goulart.

Jânio, que teve sua candidatura homologada pela convenção extraordinária no Rio de Janeiro, no dia 8 de novembro de 1959, após derrotar Juracy Magalhães, por 205 votos contra 83, era o maior fenômeno eleitoral até então conhecido. Fora eleito Vereador em 1947, Deputado Estadual em 1948, Prefeito de São Paulo em 1953, Governador do Estado de São Paulo em 1954 e Deputada Federal pelo Estado do Paraná em 1958. Por outro lado, Lott era carrancudo, sem nenhuma habilidade política, e em momento algum Juscelino emprestou seu prestígio à sua candidatura. Quisesse Juscelino, as coisas seriam diferentes. Ele, de fato, gozava de popularidade, mas, pensando na sucessão de seu sucessor, preferiu ficar fora do processo.

 

Amigo de Jango, Sette de Barros participou de campanhas políticas memoráveis.Da Direita para a esquerda: San Thiago Dantas, João Goulart, Sette, Tancredo Neves e ao fundo, entre Tancredo e Sette, o ex-prefeito de Ponte Nova, João de Carvalho.
 

Cresce a campanha de Jânio, e uma acaçapadora vitória é facilmente prevista. Aproveitando o populismo da campanha de Jânio, que em muito se assemelhava ao perfil do político Jango, seus assessores lançam a campanha clandestina "Jan-Jan" (Jânio e Jango), instalando comitês por todo o Pois. É bom ressaltar que naquela época ainda eram feitas as absurdas eleições independentes, nas quais se votava para Presidente e para Vice-Presidente, independentemente da siglo partidária, elegendo, em muitas das vezes, um cabeça de chapa com orientação política completamente diferente da de seu vice. Além disso, o candidato a Vice-Presidente, de uma terceira chapa, liderada por Ademar de Barros, Fernando Ferrorin desenvolvia uma campanha seria, em que a honestidade era o principal "slogan". Seus votos viriam, portanto, das classes que optava m por um moralismo à UDN, as mesmas que depositavam seus votos ao liberal Milton Campos.

Jânio Quadros confirmou sua vitória, com 48% dos votos em todo o País, ou seja, 5.636.623. Teixeira Lott ficou com 3.846.825 votos, que representavam 33% do eleitorado, e Ademar de Barros recebeu 2.195.709.

Raimundo Bellico Sobrinho
 

Para a vice-presidência, João Goulart venceu Milton Campos, com 4.547.010 votos, contra os 4.237.719 dados ao ex-Governador de Minas. Fernando Ferrari obteve 2.137.382 votos.

A diferença entre Jango e Campos foi pequena, 3% dos votos válidos, e sete meses depois da posse, com a renúncia de Jânio, o Vice, João Goulart, assume a Presidência da República.

Em Ponte Nova, a "performance" de Milton Campos não foi boa. Aliás, ele nunca chegou a ser bem votado em sua cidade natal. Quando eleito Governador, teve bom número de votos, mas longe daquelas votações expressivas que receberam Arthur Bernardes, em Viçosa, quando chegou ao Palácio da Liberdade, e Bias Fortes, em Barbacena, quando disputou e ganhou o Governo de Minas.

Candidato a Vice-Presidente da República em 1955, ele teve apenas 3.684 votos, enquanto seu concorrente, João Goulart, recebeu 5.401 votos. Goulart também venceu no País, mas com a pequenina margem de 2% dos votos válidos. Em 1958, quando se candidatou ao Senado, Milton Campos obteve tão-somente 2.846 votos em sua terra natal. Em 1960, novamente candidato a Vice-Presidente, é outra vez derrotado pelo mesmo João Goulart, em Ponte Nova e na contagem geral dos votos.

Jânio Quadros é empossado na Presidência da República a 31 de janeiro de 1961. Começa aí o período mais conturbado da história do País. Adotou uma linguagem parecida com a de Getúlio Vargas e criou a moda dos "bilhetinhos", utilizados para transmitir ordens aos ministros e tinham a força de decretos, deixando seus assessores como simples executores de suas determinações.

No âmbito econômico, tentava "organizara casa", interrompendo o processo inflacionário. Nesse campo, a principal decisão foi a aprovação da instrução 204, da Superintendência da Moeda e do Crédito-SUMOC, que criava a "verdade cambial", desvalorizando o cruzeiro 100%, e suspendia totalmente os subsídios produtos importados, mas que eram largamente utilizados, como o trigo e o petróleo.

Falava de uma política externa totalmente independente, restabeleceu relações diplomáticas com países comunistas e se negava a apoiar os Estados Unidos na sua campanha para expulsar Cuba da OEA.

Para desespero dos americanos, condecora com a "Ordem do Cruzeiro do Sul", a principal comenda do País, o líder guerrilheiro Che Guevara.

Sete meses depois de tomar posse, Jânio entrega aos Ministros Militares, no dia 25 de agosto, o último de seus famosos bilhetinhos como Presidente da República. Nele estava escrito:

"Nesta data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justiça as razões do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da República!"

João Goulart estava em viagem à China, assumindo, então, o governo, o Presidente da Câmara, Paschoal Ranielli Mazzili.

No dia 8 de setembro, com a opção parlamentarista (Emenda Constitucional 4/61), João Goulart torna-se o Presidente do Brasil.

Sucedem-se os Gabinetes Tancredo Neves (de 8 de setembro de 1961 a 12 de julho de 1962), Brochado da Rocha (de 12 de julho a 18 de setembro de 1962) e Hermes Lima (de 18 de setembro de 1962 a 24 de janeiro de 1963).

Uma nova Emenda Constitucional (6/63) restabelece o regime presidencial, que duraria pouco mais de um ano.

Enquanto o Governo da República capengava, em meio a greves gigantescas, manifestações populares, com direito a quebra-quebra, depredações e saques, em Ponte Nova, nos meios políticos, a movimentação era grande.

As eleições de outubro de 1962 criavam um clima de excitação na cidade.

O Deputado Federal Geraldo Vasconcellos tentaria a reeleição. José Sette de Barros assumira nesse ano uma cadeira na Câmara, mas concorreria em 3 de outubro a uma vaga na Assembléia Estadual.

Geraldo Vasconcelos

Os Deputados Estaduais Cristiano de Freitas Castro e João Vidal de Carvalho pleiteavam a reeleição.

Nas disputas para o Executivo e Legislativo municipais se refletia, também, a influência das lideranças tradicionais e dos deputados ponte-novenses. Sette de Barros e João de Carvalho, petebistas, dispunham de ligações no governo, também petebista, de João Goulart. Eram, portanto, fortes e expressivos forças políticas no âmbito municipal.

Freitas Castro mantinha o domínio do PR, ainda fiel às origens e aos velhos líderes. Continuava, dessa forma, sendo o fiel do balança política de Ponte Nova.

O pessedista Geraldo Vasconcellos tinha amizades e ligações com elementos da equipe do ex-Presidente Juscelino Kubistchek, mas no Governo do udenista Magalhães Pinto dispunha de pouco trânsito. Em Ponte Nova, não tinha o pleno domínio do PSD, que havia sido tomado da corrente zitista por João de Carvalho. Tentava, então, se fortalecer na cidade, apoiando as investidas do seu irmão, Fábio, que também manifestava vocação para a vida pública.

A primeira corrente a se manifestar foi a coligação PTB/PSD, que lançou a candidatura do petebista Alberto Graça Castanheira, que tinha como vice o pessedista Fábio Vasconcellos.

A UDN, coligada com o PR, que aglutinava também a fação zitista de Ponte Nova, demorou mais a escolher o seu candidato. Francisco Linhares Ribeiro seria o candidato natural do partido. Médico com vasta clínica, alegando motivos profissionais, descartou desde o início a possibilidade de disputar a Prefeitura. Presidente do partido e uma de suas principais lideranças, Linhares consulta o Secretário da Prefeitura, Mário Clímaco, se aceitaria ser candidato a prefeito.

Mário de Souza Clímaco tinha tradição no serviço público. Seu avô, Sebastião José de Souza Clímaco, viera do povoado do Diogo para trabalhar na antiga Câmara Municipal de Ponte Nova como Procurador, ainda no século passado, durante o Governo do Maior Manoel Olympio Soares. Fora indicado para o cargo por Evaristo de Firmino Moreira e Castro, figura influente do Partido Republicano.

Sebastião José faleceu no ano de 1901,e o seu lugar passou a ser ocupado por seu filho, José Carlos de Souza Clímaco, pai de Mário.

Durante os 26 anos que José Carlos serviu à municipalidade, a denominação Procurador da Câmara é substituída pela de Coletor Municipal, e como tal passou a ser conhecido José Carlos.

Zitista convicto, Mário Clímaco veio, junto com essa corrente, abrigar-se na UDN em 1958. Era, no entanto, funcionário público municipal havia mais de vinte anos, tendo sido admitido na Prefeitura, em 1942, pelo então Prefeito Otávio Soares, como Agente de Estatística. Posteriormente, fora Chefe do Serviço da Fazenda e, no ano de 1962, ocupou o cargo de Secretário, que assumira em 1946, durante a administração de Cid Martins Soares. Durante todo esse tempo serviu a vários governos, tendo sido o verdadeiro "braço direito" de diversos prefeitos.

Naquela ocasião, militante ativo do partido que adotara, Mário Clímaco exercia o cargo de Secretário da Comissão Executiva da UDN.

Apesar de toda essa bagagem e o despeito de ter o seu nome sido sugerido pelo próprio Presidente do Partido, Mário Clímaco declina do convite, alegando motivos de ordem pessoal.

O nome do candidato sairia de uma reunião na residência do advogado José Grossi, velho prócer udenista. A esse encontro compareceu toda a cúpula do UDN: Francisco Linhares, Francisco Vieira Martins, Renato Cerqueira Marinho, José dos Reis Cotta, Carlos Jardim de Rezende e o próprio Mário Clímaco. Depois de muitas horas de discussões e negociações, no avançar da noite, ficou definido o nome do médico e Vereador Abdalla Felício para candidato a Prefeito pela UDN. Seu vice seria Everardo Bráulio, do PR, que contava com o decisiva apoio de Raimundo Bellico Sobrinho.

Abdalla Felício nascera na Cidade de Guiricema, no dia 28 de fevereiro de 1911. Ainda jovem, veio para Ponte Nova, onde fez o curso secundário, no Instituto Propedêutico. Em 193l,entrou para a Faculdade Nacional de Medicina do Rio de Janeiro. Formado, retornou à região, indo clinicar inicialmente em Amparo do Serra. Transferiu-se depois para o Distrito de Urucânia e, a seguir, para a Usina Anna Florêcia. Alguns anos mais tarde, estabeleceu-se definitivamente, como médico, em Ponte Nova.

Abdalla havia sido Vereador por duas legislaturas e fora candidato o Prefeito nas eleições de 1954, tendo sido derrotado por João de Carvalho.

Durante o Governo de Bellico Sobrinho, Abdalla, como Presidente da Câmara Municipal, exerceu a Chefia do Executivo por curto período de tempo, quando o titular se afastou para tratamento de saúde.

A campanha de 1958 foi das mais acirradas da história política de Ponte Nova, e a vitória folgada de Abdalla, que obteve quase o dobro dos votos de seu adversário, chegou a surpreender os observadores.

A disputa que chamou a atenção foi a de vice-prefeito. A eleição ainda era independente, podendo o eleitor escolher Prefeito e Vice-Prefeito de partidos diferentes. Com uma campanha milionária e o apoio incondicional do irmão, Deputado Federal, Fábio Vasconcellos vislumbrou uma vitória esmagadora no decorrer da apuração.

Apuradas as urnas do cidade, Fábio já dispunha de uma margem de mais de mil votos sobre o seu concorrente. Era tida como certa a sua vitória. Entretanto, o apoio de Bellico Sobrinho foi mais uma vez decisivo em uma eleição em Ponte Nova. As urnas do Distrito de Amparo do Serra mostraram uma votação maciça em Everardo Bráulio. A situação foi, aos poucos, se revertendo.

Ao final da apuração, a excitação era grande, e as primeiras informações davam conta de que Fábio Vasconcellos de fato ganhara o pleito. Oficialmente, entretanto, Everardo Bráulio ganhou a disputa, com a pequenina margem de nove votos.

Pelo que tudo indicava, a situação do Prefeito eleito seria de comodidade, no que diz respeito ao relacionamento com o legislativo. O PSD conseguira eleger seis vereadores, enquanto o PTB só fizera um. A UDN também elegera seis, mas o PR levara dois para a Câmara. Assim, a coligação UDN-PR era a maioria, e isso facilitaria o Governo de Abdalla.

Entretanto, esse quadro não permaneceria. Logo nos primeiros dias dessa legislatura, José Saraiva Filho, do PR, e José Campolina, da UDN, rompem com as respectivas legendas e passam a apoiar a coligação PTB-PSD.

Iniciava-se aí a tormentosa fase da história política do município, que se estenderia até 1966.

Nas eleições estaduais e federais, as candidaturas ponte-novenses não lograram êxito. João de Carvalho, Sette de Barros, Cristiano de Freitas Castro e o candidato udenista Carlos Jardim de Rezende foram derrotados. Geraldo Vasconcellos também não conseguiu retornar à Câmara Federal. De todos esses candidatos, apenas Cristiano e Sette assumem, como suplentes que eram, vagas de deputados que se afastam. O primeiro entra no lugar de Agostinho Campos Neto e o segundo, que obtivera votação insignificante em Ponte Nova, substitui José Hugo Castello Branco e, em 1964, efetiva-se na voga surgida com a cassação de Sinval de Oliveira Bambirra.

O Deputado Federal padre Pedro Maciel Vidigal obteve nessa eleição de 1962, em Ponte Nova, uma votação surpreendente. Nenhum partido ou corrente política do município havia abraçado a candidatura do Padre/Deputado, que contava apenas com o apoio de membros da Sociedade São Vicente de Paula, politicamente inexperientes e sem qualquer projeção político-partidária. Desenvolvido basicamente por Marcos Pereira Rodrigues e Antônio Bartholomeu Barbosa, a campanha de Pedro Vidigal ganhou impulso com o cunho religioso que ela adquiriu, em momento conturbado da vido política da Nação.

Com a posse de Abdalla Felício, no dia 4 de fevereiro de 1963, iniciam-se também os problemas com a oposição.

Posse de Abdalla Felício.Também estão na fotografia Raimundo Bellico
que deixava o cargo de prefeito e Mário Clímaco, secretário da Prefeitura.

 

A situação tinha apenas seis dos quinze votos do legislativo, e a oposição se mostrou violenta desde o primeiro dia do mandato de Abdalla.

Ponte Nova ganhava algumas obras. O ambulatório, construído com recursos do IAA e que ficaria vinculado à Associação dos Plantadores de Cana de Ponte Nova, foi inaugurado no dia 28 de julho de 1963. O estabelecimento, que se desdobraria posteriormente no Hospital Arnaldo Gavazza Filho, recebe o nome de Ambulatório Sette de Barros, homenageando o político que conseguira, do Governo Federal, recursos para a concretização da obra.

Sette de Barros também tem participação decisiva no início das obras do Serviço de Captação, Tratamento e Distribuição de Água de Ponte Nova. Atendendo a um pedido seu, João Goulart autoriza os trabalhos ainda em 1963. O Diretor do Departamento de Obras e Saneamento, Geraldo Reis, desloca-se ate Ponte Nova, em companhia de Sette de Barros, para tratar do assunto.

Se o inicio da obra deve-se a Sette de Barros, a sua conclusão pode ser creditada ao Senador Milton Campos. Nos seus trabalhos parlamentares de 1963, fez incluir no Orçamento da União, para o exercício de 1964, a quantia de 100 milhões de cruzeiros, soma suficiente para a continuação da obra até a sua conclusão.

Havia surgido um movimento reivindicatório, liderado por José Alves de Souza e Alberto Graça Castanheira, que visava sensibilizar o Governador, no sentido de conseguir alguns benefícios para a cidade. Queriam o asfaltamento das estradas Ponte Nova/Mariana e Ponte Nova/Rio Casca, a pavimentação do aeroporto e a construção dos edifícios do Fórum e da Cadeia Pública, assim como a conclusão da Praça de Esportes. Os membros desse movimento reivindicatório chegaram a organizar uma comitiva de cem carros, que se dirigiria até Belo Horizonte paro pressionar o Governador. Entretanto, Magalhães Pinto se antecipou aos manifestantes e foi a Ponte Nova no dia 30 de junho de 1963, atendendo a um convite de líderes ruralistas, para oficializar a abertura da oitava Exposição Agropecuária.

No aeroporto, o Governador é saudado pelo Prefeito, Abdalla Felício, e pelo Dr. Salvador Ferrari, que fala em nome do movimento. De fato, Magalhães chega a conhecer o estado lastimável em que se encontravam os prédios da cadeia e do fórum.

Já em janeiro do ano seguinte, são publicadas no "Minas Gerais" ordens de serviço, nas quais o Governador se dirige ao Secretário de Comunicação e Obras Públicas, determinando o início das obras do fórum, e ao Diretor-Chefe do DER, autorizando o asfaltamento do estrada que liga Ponte Nova a Mariana.

O incidente político mais grave, durante o ano de 1963, em Ponte Nova, foi, sem dúvida alguma, o episódio que envolveu o líder trabalhista San Tiago Dantas. Sette de Barros, como membro do Diretório do PTB, ligara-se a Francisco Clementino de San Tiago Dantas. Apoiou-o como candidato a Deputado Federal e quando ele pleiteou a Vice-Governância de Minas Gerais, na chapa encabeçado por Tancredo Neves.

Em 21 de janeiro de 1963, San Tiago Dantas torna-se Ministro da Fazenda de João Goulart. Sette de Barros torna-se, então, freqüentador assíduo dos gabinetes daquele ministério.

San Tiago Dantas atendia, como podia, a todos os pedidos do suplente de deputado, beneficiando, inclusive, algumas vezes, a Cidade de Ponte Nova.

Tudo começou quando, por intermédio do fiel correligionário, Vereador Benedito César, Sette de Barros fez tramitar na Câmara Municipal um Projeto, concedendo o título de cidadão honorário de Ponte Nova a San Tiago Dantas.

A UDN reage indignada e pressiona o prefeito, exigindo que ele vete o projeto. Sette de Barros, ciente da manobra udenista, ameaça Abdalla Felício com toda a sorte de perseguições. Abdalla estava "entre a cruz e a caldeirinha", e o episódio só não evoluiu, com conseqüências mais graves, porque em 20 de junho de 1963 San Tiago Dantas é substituído no Ministério por Carlos Alberto Alves de Carvalho Pinto e, logo no ano seguinte, falece no Rio de Janeiro

Duas mortes abalam a cidade no ano de 1963. Em junho, faleceu, em Urucânia, o podre Antônio Pinto, que, por anos o fio, recebeu milhares e milhares de fiéis que acreditavam em seus milagres. No dia 3 de novembro morre, aos 54 anos, o vice-prefeito Everardo Bráulio, ex-vereador, ex-Presidente da Câmara e líder político de expressão.

 

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