João Vidal de Carvalho/Eleições de 1958

O quatriênio de João de Carvalho chegava ao final com intensa velocidade. O volume das obras e a movimentação política contribuíam para que se tivesse a impressão de que, de fato, o tempo corria anormalmente veloz. Contudo, atento a todos os detalhes, o Prefeito de Ponte Nova programava o seu futuro político com calma e inteligência. Já não era segredo a sua candidatura a Deputado Estadual, e, para oficializá-la, era necessário desincompatibilizar-se do cargo. Assim, a renúncia em si não trouxe estranheza. O que causou impacto na classe política foi o fato de os dois substitutos legais terem-se negado a assumir a Prefeitura.

Raimundo Bellico Sobrinho, ciente de sua força política no contexto municipal, não aceitara o centralismo da administração e, há algum tempo, havia-se indisposto com João de Carvalho. Este, em campanha para deputado desde os primeiros dias de seu mandato, tornara-se, por força da própria campanha, egocêntrico, fazendo refletir em si todas as vitórias políticas obtidas naquele período.

Com esse rompimento, Bellico aproximara-se da antiga corrente pessedista e já se dispunha a candidatar-se, novamente, a Vice-Prefeito na chapa daquela ala. Pesaram na sua decisão a orientação do velho PR e o sinal verde emitido pelo "comandante" da sigla, Cristiano de Freitas Castro.

O Presidente da Câmara Municipal, Romeu de Albuquerque Moreira, também de olho nas próximas eleições, não quis assumir o cargo naquele curtíssimo período.

Nessa situação, inédita na política local, assume a Prefeitura de Ponte Nova o Vice-Presidente da Câmara, Odorico Vidigal Soares, Vereador eleito pelo Distrito do Rio Doce.

João de Carvalho, realmente atento a todos os detalhes, percebeu o fortalecimento da corrente adversária, ligada ao PSD e à facção zitista. Rápido, como o momento exigia, arma o desmonte da sigla em Ponte Nova, com Crispim Jacques Bias Fortes, filho do Governador do Estado, José Francisco Bias Fortes, de quem se havia tornado grande amigo.

O esquema era simples. Um novo Diretório do PSD foi registrado em Belo Horizonte, com elementos da corrente de João de Carvalho, o que deixou complemente sem movimento os tradicionais pessimistas ponte-novenses. Imediatamente, é criada á coligação PTB-PSD sob o total controle de Carvalho.

Pelo que tudo indicava, aquela eleição só teria um candidato a Prefeito, como planejavam os petebistas - Helder de Aquino, do PTB, tentaria suceder ao seu sucessor. Não contavam, entretanto, com os desdobramentos que se deram a partir daí. Gabriel Trindade Palermo havia vindo para Ponte Novo para chefiar o Serviço de Fazenda, em 1955. Natural do Rio Doce e amigo de João de Carvalho desde os tempos de estudantes no Rio de Janeiro, ele era sobrinho, pelo lado materno, do Cônego Raimundo Trindade, que, além de religioso e intelectual, fora Vereador e Presidente da Câmara de Ponte Nova. Pelo lado paterno, era sobrinho do Dr. Pedro Palermo, médico italiano, que, radicado em Ponte Nova, também tinha sido banqueiro.

Gabriel Palermo fizera um trajeto político semelhante ao de João de Carvalho. Viera do Rio de Janeiro, elegera-se vereador e recebera carta branca para se firmar como líder político, enquanto exercera o cargo de Chefe da Fazenda. Militava no jornalismo e também se ligara ao tradicional clã dos Vieira Martins, quando contraíra núpcias com a prima da esposa de Carvalho. Agora , ele também queria ser prefeito e, para isso, precisava contar com o apoio do prefeito e amigo.

Quando percebeu que composições feitas anteriormente levariam o nome de Helder de Aquino para a chapa do PTB, Palermo, rompendo com Carvalho, procurou o Partido Democrata Cristão, chefiado por Argemiro Varela, e se lançou candidato.

O inesperado acordo firmado entre os pessimistas destronados e o Deputado peerrista Cristiano de Freitas Castro também atrapalharia os planos dos petebistas.

Com a mesma rapidez com que João de Carvalho tomou a sigla do PSD de seus verdadeiros integrantes, Cristiano ofereceu o PR para que Luiz Martins Soares Sobrinho se candidatasse a Prefeito de Ponte Nova.

Soares Sobrinho tinha toda a tradição pessedista, conseguindo, dessa forma, aglutinar em torno de seu nome toda aquela velha corrente partidária. Independentemente da sigla, ele também gozava de grande prestigio em todo o município. Na sua passagem pelo Prefeitura de Ponte Nova, entre os anos de 1947 e 1951,ele aliou a seriedade administrativa à realização de inúmeras obras de destaque e importância.

Além de tudo isso, a chapa abrigada no PR conotava com um vice-prefeito bom de voto, que era Bellico Sobrinho. O Líder do Distrito do Amparo do Serra já havia sido vice-prefeito, com Helder de Aquino e João de Carvalho, e nessas duas eleições os votos amparo-serrenses tinham sido decisivos.

Os resultados das eleições de 3 de outubro de 1958 foram surpreendentes. Os antigos zitistas, agora abrigados no PR, esmagaram seus concorrentes.

Luiz Martins Soares Sobrinho recebeu 2.849 votos, enquanto Helder de Aquino e Gabriel Palermo obtiveram 1.581 e 409, respectivamente. Raimundo Bellico Sobrinho elege-se, ainda em eleições independentes, com 2.562 votos, Vice-Prefeito de Ponte Nova.

O PR também fez maioria na Câmara, elegendo oito vereadores: Everardo Bráulio, Júlio Flávio Torres Messias, Otávio Lanna Vasconcellos, Abdalla Felício, Luiz Carlos Soares Martins, Bueno de Souza Guerra, José Henrique da Silva e Francisco Linhares Ribeiro.

Pelo PSD, elegeram-se José Inocêncio Alves Costa, Romeu de Albuquerque Moreira, Paulo Giardini, João Garílio e Geraldo de Freitas Teixeira. O PTB fez os dois restantes: José Teixeira de Souza e Wilson de Carvalho e Silva.

Da coligação PTB-PSD, o campeão de votos foi o médico José Inocêncio Alves Costa, que obteve 484 votos. Já no PR, destacou-se Everardo Bráulio, com 412 votos.

O curioso desse pleito é que a composição da Câmara não obedeceu aos critérios do majoritarismo. Candidatos bem votados como José Serra Alvarenga, 257 votos, Antônio Teixeira,79, Adelso Rodrigues de Lima, 54, pelo PR, Benjamim de Barros, 255, José Kleber Leite de Castro, 200, Manoel Lanna Martins, 165, pelo PSD, Morethson José Barbosa, 209 e Augusto Mendes Filho, 86, pelo PTB, não assumiram suas vagas. Num acordo de cúpula partidária, ocuparam os lugares outros candidatos menos votados, como foi o caso dos peerristas Luiz Carlos Soares Martins, 49, Bueno de Souza Guerra, 20, José Henrique da Silva, 11, dos pessimistas Paulo Giardini, 86, João Garílio, 61 e Geraldo de Freitas Teixeira, 24 e dos petebistas José Teixeira de Souza, 30 e Wilson de Carvalho e Silva, 30.

Para os candidatos a deputado federal, essa eleição também reservou surpresas.

Geraldo Vasconcellos, o mais votado do município, com 2.726 votos, chegou triunfalmente à Câmara. José Sette de Barros, que obteve 1.045 votos, aguardaria, na suplência, uma vaga, que só surgiria em 1962. Chrispim Jacques Bias Fortes elegeu-se com uma votação expressiva, mas os votos de Ponte Nova, evidentemente, não colaboraram para tal, pois obteve apenas 348 votos em todo o município.

Derrotado nas eleições municipais, mas vitorioso no seu pleito estadual, João Vidal de Carvalho chega à Assembléia Legislativa com expressiva votação. Somente em Ponte Nova, ele recebe 2.171 sufrágios.

O peerrista Cristiano de Freitas Castros estava plenamente satisfeito. O Prefeito de Ponte Novo era de seu partido e ele recebe 1.487 votos na cidade, reelegendo-se deputado estadual.

O bancário Carlos Jardim de Rezende, filho de importante político viçosense, radicado em Ponte Nova, não obteve, como esperava, o apoio de seus colegas e teve apenas 415 votos.

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