Helder de Aquino e João Vidal de Carvalho
Anos 50

No ano de 1950 foi realizado o sexto recenseamento geral, que contou 51.722.000 habitantes em todo o Brasil.

Ponte Nova tinha 30.254 almas, dos quais 14.804 viviam no campo e 15.450 estavam localizadas dentro do perímetro urbano. O Distrito de Amparo do Serra possuía 7.478 habitantes, em Urucânia residiam 6.949 pessoas e no Rio Doce o recenseamento acusou a existência de 4.691 moradores. Piedade de Ponte Nova tinha 4.420; Oratórios, 3.947; e Vau-Açu, 3.173 habitantes.

Esse ano também foi importante para a cultura e para os artes de Ponte Nova. Surgiu, à ocasião, o "Grupo de Ponte Nova", um movimento liderado pelo poeta Antônio Brant Ribeiro, que, cercado de jovens intelectuais, como Jamil Santos, Nelson Alves, Mário Clímaco e Olegário Lopes, lança, no dia 10 de setembro, o Suplemento Literário.

Distribuída junto com o Jornal do Povo, a publicação recebia constantes elogios de nomes da envergadura de Afonso Arinos de Mello Franco, Eugênio Gomes, Edmundo Lyns, Carlos Drumond de Andrade, Edson Moreira e Abgard Renault. Citado pela imprensa nacional como um dos mais importantes movimentos culturais do interior mineiro, o Suplemento Literário abriu suas páginas também às artes plásticas, e importantes artistas ilustraram os matérias nele estampadas.

O advogado, sociólogo e ex-Deputado Estadual Edgar de Vasconcellos se manifestava assim na Revista Acaiaca:

"Sobre o grupo de Ponte Nova já a imprensa das capitais se tem manifestado repetidas vezes, louvando, sem restrições, o heroísmo desse pugilo de intelectuais que, em plena Zona da Mota, vem lutando contra toda sorte de dificuldades, para manter um Suplemento Literário digno de qualquer dos grandes jornais do País".

Para os políticos, o ano passava rápido. Em São Paulo, Ademar de Barros lança a candidatura de Getúlio Vargas e Café Filho, que, imediatamente, partem para a campanha, fazendo uma verdadeira peregrinação pelo Pais.

Em Minas Gerais, Juscelino Kubitschek de Oliveira surpreende a todos quando vence, na convenção do PSD, o velho Bias Fortes. O político barbacenense era tido como candidato natural do partido e na campanha para o Palácio da Liberdade sairia com grande possibilidade de vitória. O próprio Arthur Bernardes havia prometido o apoio do seu PR ao candidato pessedista, se ele fosse Bias Fortes. Além disso, o PSD havia se reorganizado, trazendo novamente para os seus quadros importantes lideranças que, dissidentes, se haviam afastado do partido no pleito anterior.

As surpresas estariam também reservadas para Ponte Nova.

O PSD estava sem rumo, desde a morte de Luiz Martins Soares. Faltavam-lhe a autoridade e o poder de decisão do grande líder. Nesse ambiente de desorientação, os nomes de José Pinheiro Brandão, que fora Vice-Prefeito na gestão de Soares Sobrinho, e José Torres Messias são apresentados à convenção, para a escolha do candidato do partido. O surgimento de dois interessados na vaga era, por si só, uma demonstração de que já não existia o Grande Chefe que definia, com antecedência, os candidatos do PSD, evitando disputas e o conseqüente enfraquecimento da sigla.

Os postulantes à vaga se comprometem, oficialmente, a abraçar a candidatura daquele que fosse escolhido pela executiva do partido. Vence José Torres Messias, então importante agricultor e descendente de tradicional família de políticos e antiquíssimos moradores de Ponte Nova, os Gançalves Torres.

Inconformado com a derrota, José Pinheiro Brandão rompe com o partido, não respeitando o acordo firmado antes da convenção.

O PSD não perde só o inconformado candidato, pois, ao deixar a sigla, ele carrega consigo o concunhado, Helder de Aquino.

Agricultor, Aquino era natural de Tabuleiro e, nesta ocasião, o proprietário da Fazenda da Décima, importante estabelecimento agrícola, situado no então Distrito de Urucânia.

Helder de Aquino já gozava de certo prestígio, e a dissidência do PSD leva seu nome a Augusto Mendes Filho e outros próceres do PTB ponte-novense para ser candidato a prefeito pelo partido.

O PR local não lança candidato, preferindo coligar-se com o PSD, apoiando a candidatura de Torres Messias.

A UDN lança o nome do conceituado médico José dos Reis Cotta, cujas origens se encontravam em Barra Longa, mas que em Ponte Nova, além da Medicina, havia-se dedicado à vida pública. Já tinha sido vereador e ocupado a Presidência do Legislativo ponte-novense.

O Partido Democrata Cristão-PDC homologou a candidatura de Argemiro Fernandes Varela. Ele era funcionário da Escola Técnica e do Centro de Saúde, mas não gozava de muito prestígio político.

Inicialmente, o nome de Helder de Aquino pareceu pouco expressivo. No decorrer da companha, entretanto, foi crescendo e recebendo importantes apoios, quer de pedessistas dissidentes, quer de jovens petebistas que despontavam como autênticos líderes, como eram os casos de João Vidal de Carvalho e José Sette de Barros.

João Vidal de Carvalho

Outro nome de peso, e talvez o mais importante de todos, naquela composição, foi o do próprio candidato a Vice-Prefeito, Raimundo Bellico Sobrinho. Líder absoluto em Amparo do Serra, ele detinha quase que a unanimidade dos votos válidos daquele distrito, e seu trabalho seria decisivo naquela eleição.

Surgiam, também, as candidaturas regionais para deputados. O PSD tinha Antônio Caetano de Souza, que tentaria a reeleição como Deputado Estadual, e o construtor Reynaldo Alves Costa, que se candidataria a Deputado Federal. Amador Ubaldo Ribeiro, fazendeiro, usineiro e ex-Prefeito de Jequeri, filiado àquele partido, também disputava votos ponte-novenses para a Assembléia Estadual.

A UDN tinha José Grossi como candidato a Deputado Estadual. Ele havia tido bom desempenho nas eleições anteriores, chegando a ocupar a terceira suplência de seu partido, na Câmara Federal. Agora , queria uma vaga na Assembléia Legislativa. Cantídio Drumond Filho, filho do ex-Prefeito ponte-novense, era o candidato a Deputado Federal por aquela sigla.

O PR tentava levar, novamente, para Belo Horizonte, como Deputa do Estadual, José André de Almeida, enquanto o PTB lançava a candidatura de Armando Bráulio para o mesmo cargo.

Surgiam outras candidaturas, que, sem estrutura partidária, estavam fadadas ao insucesso. O professor José Schiavo, por exemplo, ponte-novense de nascimento, mas, já há algum tempo residindo fora do município, se dispôs a candidatar-se pelo incipiente Partido Social Progressista-PSP.

Bem antes de sua realização, estava prevista uma acirradíssima disputa nas eleições de 1950, principalmente no âmbito regional.

Havia, além do clima de disputa local, uma excitação popular, que crescia à medida que se aproximava o dia 3 de outubro. Seria uma eleição geral, de Presidente da República a Juiz de Paz, diferente, portanto, daquilo a que estava acostumado o eleitor brasileiro. Seria uma eleição verdadeiramente democrática, e isso agradava e estimulava candidatos e eleitores.

O PSD ponte-novense já não era o mesmo. Estava enfraquecido por divergências internas e faltava-lhe a orientação do líder, Zito Soares. Assim, peio primeira vez em todo a sua história, conheceria a derrota.

Durante a apuração, os candidatos do PSD e do PTB disputavam os votos, unidade por unidade. Quando faltavam as últimas urnas, exatamente as de Rio Doce, José Torres Messias, do PSD, liderava com 153 votos. Naquele distrito, houve a virada triunfal do PTB, que deu a vitória a Helder de Aquino.

Com um total de 4.463 sufrágios, no cômputo geral, contra 4.224 votos dados a José Torres Messias, o PTB ganha as eleições, e Helder de Aquino torna se Prefeito de Ponte Nova. José dos Reis Cotta foi votado por 1.770 eleitores, e Argemiro Varela obteve apenas 99 sufrágios.

Os vices-prefeitos, que ainda tinham sua eleição separado das de prefeito, tiveram uma votação muito próxima às dos cabeças de chapa. Bellico Sobrinho se elegeu com 4.372 votos, enquanto Francisco Martins da Silva obtivera 4.018 e Renato Marinho 1.824.

Essa surpreendente votação do PTB, no Rio Doce, teve uma explicação dos observadores políticos da época. Para eles, ela se deveu à posição intransigente de Emílio Martins, pedessista convicto e influente líder daquele distrito. Martins desenvolvera uma campanha radical contra a condidatura de Getúlio Vargas, afirmando, em praça pública, que dispensava, para os seus candidatos, os votos daqueles que pretendiam votar no ex-ditador.

O PSD, que na eleição passada elegera nove vereadores, desta feita consegue levar para a Câmara Municipal apenas sete. Foram eleitos pela sigla Abdalla Felício, com 685 votos; Raimundo Martiniano Ferreira, com 500; Luiz Martins Soares Sobrinho, também com 500; Francisco Linhares Ribeiro, com 439; Armando de Freitas, com 409; Armindo Pereira, com 353; e Geraldo de Freitas Teixeira, com 325. O PR, que se coligara com o PSD, fez apenas um vereador, Silvio Pereira da Silva, que obteve 279 votos.

A UDN também ficou com uma fraca representação na Câmara, elegendo apenas Francisco Vieira Martins, com 317 votos, e Romeu Albuquerque Moreira, com 241.

Os cinco vereadores restantes foram do PTB. José Carias teve 774 votos, João Vidal de Carvalho, 606, Urbano de Almeida Costa, 504, Dário Pinto Neves, 417 e Adriano Fonseca, 282. Este último, alegando incompatibilidade por ser cunhado de Francisco Vieira Martins, renuncia ao cargo, abrindo vaga para o primeiro suplente, Augusto Mendes Filho.

O PR ponte-novense, por sua vez, perdeu o seu representante na Assembléia Legislativa. José André de Almeida não conseguiu reeleger-se, pois os votos peerristas foram pulverizados em candidatos de cidades vizinhas, como Cyro de Aguiar Maciel, de Calambau; e Carlos Vaz de Mello Megale, de Viçosa.

Os eleitos Helder e Bellico divulgam um boletim que definia bem a postura política que deveriam assumir durante seu quadriênio:

"...atendendo aos imperativos da nossa inclinação expontânea, não vacilamos em dar também, mesmo com sacrifício, a decisão do nosso melhor esforço e todo o nosso patriotismo em benefício da causa comum, preferindo, antes e acima de tudo, ficar com o povo, pelo que fomos honrados com a indicação de nosso nome para Prefeito e Vice Prefeito deste Município, aceitando e prometendo cumprir fielmente o programa do Partido Trabalhista Brasileiro, que é o partido de Getúlio Vargas e do povo do Brasil."

Ainda no mês de fevereiro, Helder de Aquino e Raimundo Bellico Sobrinho seguem para Belo Horizonte, onde são recebidos pelo Governador Juscelino Kubistchek, e de já seguem para o Rio de Janeiro. Na capital federal, através do Deputado Luiz de Gonzaga Machado Sobrinho, majoritário em Ponte Nova no último pleito, e de Ivete Vargas, conseguem uma ambicionada audiência com o Presidente Getúlio Vargas, no Palácio Rio Negro.

Helder de Aquino fazia um governo moderado. Não se excedia no campo político e desenvolvia uma administração parcimoniosa. A oposição, no entanto, era forte e pressionava violentamente o prefeito. A maioria pessedista da Câmara não "engolia" o ex-companheiro que de bandara para o PTB; a UDN tinha também suas restrições a ele. Restava, desta forma, a pequena bancada petebistas para apoiá-lo. Entretanto, a conduta séria e equilibrada de Helder de Aquino fazia com que ele fosse respeitado até mesmo pelos adversários mais radicais.

Como agricultor, Helder conhecia profundamente as dificuldades dos produtores rurais. Daí o dedicação de seu governo às estradas municipais.

Um perfeito sistema de manutenção de pontes e estradas mantinha a malha viária do município em perfeitas condições de trafegabilidade, mesmo nas épocas de chuvas.

Nos acessos ao perímetro urbano foram executados obras de melhorias, como no "Gavetão", por onde se chega de Viçosa, Juiz de Fora e Rio de Janeiro, lugar em que foi construída uma ponte de concreto armado e alguns trechos de ruas foram calçados.

Na Capital da República, o Presidente Getúlio Vargos também sofria com uma oposição violenta e, desde o início de seu mandato, a 31 de janeiro de 1951, era combatido por vasta corrente, liderada por Carlos Lacerda.

O tumulto foi aos poucas se generalizando. A oposição crescia e se valia da imprensa para lançar seus petardos. Os getulistas e uma grande massa de trabalhadores reagiam com manifestações públicas e atos cívicos.

A ordem estava, de fato, comprometida, e a infausta interferência do guarda-costas Gregório Fortunato, que planejou e autorizou o atentado a Carlos Lacerda, desencadeou uma das mais graves crises de nossa história.

O suicídio de Getúlio Dorneles Vargas em 24 de agosto de 1954 convulsionou o País, e milhares de trabalhadores, sensibilizados, choraram o morte do Presidente. A oposição se aquieta, assustado e incrédula, com os últimos acontecimentos.

Num curto período de tempo, passam três nomes pela Chefia da Nação. João Fernandes Campos Café Filho, Vice de Getúlio, assume com a morte deste. Carlos Coimbra da Luz, Presidente da Câmara, exerce a Presidência da República de 20 a 29 de abril de 1955 e de 9 a 11 de novembro de 1955, quando é deposto. Sobe ao poder o vice-presidente do Senado, Nereu de Oliveira Ramos, que governa de novembro de 1955 a 31 de janeiro de 1956.

Em Minas, Juscelino Kubitschek deixa o governo em 31 de março de 1955, entregando o comando do Estado a seu Vice, Clóvis Salgado da Gama, para se candidatar e se eleger Presidente da República.

No governo federal ocorriam mudanças, em meio a assustadora instabilidade constitucional. No âmbito estadual, as mudanças tinham sabor de novidade.

Em Ponte Nova, a inusitada vitória de Helder de Aquino, em 1951 , levara o PTB ao poder e, seu governo, estável e consciencioso, consolidara esse domínio. Por outro lado, o PSD apresentava sérias dificuldades internas. O diretório já não conseguia manter a unidade partidária, e, aos poucos, surgia uma corrente rebelde às determinações da direção pessedista. Liderada por Reynaldo Alves Costa, homem ligado a José Pinheiro Brandão, aquele mesmo que fora o responsável pela dissidência pessedista que levara Helder de Aquino à Prefeitura em 1951, esta corrente passou a flertar com o PTB desde que este partido chegara ao poder.

Soares Sobrinho se antecipa e, depois de articular uma coligação com a UDN, lança a chapa Abdalla Felício (PSD) e Renato Marinho (UDN), para Prefeito e Vice, respectivamente, e também se lança candidato a Deputado Estadual.

O PTB, por sua vez, estava em situação confortável. Tinha a Prefeitura, cujo titular fazia boa e popular administração. Numa convenção, que mostrou equilíbrio e tranqüilidade, Adriano Fonseca, experiente articulador, é reeleito Presidente do Diretório petebista e passa a contar com o próprio prefeito como seu vice-presidente, Urbano de Almeida Costa, secretário, e Pergentino Marliere, tesoureiro.

Unido, forte e encorajado pela eleição anterior, o PTB lança a candidatura à Prefeitura de Ponte Nova, do então jovem e carismático advogado, Vereador João Vidal de Carvalho.

João Carvalho não fora o vereador mais votado em 1951 e sequer desfrutava de prestígio na sede do município, naquela ocasião. Sua eleição, com 606 votos, pelo Distrito de Rio Doce, onde dominava "coronelisticamente" Emílio Martins, refletiu-se estrondosamente em toda Ponte Nova. O velho prócer, também com votos daquele distrito, conseguiu levar para a Câmara o udenista Geraldo de Freitas Teixeiras, que, entretanto, só obteve 325 votos, apesar de todo o esforço do coronel.

João de Carvalho precisava de um companheiro de chapa que trouxesse votos e, novamente, foi cogitado o nome do já Vice-Prefeito Raimundo Bellico Sobrinho, líder incontestável do Distrito de Amparo do Serra, cujos votos foram decisivos para a eleição de Helder.

No dia 18 de abril de 1954, o Diretório do PR, sob a Presidência de Raimundo Bellico Sobrinho, se reuniu, ratificou a coligação PTB/PR e aprovou a chapa para as eleições, com posto de João Vidal de Carvalho (PTB), para Prefeito, Bellico Sobrinho (PR), para Vice-Prefeito, Reynaldo Alves Costa (PSD), para Deputado Federal e Cristiano de Freitas Castro (PR), para Deputado Estadual.

João de Carvalho desenvolveu uma campanha estrategicamente bem planejada e, aproveitando sua simpatia, conquistou os votos de trabalhadores e das classes menos favorecidas, que por aquela época já eram a grande maioria do eleitorado.

Por essa época, o jovem advogado também já havia contraído núpcias com Ivone Barbosa Martins, filha de uma das mais tradicionais famílias de Ponte Nova, os Vieira Martins, entroncados nos Martins da Silva, de tantas histórias e participações na política loca(

Bellico Sobrinho também se desdobrava, numa campanha que se anunciava acirradíssima. A certa altura, doente no Rio de Janeiro, faz publicar um manifesto a seus correligionários:

"Ao Povo amigo de Amparo do Serra.

Comunico aos prezados amigos e companheiros de meu querido Amparo do Serra que me acho em tratamento de saúde aqui, na capital dA RepublicA, felizmente passando bem. Brevemente estarei ao vosso lado, para juntos marcharmos para a batalha cívica de 3 de outubro, lembrando a todos de que da nosso vitória dependem o progresso e a paz em nossa ferra.

Peço-vos também não vos deixeis iludir pelos falsos profetas, e que o nosso candidato a Prefeito é o Dr. João Vidal de Carvalho e quem apoiar o meu nome para Vice Prefeito e não apoiar o deste ilustre candidato, não é meu companheiro político. Prefiro que cerreis fileiras em torno do Dr.: João Vidal de Carvalho e vos esqueçais do vosso humilde amigo.

Raimundo Belico Sobrinho.

Rio de Janeiro, 3 de maio de 7954."

Era o apelo do "coronel", que via a campanha eleitoral como uma marcha e as eleições como verdadeira batalha. Confiava tanto em sua liderança, que ameaçava seus eleitores, exigindo que votassem também em João de Carvalho, caso contrário não seriam seus companheiros políticos.

João de Carvalho escolhera bem o seu vice-prefeito e tinha a seu favor uma Publicidade cativante e arrebatadora.

A velha oligarquia, que por anos a fio dominara a política ponte-novense, amargaria a sua segunda derrota. Não agüentaria, definitivamente, o "furacão petebista".

Divulgados os resultados das eleições de 3 de outubro, João de Carvalho obtém 7.176 votos, enquanto 5.447 eleitores optam por Abdalla Felício. Bellico, com 7.106 votos, também derrotA seu adversário, Renato Marinho, que logra 5.526 votos.

O PTB fez nove dos vereadores municipais: Everardo Bráulio, 859; José Caria, 736; Agenor Giardini 1603; Waldemar Jorge, 600; Romeu de Albuquerque Moreira, 508; Felício Galinari, 495; José Saraiva Filho, 453; Sebastião Elias da Silva, 449; e Antônio Leôncio Carneiro, 444. O PSD elegeu Júlio Flávio Torres Messias, com 825 votos; Francisco Linhares Ribeiro, com 555; Geraldo Gonçalves Cruz, com 468; Odorico Vidigal Soares, com 402; e Antônio Lopes Filho, com 366. A UDN elegeu apenas um vereador, o bancário Carlos Jardim de Rezende, que obteve 319 votos.

A representação da cidade na Assembléia Estadual continuaria relativamente fraca, pois mais uma vez seria de apenas um deputado. Dessa feita, o PR elegia Cristiano de Freitas Castro, filho do velho prócer peerrista e ex-Deputado José Felipe e genro do ex-Presidente Arthur da silva Bernardes, que recebera 4.343

votos só em Ponte Nova. Os outros dois candidatos à Assembléia Legislativa, Luiz Martins Soares Sobrinho, com 2.248 votos, e José Grossi, com 806, não se elegeram.

Do PR e ligados a Ponte Nova, elegeram-se dois outros deputados estaduais de uma mesma cidade, a vizinha Calambau, isto é, reelegia-se Cyro Maciel e estreava na política estadual, com sucesso, o então padre Pedro Maciel Vidigal.

Reynaldo Alves Costa, apesar dos expressivos 5.754 votos, recebidos em Ponte Nova, não consegue chegar à Câmara dos Deputados.

No dia primeiro de fevereiro de 1955, assume a Prefeitura de Ponte Nova o petebista João Vidal de Carvalho.

Romeu Moreira, presidente da Câmara, dá posse ao
Prefeito João Vidal de Carvalho

As finanças municipais estavam organizadas. O resultado do quatriênio de Helder de Aquino era positivo. Não existia dívida para com fornecedores, e o pagamento do funcionalismo estava em dia. Assim, ele inicia seu governo com uma disposição pouco comum. Abriu dezenas de frentes de obras e imprimiu ritmo alucinante à administração municipal. Na realidade, ele tinha outros planos e pretensões: João de Carvalho não queria terminar sua carreira de homem público como Prefeito de Ponte Nova.

Tudo caminhava de acordo com o esperado. Em outubro de 1956, fica acertada a comemoração do nonagésimo aniversário da cidade. Era mais um acontecimento político, para divulgar as obras e realizações dos 165 primeiros 20 meses do governo de João de Carvalho.

Extenso programa, composto de inaugurações, acontecimentos sociais e eventos culturais, agitaria a cidade entre os dias 27 e 30 de outubro.

O poeta, crítico literário e artista plástico Antônio Brant Ribeiro encarregou-se de organizar toda a parte cultural e artística da programação, trazendo figuras conhecidos no mundo intelectual, como Ivan Serpa e Ivo Barroso. Organizou exposição de artes, apresentação de jograis, concurso de arte infantil e outros itens, que repercutiram positivamente em todo o Estado e nos principais centros culturais do País.

A partir do dia 27 começou a maratona de inaugurações das obras do governo João de Carvalho: Mercado Municipal, Grupo Escolar Senador Miguel Lanna, Sede do Tiro de Guerra 149, Ponte Bias Fortes, sobre o rio Piranga, edifício da Prefeitura, no Avenida Caetano Marinho, busto de Getúlio Vargas, casas populares, "playground", em Palmeiras, calçamento do prolongamento da Rua Cantídio Drumond até o seu encontro com o Rua Antônio Carlos e calçamento da Avenida José Vieira Martins, dentre outras.

Participavam dos eventos Abgard Renault, Secretario da Educação; General Augusto Braga, Comandante da 4a Região Militar; deputados federais e estaduais; representante do Governador; e diversos outras personalidades do mundo político mineiro.

Em meio a todas essas festividades, ainda é realizada a Primeira Exposição Agropecuária de Ponte Nova, organizada pela Sociedade Rural do Vale do Piranga, com o apoio incondicional da Prefeitura. Entretanto, nem tudo eram rosas no governo de João de Carvalho. A oposição não estava morta, as luzes do estrelismo, as comemorações e as festas não eram capazes, sequer, de ofuscá-la.

O advogado e militante udenista Rubem Dário de Abreu Grossi, por exemplo, em sua coluna no semanário Jornal do Povo, dirigia severas críticas a João de Carvalho, sem se esquecer de achincalhar, com a mesma virulência, o Presidente Juscelino Kubitschek.

Acerca do nonagésimo aniversário de Ponte Novo, já estava ele a afirmar que cem anos, ou até mesmo cinqüenta anos, números redondos, é que são datas a serem comemoradas. Noventa anos era uma data imposta, uma ocasião previamente escolhida para a promoção pessoal do prefeito, a expensas dos cofres públicos. O busto de Getúlio Vargas era outra esbórnia levada a efeito, única e exclusivamente, para promover o prefeito.

O Deputado Hernani Maia, que tinha ligações pessoais na cidade, participa de comício no dia 14 de outubro de 1956 e, em seu pronunciamento, ataca violentamente João de Carvalho. As palavras do deputado, pela sua violência, repercutem na Câmara dos Vereadores, que aprova moção de solidariedade, de autoria do Vice-Presidente da Casa, Everardo Bráulio, ao Prefeito Municipal.

Outros acontecimentos ainda movimentaram o cenário político. O Deputado Federal Vasconcellos Costa faz grande e elogioso pronunciamento na Câmara em alusão ao nonagésimo aniversário da cidade.

Em novembro, Geraldo Vasconcellos, que estava em campanha, tentando chegar à Câmara dos Deputados, anuncia que Juscelino Kubitschek, atendendo a seu pedido, liberou verba para a construção do edifício dos Correios.

Em novembro, no dia 13, a cidade se abala com o falecimento do construtor e político de expressão regional Reynaldo Alves Costa.

João de Carvalho continua trabalhando como se de fato estivesse em campanha eleitoral. Calça as Ruas João Pinheiro, Marcos Giardini e Vigário João Paulo e as Avenidas José Mariano e Dom Bosco. Rasga, com ruas, o Morro do Triângulo, doa lotes e faz um novo bairro. Ligado a Biazinho, filho do governador mineiro, ele consegue a construção de mais uma ponte sobre o rio Piranga, que recebe o nome de "Ponte Governador Bias Fortes", no prolongamento da Rua Senador Antônio Martins. Para amenizar o já antigo problema de abastecimento de água, ele determina a perfuração de três poços artesianos.

Como um trabalho da iniciativa privada, mas com todo o apoio de Carvalho, surge o Companhia Telefônica Pontenovense, sob a direção de Pio Gonçalves Pena, que também era o Presidente da Associação Comercial de Ponte Nova; do industriai Antônio Garavini e do advogado Waldemar Lanna.

O frenesi causado pelo ritmo da administração municipal só era comparável ao pipocar dos embates entre as correntes situacionista e oposicionista. De um lado, Benedito César, Gabriel Palermo e José Kleber Leite de Castro, fieis escudeiros do prefeito, usando as páginas do "Tribuno da Mata" para defender e elogiar, como podiam, o chefe. Do lado oposto estavam Rubem Grossi, Everardo Bráulio e Francisco Linhares, que tinham como porta-voz o "Jornal do Povo"

Gabriel Palermo

A oposição utilizava-se, comumente, de boletins, que eram distribuídos à população, geralmente a noite ou às escondidas, e atacava o governo João de Carvalho.

José Felício da Fonseca, irmão do líder petebista Adriano Fonseca, já não participava da política partidária, mas, fazia publicar alguns panfletos.

Entre o folclore e as discretas notas em jornais da época, é possível reconstruir o episódio em que adversários de João de Carvalho fizeram circular um boletim com críticas violentas a ele. Dentre as acusações estava o informação de que o prefeito venderia, em hasta pública, o edifício da prefeitura para levantar recursos destinados a sua campanha de deputado estadual.

João de Carvalho havia contratado, no início de seu mandato, como funcionário do matadouro municipal, um teixeirense de nascimento, chamado Abílio Floresta. Ele, no entanto, também desempenhava as funções de guarda-costas e "executor de serviços complicados" para o seu amigo e chefe.

Por ordem do prefeito, Abílio passou a fazer insistente vigilância noturna e, com a sua experiência, não lhe foi difícil localizar no escuridão da noite o rapaz que distribuía os agressivas boletins.

Sob a ameaça de um enorme "45" e entre sucessivos desmaios, o pobre rapaz confessou que quem lhe pagava para colocar os boletins debaixo das portas era o advogado e jornalista Rubem Grossi. No dia seguinte, o ambiente tornou-se tenso no centro da cidade.

O prefeito, furioso, queria ele próprio ajustar as contas com o caluniador. Seu irmão, Rizo de Carvalho, com quase dois metros de altura e campeão de lutas marciais, veio de Belo Horizonte para se encontrar com Rubem Grossi paro "um acerto de contas"

Abílio Floresta queria resolver o problema era mesmo com o seu enorme revólver. E o episódio só não acabou em tragédia porque algumas figuras respeitadas do cidade se incumbiram de "adicionar água à fervura"

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