PERÍODO CUSTÓDIO SILVA

Caetano Marinho abandona a vida pública depois de governar o município por onze anos consecutivos. De 1908 a 1918, durante três períodos legislativos, ele foi Presidente da Câmara, acumulando o cargo de Agente do Executivo.

A despeito de ter-se destacado como um dos melhores administradores de Ponte Nova, Caetano Marinho, no final de seu governo, foi alvo de uma forte oposição. Nessa fase, o parcimonioso médico, descendente de um dos primeiros governantes de Ponte Nova, chegou a encaminhar à Câmara pedidos de renúncia dos cargos de Vereador e Presidente da Câmara. Nessas duas ocasiões, intercedeu a seu favor o respeitado advogado e Vereador Miguel Antônio de Lanna e Silva, dissuadindo-o de tal intento. Assim, Caetano Marinho apenas concluiu seu mandato, não pleiteando mais nenhum cargo eletivo.

O grande chefe político, Senador Antônio Martins, estava com 71 anos, cansado e adoentado. Por outro lado, desde os tempos da Campanha Civilista, que sulcara profundamente a linha que separava as duas correntes políticas de Ponte Nova, a oposição vinha se fortalecendo rapidamente.

Antônio Martins

Nas eleição de 1918, os pontenovenses escolheram uma Câmara bem representativa. Dos quadros da situação saíram Francisco Vieira Martins, Miguel Antônio de Lanna e Silva, Manoel Cavalcante de Albuquerque e Francisco Romualdo Ribeiro. Da oposição, elegeram Francisco Martins da Silva, Manoel Pedro da Cunha, Antônio Palermo e o ex-Deputado, bernardista convicto, Dr. José Felipe de Freitas Castro. Apesar da existência nítida de duas correntes políticas dentro da Câmara, é escolhido, por unanimidade, para presidi-la o Vereador Custódio Martins Ferreira da Silva.

Custódio Silva

Custódio Silva descendia do velho tronco dos Martins da Silva, da Fazenda do Quebra Canoa, que tantos governantes e políticos de prestígio gerou. Ele era irmão de Antônio Martins Ferreira da Silva, ex-Vice-Presidente do Estado e uma das figuras políticas que gozava de maior prestígio em toda a Zona da Mata e que, apesar de idoso, ainda era o líder absoluto da corrente situacionista. Como lhe permitiram a doença e a idade, ele se empenhou na eleição do irmão. Custódio Silva tinha também a seu dispor a amizade e o apoio político do cunhado e ex Agente do Executivo José Mariano Duarte Lanna, que era casado com sua irmã,

Elisa Martins da Silva. Com toda essa genealogia, Custódio Silva transitava com grande desenvoltura pelos corredores do poder. Entretanto, ele era casado com Maria Ignácia de Almeida Campos, filha do Coronel José de Almeida Campos, que, já havia alguns anos, militava nas hostes da oposição. A situação de Almeida Campos como chefe dos oposicionistas se cristalizou não só em razão da sua vetusta imagem, mas também em conseqüência de uma vasta experiência política. Ex Presidente da Câmara Municipal desde 1869, tinha ainda o filho Lindolfo de Almeida Campos, Deputado Estadual, e um genro, Camilo Soares de Moura, ex-Presidente da Câmara, ex-Deputado Estadual, Ministro do Tribunal de Contas da União e irmão do prestigioso político mineiro Raul Soares de Moura, que, em 1922, substituiria Arthur Bernardes no governo de Minas. Assim, a situação de Custódio Silva era extremamente cômoda, também, em relação à oposição. Assumiu, nessa situação privilegiada, a Presidência da Câmara e o cargo de Agente do Executivo de Ponte Nova, a 1" de janeiro de 1919. A municipalidade ainda possuía dívidas, em conseqüência dos empréstimos levantados para a realização das grandes obras pelo governo anterior. Mas Ponte Nova crescia, e com ela a sua arrecadação.

Custódio Silva imprimiu forte ritmo à sua administração. Elaborou um projeto de reestruturação urbana, com uma série de melhorias nas principais ruas e logradouros da cidade. Ainda no ano de 1919 são iniciadas as obras de abertura da Avenida Beira Rio, ligando o Bairro de Palmeiras à cidade. Os estudos técnicos, elaborados pelo engenheiro João Carlos Bello Lisboa, foram aprovados, com a respectiva dotação orçamentária, pela Câmara Municipal. O serviço foi contratado pelo construtor Ângelo Crivelari, que, em setembro, concluiu a obra, que trouxe grande benefício para a cidade e proporcionou rápido desenvolvimento ao Bairro de Palmeiras. A Lei Municipal nro. 297, aprovada em 29 de setembro, autoriza a mecanização da avenida recém-aberta e também, ao mesmo tempo, o alargamento da Rua Municipal. Outras leis, versando sobre obras e reformas no perímetro urbano, são votadas e aprovadas pelos vereadores.

O Comendador Antônio Martins Ferreira da Silva, combalido pela doença, faleceu na manhã do dia 15 de abril de 1919. Ponte Nova e região sentem a passagem do velho líder, que durante vários anos de militância política carreara inúmeros benefícios para a sua terra natal. Centenas de manifestações de pesar chegaram de todos os cantos do Estado, enviadas pelas maiores expressões da política mineira. Estava aí, mesmo contra a vontade dos opositores, a prova incontestável do prestígio do velho líder.

Nesse primeiro ano de mandato de Custódio Silva já são observadas algumas mudanças na Câmara. O médico e industrial Francisco Vieira Martins, transferindo-se definitivamente para o Rio de Janeiro, renúncia ao mandato de Vereador, e no dia 11 de outubro Antônio Palermo, Vice-Presidente da Edilidade, também renuncia.

As obras públicas continuavam. Foi construída, de madeira, a Ponte da Barrinha; foram retificados trechos da Rua Major Soares e da Rua da Praia; e foram feitas diversas melhorias, incluindo a arborização do Bairro de Palmeiras.

Sob os auspícios do Governador do Estado, Arthur Bernardes, foram inauguradas duas importantes obras na cidade. Na Avenida Caetano Marinho ficara pronto, em 1919, o edifício do fórum e sobre o rio Piranga, substituindo a antiga, de madeira, estava concluída, em 1921, moderna ponte de cimento armado, que se tornaria conhecida como Ponte Arthur Bernardes.

O primeiro quatriênio de Custódio Silva passa sem maiores movimentações políticas no âmbito municipal. Na esfera federal, o Dr. Landulfo Machado de Magalhães, que havia sido Deputado Federal por duas legislaturas, elege-se, com 58 anos de idade, Senador Estadual, em 1919.

Miguel Antônio de Lanna e Silva, que havia sido eleito para cumprir seu terceiro mandato como Vereador em Ponte Nova, elege-se também, em 9 de março, Deputado Estadual, iniciando uma curta, porém brilhante, carreira no parlamento estadual.

Descendente de povoadores da antiga Barra Longa e dos sertões de Bicudos, Miguel Lanna nasceu em Rio Casca, no tempo em que ainda era Distrito de Ponte Nova. Ex-Juiz Municipal e advogado conceituado, com 45 anos de idade, é lançado na política do Estado, pelas mãos do então Presidente de Minas, Arthur Bernardes, seu amigo desde os tempos de estudantes em Ouro Preto.

Durante o mandato de Custódio Silva, deixa o cargo de Promotor Público de Ponte Nova o jovem advogado Luiz Martins Soares. Nomeado Inspetor Escolar, Zito Soares inicia uma das carreiras mais extraordinárias de toda a história política de Ponte Nova.

Luiz Martins Soares também era descendente dos Martins da Silva, da Fazenda do Quebra Canoa, pois era filho do Maior Manoel Olympio Soares, ex Presidente da Câmara e ex-Agente do Executivo, que se casara com Francisca Ignácia Martins, sobrinha de Francisco Martins Ferreira da Silva e de Leonardo José Teixeira da Silva.

A nova Câmara, eleita para o quatriênio 23/27, apresenta grandes novidades. Ângelo Vieira Martins e Cantídio Drumond se elegem pelo distrito da cidade. Sylvio Marinho e Raimundo Martiniano Ferreira chegam à Câmara com os votos dos Distritos de Santa Cruz do Escalvado e Amparo do Serra, respectivamente.

Outros resultados não chegam a ser novidade. Enquanto Francisco Martins da Silva, o Chico Flexa, do Distrito de Piedade de Ponte Nova, reelege-se, sempre na oposição aos Martins da Silva, Elpídio de Souza Guerra também retorna à Câmara, como situacionista convicto. O ex-Deputado peerrista, José Felipe de Freitas Castro, assim como Leopoldino Januário Pereira, cumpre novo mandato.

Custódio Martins Ferreira da Silva é, novamente, aliado à Presidência da Câmara, enquanto para a Vice-Presidência é escolhido Cantídio Drumond, que ocupa, pela segunda vez, um cargo eletivo, com 55 anos de idade.

Nesse ano, de 1923, as principais obras se concentram nos distritos. São beneficiados, principalmente, Urucânia, com reformas e construção de ruas e passeios; Piedade de Ponte Nova, com o serviço de abastecimento de água; e Amparo do Serra, com a construção de estradas e pontes, além de outros serviços públicos. Santa Cruz do Escalvado, Jequeri e Rio Doce também ganham obras e serviços públicos.

Na cidade, as agremiações esportivas/recreativas são beneficiadas. O "Pontenovense Foot-Ball Club" ganha da municipalidade um terreno de 15.000 metros quadrados, e o "Club de Ponte Nova" fica dispensado de pagar a taxa de iluminação pública.

No campo da política municipal, os Vereadores Sylvio Marinho e Ângelo Vieira Martins assumem, ensaiando uma oposição a Custódio Silva. No dia 17 de janeiro, pedem vista ao relatório referente ao ano de 1922, encaminhado à Câmara pelo Agente do Executivo, "para um minucioso exame das contas"

Em 7 de maio, o Vereador, pelo Distrito de Urucânia, Leopoldino Januário Pereira renuncia ao cargo. Para seu lugar, a Comissão Verificadora de Poderes diploma Manoel Rufino de Castro Lima.

Em 1923, ocorre também uma importante modificação na divisão administrativa do município. O Distrito de Jequery é emancipado, passando a ser sede de Município e a contar com os Distritos do Grotta e da Pirraça (Piscamba), por força da Lei nro. 843, de sete de setembro. Essa mesmo lei traz outras mudanças. Elevo ò categoria de Município o Distrito de São Sebastião do Entre Rios, que passa a se chamar Matipó, e, mais tarde, Raul Soares. Transfere o Distrito de Santo Antônio do Grama para o Município de Rio Casca. E, por fim, o Distrito de

Barro Longo, que já havia pertencido ao Município de Ponte Novo e que então pertencia a Mariana, é reincorporado a Ponte Novo. O vereador que possa a representar o novo distrito na Câmara é Manoel Gonçalves Carneiro.

Na esfera estadual, dois políticos ligados a Ponte Nova tornam-se senadores estaduais. Em abril foram eleitos Miguel Lanna, com 106.328 votos, e Camilo Augusto Mário de Brito, que obteve 106.333 votos. Este último era Irmão do padre João Paulo Maria de Britto, o polêmico Pároco da Matriz de São Sebastião de Ponte Nova, que havia falecido em 1915.

O Vigário João Paulo era, como o irmão, de Ouro Preto e vieira para Ponte Nova, em 25 de janeiro de 1 864, para assumir a paróquia, em substituição ao padre Francisco de Paula Homem. Padre sistemático, cidadão atuante e político radical, o padre João Paulo esteve presente em todas os grandes obras sociais realizadas no município, em seu tempo. Assim, participou ativamente do construção do hospital e da instalação do Escola Normal, mas, por outro lodo, foi o pivor das mais graves crises políticos que eclodiram no município, durante os 51 anos em que ficou à frente da Paróquia de Ponte Nova. Com esse gosto por política, João Paulo envolveu-se, enquanto gozou de saúde, nas campanhas eleitorais do irmão. Este, por sua vez, sempre se fazia presente em Ponte Nova.

Em agosto de 1922, Raul Soares de Moura assume a Presidência do Estado de Minas Gerais. O velho prócer do PRM, natural da Cidade de Ubá, substituía Arthur Bernardes no Palácio da Liberdade. A política peerremista estava firmemente enraizado no Estado, e com acordos e composições elege também o Presidente da República, Arthur Bernardes.

Bernardes tinha velhos amigos em Ponte Nova. O Dr. José Felipe de Freitas Castro, por exemplo, fora seu companheiro desde o mocidade em Viçosa. Ainda no século passado, Freitas Castro tornara-se político e, com a indicação do Sena dor Vaz de Mello, sogro de Bernardes, fora eleito Deputado. Um de seus filhos, Cristiano de Freitas Castro, casara-se com uma das filhas do Presidente Bernardes.

Comerciante e empreiteiro de obras, português de nascimento, o Coronel José Domingues Machado também gozava da intimidade de Bernardes. Ele, como José Felipe, teve um filho, o médico José Domingues Machado Filho, que também se tornou genro de Arthur Bernardes.

Figuras como Miguel Lanna, Custódio Silva, Raimundo Martiniano, Francisco Martins da Silva e tantos outros políticos pontenovenses, peerristas ou não, tinham bom relacionamento com Bernardes.

O próprio Senador Antônio Martins Ferreira da Silva, que se distinguira como o mais importante político ponte-novense durante a última década do século passado e as duas primeiras do atual, era amigo pessoal de Arthur Bernardes. Além da amizade, Bernardes reconhecia a grande liderança do Comendador em Ponte Nova e região.

A força política de Antônio Martins tornou-se épica. O advogado e jornalista ponte-novense Rubem Dário de Abreu Grossi, narrador do folclore político de sua terra, contou, em sua coluna no semanário "Jornal do Povo", que, em 1917, veio para Ponte Nova um novo Delegado de Polícia.

O Dr. Gomes Freitas, ao chegar à cidade, tratou de ir visitar o velho líder político, seguindo recomendação que trazia da capital. Antônio Martins foi recebê-lo na varanda de sua bela residência. Muito cordial, o Senador leva, pelo braço, o jovem bacharel para a sala de visitas. Assim que se acomodam no vasto sofá, Antônio Martins muda o tom da conversa e, muito sério, fala:

-Olha aqui, seu doutor, em terra de cego quem tem um olho é rei. Saiba o senhor que quem manda em Ponte Nova sou eu.

E, tirando o "pincinê", mostra, para o espantado delegado, o seu olho esquerdo, que era vazado.

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