Domingos Lanna/Eleições 1970

O País estava sendo governado por uma violenta ditadura. O General-Presidente Emílio Garrastazzu Médici, através do Decreto-Lei 1.077 e da Instrução-Secreta 175-B, institui a censura prévia a jornais, revistas e livros. Filmes e discos também seriam apreendidos se considerados subversivos ou atentatório à moral.

Parlamentares, lideranças políticas e sindicais que se atrevessem a flertar com a oposição eram, na melhor das hipóteses, cassados.

Durante o ano de 1969, de uma só leva, tiveram seus direitos políticos cassados quatro dos dezenove deputados estaduais eleitos pelo MDB, em Minas Gerais. Perderam seus mandatos Deputados como Aníbal Teixeira e Raul Belém. Nessa mesma ocasião, os Suplentes de Deputado Sette de Barros e Genival Tourinho também tiveram suas suplências extintas pelo mesmo processo de cassação.

A cada dia que passava a repressão recrudescia, brutal e violentamente. Dirigentes comunistas, guerrilheiros e militantes da esquerda eram assassinados nas prisões militares.

O ano de 1970 era ano de eleições, mas o povo repelia a idéia de votar. Existiam apenas os dois partidos impostos pelo governo. A Arena, o "oficial" e o MDB, criado para ser oposição, regrada e controlada, no entanto, pela própria situação. Não havia, portanto, o clima de disputa e de verdadeira competição que antecedem os pleitos. De fato, nas eleições de 1970, 60% de todo o eleitorado brasileiro se abstiveram de votar ou anularam o voto.

De bom, a Copa do Mundo, em que o Pais pode ver, pela televisão, a sua Seleção sagrar-se tri-campeã mundial e trazer, de vez, a Taça Jules Rimet.

O Governo Federal havia estipulado, para o próximo pleito, um mandato-tampão, de dois anos, que visava tornar as eleições coincidentes em todo o País. Dessa forma, os prefeitos e os vereadores eleitos em 15 de novembro de 1970 assumiriam no dia 31 de janeiro de 1971 e cumpririam seus mandatos por dois anos, até o dia 31 de janeiro de 1973.

Nas eleições para a Mesa da Câmara Municipal de Ponte Nova, como se estivesse dando a largada para a corrida eleitoral daquele ano de 1970, elegeram-se Wilson de Carvalho e Silva, Presidente, José Rossetti Guimarães Filho, Vice-Presidente; e Francisco Rodrigues da Cunha Neto, Secretário, no dia 10 de fevereiro.

O MDB, então dirigido por Adriano Fonseca, saiu na frente, lançando seus candidatos. A sigla apoiaria Camilo Nogueira da Gama para Senador, Carlos Cotta para Deputado Federal e Mário Bicalho para Deputado Estadual. O candidato emedebista à Prefeitura era José Ribeiro Mayrink, tendo como Vice Paulo Machado Soares.

Outra corrente política a se manifestar com antecedência foi a de João de Carvalho, que fez publicar no imprensa a lista dos seus candidatos a vereador. Angelino Cardoso, Antônio Menezes Marques, Fernando Calderaro Pinto, Francisco Rodrigues da Cunha Neto, Guilherme Martins da Silva, José Inocêncio Alves Costa, Irineu Ribeiro da Silva, Joel Soares, João Mayrink, José Paulo Gonçalves Moreira, José Ismael Vieira Martins, Nelson Mendes, Rubem Grossi e Wilson Carvalho eram filiados à Arena, mas disputavam o pleito pela corrente do carvalhismo.

A divulgação do nome do engenheiro Domingos Sávio Teixeira Lanna, para disputar a Prefeitura pela Arena 1, apesar de tardia, não foi surpresa para o eleitor ponte-novense. Ele era o Vice de João Batista Viggiano, cujo mandato expirava. Os dois, prefeito e vice, haviam tido um relacionamento cortês durante todo o período, e Lanna viu sua- candidatura preterida, em 1966, em função do nome de Viggiano. Agora era a sua vez.

Além de tudo isso, o Presidente da Arena ponte-novense indicou o nome de Domingos Lanna, depois de minucioso trabalho nas bases do partido e com os membros do diretório. Ele mesmo, o Presidente Pio Gonçalves Pena, seria o candidato a Vice de Domingos Lanna.

Os resultados das eleições também não chegaram a ser surpreendentes. Domingos Lanna obteve 7.357 votos, enquanto o candidato emedebista, José Ribeiro Mayrink, recebeu apenas 1.322.

Para a Câmara dos Vereadores, a Arena elegeu José Inocêncio, mais uma vez campeão de votos, com 867 sufrágios; Antônio Menezes Marques, com 553 votos; Wilson de Carvalho e Silva, com 549; Miguel Valentim Lanna, com 541;Joáo Mayrink, com 477; Wilton Paiva Tavares, com 452; Joel Soares, com 461;José Rossetti Guimarães Filho, com 398; João Evangelista de Almeida, com 394; Angelino Cardoso, com 343; Francisco Rodrigues da Cunha Neto, com 339; e Nelson Mendes, com 317. O MDB fez Tarcísio de Castro, com 299 votos; Guido Dornas, com 292; e Vicente Pinto da Silva, com 254.

Na política municipal, mais uma vez brilhou a estrela de João de Carvalho. Os três vereadores mais votados eram seus correligionários. Dos doze vereadores da Arena, oito eram de sua corrente. Esses oito vereadores eleitos somavam 3.861 votos, mais da metade dada ao prefeito eleito.

Dos principais candidatos a deputado estadual, Mário Bicalho, apoiado pelo MDB, obteve apenas 627 votos. Fábio Vasconcellos, candidato dos ex-udenistas, teve 3.043 votos. João de Carvalho, com 3.758 votos, seria o majoritário de Ponte Nova se conseguisse chegar à Assembléia.

A esplêndida performance de João de Carvalho em Ponte Nova não se repetiu em nível estadual e, assim, ele não consegue se reeleger. Sem mandato, ele ficava em situação difícil, principalmente porque o seu concorrente no município, Fábio Vasconcellos, conseguira voltar à Assembléia.

A derrota traz um desgaste natural. João de Carvalho, com os últimos resultados, começou a sofrer esse desgoste, deixando surgir significativo espaço, cujo tendência era Ser absorvido por outras lideranças.

A Câmara Municipal toma posse na manhã do dia 1º e, ato continuo, elege a sua Mesa, escolhendo o ex-interventor Federal Miguel Valentim Lanna para Presidi-la, tendo como vice-presidente Nelson Mendes e como Secretário José Rossetti Guimarães Filho.

Na noite daquele mesmo dia, empossam-se o Prefeito Municipal de Ponte Nova, Domingos Sávio Teixeira Lanna e seu Vice, Pio Gonçalves Pena. Era um período curto, apenas dois anos de mandato. Ponte Nova já era uma cidade de porte, cuja complexa administração exigia dedicação, programa de governo e, principalmente, um tempo mínimo de governo.

Domingos Lanna sabia de tudo isso e queria ainda, nesses exíguos dois anos, se firmar, definitivamente, como líder na região. Era um trabalho árduo. Tinha, entretanto, a seu favor uma boa experiência como Chefe da Residência do Departamento de Estradas de Rodagem-DER, cargo que exercera numa fase de grande atividade desse órgão. Viggiano também deixara a Prefeitura com uma situação financeiro razoável, sem grandes dívidas. Assim, Domingos Lanna inicia seu mandato com determinação e arrojo.

Já no dia 9 de fevereiro é firmado convênio entre a Prefeitura Municipal e o Ministério do Interior, que traria a Ponte Nova o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo. Todo o serviço administrativo do município é restruturado, e cursos sobre administração municipal são ministrados pelos técnicos Edvardes Viana Pereira, José Gomes Melo, Otacílio Nascimento de Alcântara e Romeu Daud.

A Prefeitura abre diversas frentes de obras em toda a cidade. No alto do Bairro Guarapiranga é preparado o espaço para a construção do Colégio Polivalente. Essa obra constava dos serviços de terraplanagem, da construção e do calçamento do acesso e da implantação, no local, dos serviços de água e energia elétrica.

Diversos logradouros são calçados em Palmeiras, no Bairro do Triângulo e na Vila Centenária. Esta última se estenderia pela Rua Independência e Vila Santa Maria.

Domingos arremata os últimos detalhes da Avenida Custódio Silva e constrói salas de aulas no Grupo Escolar Reynaldo Alves Costa. Um dos pontos altos de sua administração foi a restruturação do Serviço de Limpeza Pública, que se refletiu, quase imediatamente, no visual da cidade.

No período de 25 de julho a 1º de agosto foi realizada a XVI Exposição Agropecuária do Vale do Piranga. Este já era um evento tradicional, que atraía expositores de diversas regiões do Estado. Dessa forma, para sua abertura, compareceram a Ponte Nova o Governador de Minas, Rondon Pacheco, e cinco Secretários de Estado.

O ano de 1972 chega com boas e más notícias.

Ponte Nova passa a contar com a ligação interurbana direta com Belo Horizonte, pelo sistema de microondas. Era um novo serviço, desenvolvido pela Companhia Telefônica de Minas Gerais, em parceria com a Companhia Telefônica Pontenovense.

Os táxis de Ponte Nova, numa inovação pioneira na região, passam a circular com o taxímetro, regulamentando as tarifas desse tipo de prestação de serviço.

O Ministério das Comunicações anuncia a transmissão, pela televisão, do carnaval do Rio de Janeiro e da Festa da Uva em Caxias do Sul, em cores, para todo o País.

No dia 16 de janeiro faleceu aos 72 anos de idade, no Hospital São Lucas, em Belo Horizonte, o Senador Milton Soares Campos.

Deputado Estadual, Deputado Federal por varias legislaturas, Governador de Minas Gerais, duas vezes candidato a Vice-Presidente da República e Senador por dois períodos legislativos, Milton Campos desenvolveu também vigorosa atividade intelectual. Com formação humanística, fez incursões pelas Letras, atuou no campo das leis e exerceu, com brilhantismo, o magistério.

Hoje, pode-se afirmar, sem favor algum, que Milton Campos foi um dos maiores estadistas de toda a história política da Nação.

José Bento Teixeira de Salles, um de seus biógrafos, define assim aquele homem público:

"Ele foi daqueles homens públicos cuja dimensão se agigantou com o correr dos anos. Assim como a vida de certos políticos se dilui com o tempo, a de outros se engrandece com o sereno julgamento da História.

Os primeiros firmam o seu prestígio na base das construções materiais, acreditando que, desta forma, terão assegurada a perenidade da forma. Buscam retratar-se nas grandes realizações, quando não se sustentam na artificialidade demagógica do mito. Destes, a lembrança se perde na poeira do tempo e eles se dissolvem à semelhança de suas próprias criações perecíveis.

Os outros são homens de espírito e pensamento. Não cultivam o imediatismo, mas plantam raízes sólidas e duradouras. Não cogitam da glória efêmera. Antes, pensam nos seus concidadãos e num mundo livre e autêntico. Não exploram o dia de hoje. Vivem o sonho eterno dos pensadores.

Milton Campos se enquadrava nesta restrita galeria de líderes de idéias. Nunca teve a identificá-lo, em sua longo vida pública, o espocar de foguetório ou o colorido das bandeirolas , que tanto caracteriza o trombetear incomôdo das inaugurações oficiais.

A sua própria figura ascética retratava a modéstia e a discrição. Seus pensamentos, expostos em discursos de permanente coerência, bem como seu comportamento político, delineiam o perfil de um verdadeiro estadista."

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