1982:Sai Bartholomeu,entra Sette de Barros

As eleições haviam sido adiadas para o ano de 1982, mas, em Ponte Nova, a agitação nos meios políticos dava a impressão de que essas seriam em 1981.

O "Jornal do Povo", através de sua coluna "Várias", lança violenta campanha que pretendia sugerir ao eleitor mais precaução ao escolher seus candidatos à Câmara de Vereadores, melhorando, assim, o nível da representação legislativa municipal. Nas primeiras páginas, estampava o tradicional semanário matérias com o seguinte teor:

"No programa da campanha, ainda distante, os líderes políticos, tendo em vista o nível precário de certos representantes do povo na Câmara Municipal - sob o aspecto ético e mental - devem desde já, orientar-se com o rigor necessário, a fim de que nos poupemos a vergonhosos espetáculos que degradam, por isso mesmo, o mandato popular".Em outro momento: "Já externamos, nesta coluna, o nosso pensamento sobre a constituição do Câmara Municipal, órgão respeitável, voltamos a afirmar, mas heterogêneo. Se "parte ponderável" apresenta vereadores à altura da posição a que foram guindados, outro afigura-se-nos lamentável, sob todos os aspectos.

Como corrigir ou modificar o quadro - Usando inteligentemente o voto, sufragando vereadores capazes, portanto aptos ao cumprimento do mandato.

Em Ponte Nova, insistimos, quantos em condições de formar a Câmara ideal! Pensemos, os pontenovenses, sobre isto, participemos da articulação de um movimento visando a dotar a Edilidade de elementos que traduzam a pujança, o espírito arejado, o valor do munícipes"

A reação à violenta campanha é imediata, mas o jornal não cede: "Alguns pretensos figurões vêm esbanjando, na sua meia língua, palavras de revolta, em face dos comentários desta coluna.

Quem lhes disse, ou lhes soprou aos ouvidos através da intriga, achar-se esta folha impedida de pronunciar-se sobre o quadro político do Município e sobre a Câmara. Continuaremos o trabalho visando a ajudar o alijamento dos farsantes, doa em quem doer...

Por que ficar silenciosa a Imprensa, quando a política perniciosa e os inidôneos enxovalham o Município ?" Ao iniciar mais um período legislativo, a Câmara de Ponte Novo reelege o Vereador Tarcísio de Castro Presidente da Casa. O mesmo periódico pontenovense que deflagrara campanha contra a Câmara Municipal elogia a reeleição de Castro: ""Houve, uma vez mais, bom senso na escolha, considerando o estado moral e intelectual do Presidente Tarcísio de Castro. Algo se salva, no caudol de incertezas " Em Belo Horizonte, a Assembléia Legislativa também escolhe a sua Mesa Diretora e Ponte Nova recebe a notícia da eleição do Deputado José Santana de Vasconcellos para a Presidência e a de Domingos Lanna para a vice-presidência.

No dia 13 de maio de 1981, a cidade recebe a notícia da morte do médico João Marinho Sette e Câmara. Nascido na Fazenda do Engenho, em 14 de julho de 1885, ele descendia de famílias tradicionais, que marcaram a história política de Ponte Nova. Como médico, Sette e Câmara foi um dos mais importantes colaboradores do Hospital Nosso Senhora dos Dores, deixando extensa folha de serviços prestados à comunidade. Foi Prefeito Municipal no período de 21 de novembro de 1945 a 3 de fevereiro de 1946, numa das fases mais tormentosas da política ponte-novense.

O PDS, que se organizava em todo o Estado, cria, em Ponte Nova, sua Comissão Executiva Provisória, em julho de 1981. É escolhido para presidi-la o

empresário Antônio de Pádua Isaac, cujo nome já era aventado para concorrer à sucessão de Antônio Bartholomeu.

Os esforços de José Kleber Leite de Castro, então Diretor do Banco Central, visando às obras do ribeirão Vau-Açu, são coroados de êxito.

Em momentosa cerimônia, realizada na Capital da República, no dia 11 de agosto, Antônio Bartholomeu Barbosa assina convênio com o Departamento Nacional de Obras e Saneamento, órgão do Ministério do Interior. Estavam presentes ao ato, além de Bartholomeu, do Ministro do Interior Mário David Andreazza, e dos Diretores do DNOS, os Deputados Domingos Lanna, Fábio Vasconcellos e Paulino Cícero, o Senador Murilo Badaró, o Governador de Minas Gerais, Francelino Pereira, e o Vice-Presidente da República, Aureliano Chaves.

José Kleber era, agora, salvo de grandes homenagens em Ponte Nova. Veio participar da abertura da XXIII Exposição Agropecuária, tradicional evento promovido pelo Sindicato Rural, que sempre trazia a Ponte Nova autoridades de expressão nacional.

O jovem Diretor do Banco Central representava uma nova geração de políticos ponte-novenses, que se projetavam e que vinham, aos poucos, ocupando o lugar de velhos próceres, que desapareciam ou que simplesmente abandonavam a vida pública.

Nesse mês de outubro, um desses representantes da velha geração, o ex-Deputado Cristiano de Freitas Castro, faleceu em Belo Horizonte, onde residia no Bairro Pampulha, aos 71 anos de idade.

Herdando do pai o vocação política, Cristiano iniciara, muito jovem ainda, a sua militância. Participara ativamente das Revoluções de 1930 e 1932 e, casando-se com uma das filhas do ex-Presidente Arthur Bernardes, viu sua influência ultrapassar as fronteiras de Ponfe Nova e Viçosa. Feito chefe político e representante do antigo legenda do Partido Republicano em vasta região, foi eleito Deputado Estadual em 1954, exercendo o mandato até 1959. No quadriênio seguinte (1959 a 1963) foi reeleito, e nos dois períodos que se seguiram Cristiano foi suplente de deputado, chegando o assumir, por mais de uma vez, uma cadeira na Assembléia Legislativa. Freitas Castro esteve sempre à frente de importantes realizações, que marcaram a vida de Ponte Nova e cidades vizinhas.

O ano de 1982, o último do administração de Antônio Bartholomeu, seria também um ano de eleições. E a prorrogação por dois anos do mandato de prefeitos e vereadores fez com que várias obras pudessem ser concluídas dentro desse período.

A construção do edifício da Delegacia Regional de Segurança Pública e da Cadeia, a concretização do Centro Industrial Sociointegrado, a construção dos Escolas Estaduais Cantídio Drumond, Caetano Marinho e Luiz Martins Soares Sobrinho, o alargamento da Ponte Arthur Bernardes, a construção dos Postos de Saúde do Pontal, do Gentio e do Oratórios, o asfaltamento do Morro do Pau D'Alho, as reformas das Avenidas Arthur Bernardes e Custódio Silva, o saneamento do Córrego da Vila Alvarenga e a abertura da estrada para a Rasa, no antigo leito da Estrada de Ferro, foram melhorias conquistadas, a despeito dos sérios problemas enfrentados por Bartholomeu no início de sua administração.

A XXIV Exposição Agropecuária do Vale do Piranga reedita o sucesso dos anos anteriores. Para sua abertura oficial, no dia 5 de setembro, comparecem o Governador de Minas, Francelino Pereiro, e dois de seus Secretários de Estado, Celso Mello de Azevedo, de Obras, e João Vale Maurício, do Saúde.

Como também já era comum, a Prefeitura aproveita a vinda das autoridades, que prestigiavam o evento organizado pelo Sindicato Rural, para uma "sessão" de inaugurações e comemorações. Dessa feita, foram entregues ao público a Ponte Arthur Bernardes, alargada, postos de saúde e o serviço de ampliação do rede de eletricidade, com o aumento de 214 postes, realizado através de convênio com a CEMIG.

Por essa ocasião, a campanha pelas próximas eleições já movimentava a cidade. O PDS havia realizado sua convenção no dia 14 de junho, na qual homologar a duas chapas para concorrer a Prefeitura de Ponte Nova: a primeira, composta do empresário Antônio de Pádua Isaac e do agrônomo Renato Martins Marinho; a outra vinha com Edy Mello Castanheira para prefeito e Ovídio Duarte Nunes para vice-prefeito.Indisposto com o Diretório Municipal, o Deputado Fábio Vasconcellos consegue uma legenda na Executiva Estadual e oficializa a candidatura dos advogados Francisco Rodrigues da Cunha Neto e Octávio Lanna de Vasconcellos, esse último seu irmão. No PMDB havia nítida divisão de forças. O ex-vereador Carlos Jardim de Rezende tinha maioria no Diretório e estava entusiasmado pela votação expressiva (quase sete mil votos) que obtivera em Ponte Nova, nas eleições para deputado de 15 de novembro de 1979. O Presidente do partido, Antônio César Gonçalves Pereira, e o seu Vice, Walter Isaac, apoiavam a candidatura do ex-Deputado José Sette de Barros, que tinha como companheiro de chapa o médico Afrânio Felício da Cunha.

Na convenção do partido da oposição, realizado no dia 12 de julho, aparece, ainda, uma terceira chapa, encabeçada por Gabriel Romano de Freitas, mais conhecido por Bié, que fora eleito vereador em 1976, com 316 votos.Os 42 convencionais peemedebistas homologaram as três chapas, distribuindo assim os seus votos: Jardim, 16; Bié, 14; e Sette de Barros, 12. Estava armado o "circo", e a campanha "deslanchava"

Apesar da "Abertura Política", o interesse pelo PMDB e pela oposição só havia aumentado no País, e a tendência do voto oposicionista já se manifestava, em Ponte Nova, bem antes do pleito.

As campanhas de Edy Castanheira e Antônio Isaac não cresciam, a despeito dos esforços do PDS e do próprio Prefeito, Bartholomeu. A candidatura de Francisco Cunha, mesmo com o empenho de Fábio Vasconcellos, não chegava, sequer, a "decolar". Por outro lado, nas hostes peemedebistas o entusiasmo era grande, pois se percebia a inclinação, cada vez maior, do eleitorado. Carlos Jardim, unido à ala mais conservadora do partido, tinha vasta experiência, que vinha desde o década de 50. Até o final de setembro e início de outubro, era apontado pelos observadores políticos como o vitorioso das eleições que se aproximavam.Sette de Barros, apoiado pela ala nova do PMDB, tinha como um dos coordenadores de campanha o jovem advogado Antônio César Gonçalves Pereira, qve, apesar da pouca idade, já era considerado político habilidoso, dotado de um espírito sagaz; sua candidatura crescia a olhos vistos. O estilo leve e jovem da companha, ditado pelos organizadores, não interferia no gênero populista do candidato. O trabalho experiente de Sette de Barros "varria" todo o município. Atenção especial era dada aos bairros mais populosos e às regiões da periferia, onde se acumulava grande número de eleitores.

As candidaturas para a Assembléia Legislativa também suscitavam grande interesse no município. Domingos Lanna, tentando a reeleição, para o terceiro mandato, podia utilizar como propaganda o grande número de obras que havia trazido para a região. Era um político equilibrado e mantinha uma estrutura fortemente ligada aos Diretórios do PDS de Ponte Nova e cidades vizinhas.

Outro candidato que surgiu forte foi Felipe Nery de Almeida. Funcionário de carreira da Caixa Econômica Estadual, viu sua candidatura ser lançada em Belo Horizonte. Herdara, na sua terra natal, a tradição política, pois era descendente do antigo tronco dos Martins da Silva, que tantos nomes ilustres deu à história política da Zona da Mata.Ele era filho do ex-Deputado e líder peerrista José André de Almeida. Por parte deste, era neto de Custódio Silva, ex-Presidente da Câmara Municipal e Chefe do Executivo ponte-novense, no período de 1919 a 1925. Jovem e iniciante na política, Nery tinha do seu lado um forte esquema montado na capital do Estado e podia aproveitar a "onda" oposicionista que se agigantava por todo o Pais.

Ponte Nova contava com 27.383 eleitores registrados, e houve comparecimento maciço às urnas.

Naquele ano de 1982, o grande vitorioso foi, de fato, o PMDB. Dos vinte e dois Estados da Federação, ganhou em 10, levando nessa conta os mais populosos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Tancredo Neves, que se elegeu Governador, obteve, em Ponte Nova, 13.512 votos, contra os 7.978 dados a Eliseu Rezende.O peemedebista José Sette de Barros, com expressivos 8.565 votos, era o prefeito eleito de Ponte Nova. O segundo lugar ficou para Carlos Jardim de Rezende, que chegou aos 4.397 votos. Do PDS, Edy Mello Castanheira obteve 3.862 votos e Antônio de Pádua Isaac atingiu 3.741. Os outros dois, Francisco Cunha, do PDS, e Gabriel Romano de Freitas, do PMDB, receberam apenas 728 e 396 votos, respectivamente.

Para compor a Câmara de Vereadores, o PMDB elegeu nove de seus candidatos: Abdalla Felício Filho, 1.530 votos; Antônio César Gonçalves Pereira, 846; Guilherme Saporetti, 778; Nelson Mendes, 676; Wallace Eudes Souza Rodrigues, 539; José Pinto da Paixão, 490; Walter José Isaac, 41 7; Wilton Paiva Tavares, 396; e Cristino Lucindo da Silva, 391.

O PDS ficou com as outras seis cadeiras, que seriam ocupadas por: Wilson de Carvalho e Silva, 572; José Alves Pereira, 564; José Raimundo dos Santos, 493; João Evangelista de Almeida, 443; Angelino Cardoso, 384; e Tarcísio de Castro, 381.Esses resultados não só impunham ao PDS ponte-novense uma fragorosa derrota, como também alertavam os seus líderes para um momento de reflexão sobre a nova ordem política nas esferas municipal e nacional. O foto do ex Interventor e ex-Prefeito Miguel Lanna, que, candidato o vereador, ter obtido inexpressivos 128 votos, ou do ex-Prefeito João Batista Viggiano, que, no mesmo pleito, recebeu insignificantes 109 sufrágios, era motivo, mais do que suficientes, para uma análise.A eleição de José Sette de Barros, de fato, representou a vitória de um PMDB de mudanças, de um PMDB que levava a oposição ao poder, destronando uma oligarquia, representada pela ARENA e pelo PDS, que vinham governando Ponte Nova há algum tempo. Foi uma vitória consagradora, uma votação histórica. Contudo, não se pode deixar de analisar o momento político nacional, no qual havia a tendência de se buscar, a todo custo, uma alternativa entre os quadros da oposição, e a oposição viável, na época, era o PMDB.A opção por Sette de Barros, em detrimento de Carlos Jardim, também das hostes peemedebistas, tem a sua explicação. Enquanto o primeiro, radicado no Rio de Janeiro há mais vinte anos, era um ex-cassado, amigo de Leonel Brizola e dono de um discurso radical, que atacava o Governo Militar, o segundo residia em Ponte Nova, disputara algumas das mais recentes eleições e, nesse pleito, desenvolvera uma campanha moderada. Assim, Sette, aos olhos da massa, era a autêntica novidade e verdadeira oposição, ao passo que Jardim, mesmo no PMDB, era sinônimo de conservadorismo. Ponte Novo ficaria bem representado na Assembléia Legislativa. Tanto Felipe Nery de Almeida, do PMDB, que somou 27.362 votos, quanto Domingos Sávio Teixeira Lanna, que obteve, na contagem geral, 41.821 votos, foram eleitos.A sensação que se tinha, após o pleito de 15 de novembro de 1982, era que passara pela cidade um verdadeiro furacão. Os derrotados estavam pasmados com o que lhes parecia uma irrealidade, enquanto os vencedores também admirados, não a creditavam naqueles resultados. Para eles, tudo não passava de um sonho.O Jornal de Ponte Nova definia, assim, aquele momento:

"Depois da tempestade que assolou os arrojais do PDS, o único sobrevivente que saiu incólume foi o Deputado Domingos Lanna que continua o ser o majoritário de Ponte Nova". Os partidários do prefeito eleito consideravam sua eleição um fato histórico inédito. Alardeavam que José Sette de Barros havia, com seu carisma, sozinho, derrotado toda uma aristocracia, que há mais de cem anos vinha ditando os destinos de Ponte Nova. "Sette ganharia para mudar as estruturas arcaicas existentes na Administração e nas lides políticas de nossa terra. Décadas e mais décadas, perpetuavam-se no poder as oligarquias e a direito reacionário" Entretanto, em Ponte Nova, desde os primórdios de sua vida política, o poder fora disputado por duas correntes, com orientações político-portidárias distintas. Revezavam-se, no poder, os Gonçalves Torres e os Martins da Silva, durante boa parte de nossa história antiga.Os conservadores e os liberais de Ponte Nova, acompanhando o que acontecia no resto do País, disputavam o poder, numa época em que até o clero deixava a austeridade e o equilíbrio e se envolvia em pendengas eleitorais.Nesse século, ainda no primeiro quartel, tivemos a eleição de Custódio Silva, da família Martins da Silva, mas que representava a oposição. Também, ocorreu a ascensão inesperada do Coronel Cantídio Drumond, outro homem da oposição na política municipal. Posteriormente, a sua eleição, em 1927, concretizava mais uma vitória da oposição em Ponte Nova. Já na segunda metade do século XX, vimos a espetacular vitória de Helder de Aquino, que, deixando o partido da situação, o PSD, candidata-se pelo pequeno e inexpressivo PTB e derrota o candidato do Prefeito Luiz Martins Soares Sobrinho.

Também fantástica é a eleição de João Vidal de Carvalho. Jovem ainda, desafia o velho Coronel Emílio Martins dentro de seu reduto, o Distrito de Rio Doce, obtendo votação expressiva e tornando-se vereador, em 1951. Nas eleições seguintes, em 1954, esmaga, de uma vez só, todos os antigos "zitistas", espalhados pela UDN e pelo PSD, e torna-se Prefeito de Ponte Nova.

A própria escolha de João Batista Viggiano para disputar o pleito de 1966, que nos aparece como um acordo, uma coligação, foi, na verdade, uma imposição do então chefe político João de Carvalho à tradicional e conservadora corrente udenista. Assim, a eleição de José Sette de Barros foi mais uma alternância no poder, dentre tantas outras que ocorreram em uma história político de mais de um século.

A posse da Câmara Municipal precedeu a do prefeito e ocorreu às 20 horas do dia 1º de fevereiro de 1983. Em processo subsequente, duas chapas disputam os cargos de direção da Casa Legislativa. A primeira delas, liderada por Antônio César Gonçalves Pereira, tinha como Vice-Presidente Abdalla Felício Filho e, como Secretário, José Alves Pereira. A outra tinha como Presidente Walter José Isaac, como Vice-Presidente Wilton de Paiva Tavares e como Secretário Tarcísio de Castro. Por nove votos a seis, vence a chapa encabeçada pelo advogado Antônio César, coordenador da campanha de Sette de Barros.Cumprimentos e aplausos dentro do salão da câmara. Banda de música e foguetório na avenida defronte. Tudo era festa. A nova Mesa-Diretora oficializa a posse de Sette de Barros naquela mesmo noite, e, encerrada a cerimonia interna, a festa transporta-se para a Avenida Caetano Marinho.

Assumia um novo prefeito e, com ele, um secretariado heterogêneo, em que chamavam a atenção nomes como os de Ademir Ragazzi, padre Salesiano, vindo do Espírito Santo; João Paulo de Britto, Luís César Vieira, Ricardo Motta e Roberto Henriques, todos jovens, com pouca experiência política, dizendo-se de esquerda e perfilando-se ao lado de Ananias Alvarenga, José Pedro Cotta e Francisco Rodrigues da Cunha Neto, elementos traquejados, cujas posições eram francamente conservadoras. As primeiras medidas de Sette de Barros foram de impacto. Fez construir, em poucos dias, um "playground" no praça da Vila Centenário. Determinou alterações significativos no sistema de limpeza pública, como o uso obrigatório de invólucros plásticos para lixo doméstico e a racionalização da limpeza das ruas e da coleto do lixo, que passariam a ser executadas durante a madrugada. Anunciou o plantio imediato de cinco mil mudas de árvores, em convênio com a EMATER e o IEF. Criou o Departamento de Abastecimento Municipal, que distribuiria, por preços mais baixos, produtos da cesta básica às famílias carentes.A cada dia que passava, Sette de Barros inovava com idéias originais, mas muitas vezes mirabolantes. Em entrevistas concedidas à Rádio Ponte Nova e ao Jornal de Ponte Nova, ele sempre lançava uma "bomba". Ora divulgava que os proprietários de lotes vagos deveriam construir, em sessenta dias, muros em volta desses terrenos, ora anunciava a construção de um "metro de superfície", aproveitando a linha férrea desativada, que liga a estação da cidade ao Bairro Palmeiras. O dia 1º de maio, Dia do Trabalhador, mereceu atenção especial de Sette de Barros. Confirmando que entrara na política pela porta do trabalhismo, determinou pompas para as cerimônias daquele dia. Aconteceu de tudo: alvorada, missa campal, coroa de flores no busto de Getúlio Vargas, discursos emocionados, bandas de música.

Sette de Barros e Barthomomeu - Transmissão da posse

Sette de Barros usava toda a sua imaginação para criar situações inusitadas e determinar medidas radicais. Tinha grande experiência política e sabia, como poucos, atingir o grande público, com seu discurso vulgar e seu jeito bonachão. Outra característica sua era a facilidade com que se dispunha a criar polêmica. Por pouco, ou quase nada, comprava uma briga, discutia e desacatava qualquer um que ousasse contrariá-lo. Dessa forma, não demorou muito conseguir os primeiros adversários políticos e inimigos pessoais.Um dos primeiros desses inimigos figadais que Sette de Barros granjeou e que lhe desferiria violenta oposição pelo resto de seu mandato foi o comerciante, gráfico e proprietário do jornal "O Município", João Carlos de Bittencourt Brant Ribeiro.Sem ascendência - política, João Brant tinha bom relacionamento com Sette de Barros até o momento em que resolveu criticar o "estacionamento pago", instituído pelo prefeito, nas principais ruas da cidade. Entrevistado por um repórter da emissora de rádio local, o mandatário dispara impropérios contra o jornalista, qve, diziam, era contra a sua mais nova medida, chamando-o de "canalha" e de "sem-escrúpulos"

João Brant reage à fala do prefeito, e o seu jornal passa a criticar, com virulência, a administração municipal. Acusa Sette de Barros de estar utilizando máquinas e funcionários da Prefeitura para construir uma piscina em sua residência e veículos oficiais em viagens particulares de seus familiares. Além de "O Município", existia, na cidade, o recém-criado "Jornal de Ponte Nova". Esse servia para divulgar as defesas do prefeito nessa sua primeira briga pública.

Sette de Barros, apesar de não contar com todos os votos do PMDB, mantinha a maioria na Câmara, com o apoio de José Alves Pereira, Wilson de Carvalho e Silva, João Evangelista de Almeida e Angelino Cardoso, eleitos pelo PDS. E foi justamente essa mesma Câmara que, insuflado pelo seu Presidente, solidarizou-se com o prefeito e lançou o seu manifesto, estampado na primeira página do "Jornal de Ponte Nova" A respeito de "O Município", esse documento relata:

"...um jornal de Ponte Nova, aqui nascido sob lamentáveis auspícios, trilhando cominhos ínvios, a resvalarem para o insânia, que escusos e tenazes falsos amigos se comprazem em ensandecer ainda mais, o ataca; vê-se assim, o Prefeito objeto de ignominiosa companha a que não nos parece lícito ficar indiferente." Os dois principais partidos da cidade tinham seus problemas. O PDS, às voltas com seus vereadores infiéis, reúne-se no dia 29 de maio de 1983, com dois assuntos em pauta. Eleger-se-iam os delegados à convenção regional e discutir-se-ia a questão da infidelidade partidária. O PMDB estava visivelmente desunido. Enquanto oposição, ia muito bem, mas, agora, que se tornara situação, perdia-se em crises de identidade e de comando. Em um encontro, para ultimar uma reunião oficial a ser realizada com a presença de Sette de Barros, lideranças peemedebistas avistam-se na residência do comerciante Adib Jorge. No dia 19 de junho, sentaram-se à mesa o Prefeito, Sette de Barros, Carlos Jardim de Rezende, Felipe Nery de Almeida e demais membros do PMDB ponte-novense, tentando "dirimir os impasses" que haviam surgidos. Os impasses, na realidade, eram os constantes desentendimentos entre a corrente settista e a felipista, que, como os seus próprios "chefes", viviam em desacordo.Sette de Barros, eleito prefeito com votação extraordinária, julgava-se no direito de "requerer", para si, a "chefia" do partido. Ele não havia apoiado Felipe Nery para deputado. trouxera, de fora, Maurício Pádua, que, por dezessete votos, apenas, deixara de ser o deputado majoritário de Ponte Nova.Felipe Nery era o majoritário e desfrutava das atenções do Palácio da Liberdade, que atendia com solicitude os parlamentares peemedebistas. Poderia fazer muito para Ponte Nova, pois, com Tancredo Neves francamente decidido a candidatar-se Presidente da República, os cofres seriam abertos. Felipe queria, dessa forma, ser o líder maior da sigla em Ponte Nova. Não era só política o assunto naquele ano de 1983.O forte Sindicato Rural, sob a Presidência de Ernesto Trivellato, resolve construir uma sede própria. Queriam-na grande e suntuosa, condizente com o poderio da entidade. Para tal, foi concretizado um financiamento de oitenta milhões de cruzeiros, na Caixa Econômica Federal, e os obras foram iniciadas imediatamente. Nesse ano, também é comemorado o centenário da Usina Anna Florência, já incorporada ao Grupo Jatiboca, proprietário da usina homônima, situada no Município de Urucânia. As comemorações estenderam-se por vários dias, e no encerramento esteve presente o Ministro da Indústria e Comércio, Camilo Pena. Sediada em Ponte Nova, a Superintendência Regional da Companhia Agrícola de Minas Gerais (CAMIG), nesse ano, no dia 26 de setembro, passa a ser dirigida por João Antônio Vidal de Carvalho. Era mais uma indicação do Deputado Felipe Nery, que já havia nomeado para a Chefia do Centro Regional de Saúde seu irmão médico José André de Almeida Júnior. O novo Superintendente da CAMIG era filho do ex-Deputado João de Carvalho, um bom nome, portanto, para ingressar na política.

Ponte Nova perdera em 1983 o tradicional "Jornal do Povo", que circulou por 50 anos ininterruptos. Pouco antes dessa data, ganhara novo e moderno semanário. Era o "Jornal de Ponte Nova", cujo primeiro número circulou no dia 18 de julho de 1982. Dirigido pelo jornalista viçosense Francisco Eustáquio Salgado, o periódico tinha bom volume de informação e era impresso em "off-set".Entre matérias bem elaboradas e editoriais sérios, o "Jornal de Ponte Nova" apresentava curiosas e interessantes passagens do dia-a-dia do município. Em uma dessas ocasiões, publicou o seguinte episódio:

"Um sindicalista pontenovense, ao ensejo do 'Dia Nacional de Protesto' 21 de julho passado - entusiasmado com o movimento e, desconhecendo as intervenções havidas nos sindicatos paulistas, resolveu ligar para um dos sindicatos daquela capital e foi logo perguntando:

-0lá Companheiro, como está a greve aí?Sua sorte foi que o interlocutor, ao invés de escutar as manifestações de solidariedade ideológica do cidadão daqui, se identificou:

- Aquí é Fulano, sou da Polícia Federal... Clic.... (desligou o telefone...aqui)."

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