Sette de Barros - Polêmicas e Obras

Sette de Barros recebera a Prefeitura das mãos de seu antecessor em uma situação privilegiada. Não havia qualquer dívida pendente, e existia um bom número de obras em fase final de construção, muitas delas executadas pelo Estado e conseguidas pelos deputados, que davam respaldo político a Antônio Bartholomeu.

Nos últimos meses de 1983, Sette de Barros iniciou uma verdadeira temporada de inaugurações. Em 6 de agosto, com pompa, inaugurou o edifício da Escola Estadual Cantídio Drumond, localizado na Rua Felisberto Leopoldo. Presentes à solenidade, o Secretário de Estado da Educação, Otávio Elízio, o Deputado Estadual Felipe Nery e o Presidente da CARPE, o ponte-novense Aloísio Marcos Vasconcellos Novais, além do prefeito e do vice-prefeito. Depois, viriam a Escola Estadual Luís Martins Soares Sobrinho, no Triângulo Novo, e muitas outras obras iniciadas na gestão do pedessista Antônio Bartholomeu e inauguradas no período do peemedebista Sette de Barros.

Com tudo isso, entretanto, o prefeito continuava sendo a figura mais polêmica da política local. Inquieto, ele sempre surpreendia com suas declarações contundentes e seus anúncios espalhafatosos. Levava seus adversários ao desespero.

Ainda em 1983, o "Jornal de Ponte Nova" apresentava sinais de descontentamento com a administração e lançava seus primeiros "torpedos" já no mês de agosto: "Como vai o DAM (Departamento de Abastecimento Municipal). Os caminhões que vendiam alimentos ao povo sumiram das ruas...Embora o sumiço dos caminhões, temos certeza de qve os 20 milhões de dotação aprovados pela Câmara estão em caixa, bem guardados...não é ?..."

Em novembro, estoura o primeiro grande escândalo do Governo Sette de Barros. O Diretor-Geral do Departamento Municipal de Água e Esgoto (DMAES), Wilson Antunes, que com a eleição de Sette de Barros viera da Cidade de Betim, é acusado de irregularidades pelo Presidente do Conselho-Diretor da Autarquia, Adib Jorge, e pelo representante da Prefeitura nesse mesmo Conselho, Roberto Abraim Gazire. Em documento dirigido ao prefeito, eles afirmavam que "não sendo jamais coniventes com as inúmeras tentativas de se burlar os estatutos do organismo, impedindo atos arbitrários e de finalidades não totalmente claras", deixavam os postos que ocupavam. Sette de Barros não tentava contemporizar, pelo contrário, "batia o pé", brigava ainda mais e desacatava os membros descontentes do Conselho do DMAES.

A oposição aproveitava o descontrole do prefeito para intensificar seus ataques. O Deputado pedessista Domingos Lanna, da tribuna da Assembléia Legislativa, denunciava as perseguições a correligionários na Cidade de Ponte Nova. Afirmava que o cirurgião dentista Geraldo Duarte Xavier fora descredenciado do Instituto de Pensão dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG) por ser adversário do Prefeito de Ponte Nova.

No início de 1984, o "Jornal de Ponte Nova" já se mostrava francamente contra a Administração Municipal e, fazendo coro com "O Município", atacava abertamente Sette de Barros.

A situação piorava a cada dia.

0s impostos municipais, com novos percentuais de aumento, indicados pela assessoria do prefeito, deflagravam uma nova onda de críticas e denúncias.

"Contribuintes repudiam impostos e acionam Prefeitura", estampava o "Jornal de Ponte Nova". "O Município", mais violento, chamava o aumento de "descarado assalto ao bolso do contribuinte"

Adib Jorge e Roberto Gazire, depois da desavença com Wilson Antunes e do conseqüente "explosão" de Sette de Barros, aquartelaram-se na Associação Comercial, então presidida por outro "patrício", José Mucci Daniel, e, de lá, passaram a desenvolver uma acintosa campanha contra a Prefeitura.

Recorrendo à justiça contra os aumentos dos impostos, a Associação Comercial lança mais lenha à fogueira. A população é orientada para depositar os impostos em juízo, em vez de simplesmente pagá-los à Prefeitura.

Sette de Barros percebe a impopularidade da medida qve majorava as taxas municipais e volta atrás. Desiste dos aumentos, cujos percentuais alcançavam até a exorbitância de 1.300%, em alguns casas, de acordo com o que divulgava a imprensa.

A pressão cresce ainda mais.

Em dado momento, o Vice-Prefeito Afrânio Felício da Cunha, o Presidente da Câmara, Antônio César Gonçalves Pereira, e os Vereadores Walter Isaac e Guilherme Saporetti, todos peemedebistas, rompem definitivamente com o prefeito. Em seu "manifesto à população", comunicam que não mais têm compromissos com Sette de Barros. Passariam, daquele momento em diante, a denunciar publicamente o prefeito. Falam, ainda, da arbitrariedade da taxa de saneamento cobrado pelo DMAES e instituído pelo "compadre" Wilson Antunes e condenam também o aumento do salário deste. Em outro momento, no próprio manifesto, comentam o uso indevido da máquina publicitária, "atirando pedras" à emissora de rádio que, para eles, estava "colocada a serviço da demagogia e do chincalhe"

Teimoso e com uma assessoria que desconhecia as vantagens da conciliação, Sette de Barros absorve seus novos adversários.

Em represália ao rompimento de Afrânio Felício, Antônio César, Walter Isaac e Guilherme Saporetti, o prefeito resolve tomar de assalto o PMDB, expulsando esses rebeldes daquela sigla. A manobra era simples e inteligente. Sette de Barros enviaria ao Tribunal Regional Eleitoral um documento apresentando a renúncia de vinte dos trinta e nove membros do Diretório do partido, que seria, automaticamente, dissolvido. Marcar-se-ia uma convenção para a escolha de novos membros, quando Sette de Barros teria condições de selecionar elementos de sua máxima confiança. Esse golpe só não obteve sucesso porque o Prefeito só conseguiu assinaturas de dezesseis membros do Diretório local do PMDB, o que frustrou suas intenções.

O clima político esquenta à medida que vai passando o ano de 1984. As denúncias públicas contra Sette de Barros vão-se intensificando, e a grande maioria delas é divulgada na tribuna da Associação Comercial.

Sette de Barros podia ser acusado de impaciente, nervoso e até arbitrário. Entretanto, ninguém podia duvidar de suo experiência e de seu conhecimento das manhas e artimanhas da política. E foi justamente essa experiência que impediu qve perdesse o controle naquele momento de seu governo.

No meio do bombardeio, do qual era alvo principal, Sette de Barros tenta reestruturar as forças que lhe davam sustentação política.

Já havia voltado atrás no caso dos impostos municipais. O outro passo foi o exoneração de Wilson Antunes e a nomeação do empresário João Reynaldo

Brandão para a Diretoria do DMAES. Brandão era ligado a Felipe Nery e considerado técnico competente. Com essas duas "tocadas", o prefeito poderia "respirar" melhor naquela atmosfera densa.

Essa hábil medida era também o sinal de que ele queria a reconciliação. Ao mesmo tempo, no discurso pronunciado por ocasião da posse de João Reynaldo Brandão, Sette de Barros dava o tom da discórdia e do autoritarismo. "Entrega o DMAES num envelope fechado, para ser administrado de acordo com os critérios de João Reynaldo, mas confirma, aqui, que o chefe de Ponte Nova sou eu."

A atuação de João Reynaldo Brandão não decepciona aqueles que esperavam uma boa gestão no DMAES. Executa obras extremamente necessárias nos Bairros Pacheco, Triângulo, Fátima, volta da Banana e Esplanada. Evitando um colapso no fornecimento de água, redimensiona o captação no rio Piranga. Politicamente, Brandão fazia uma administração séria. Divulga a existência de mordomias e da prática de apadrinhamento nos quadros do órgão e até manda recolher uma bomba de água da autarquia que se encontrava na residência do prefeito.

Toda a imprensa elogiava o trabalho do novo diretor-geral do DMAES.

Sette de Barros aproveita a paz aparente e se prepara para executar algumas obras de vulto. Do Governo do Estado, ele consegue a liberação de trinta milhões de cruzeiros para instalar, no antigo edifício da Escola Estadual Luiz Martins Soares Sobrinho, na praça principal do Bairro Triângulo, o Serviço de Assistência Médica Municipal de Urgência. Este serviço foi denominado SAMMDU, em alusão ao antigo SAMDU, órgão federal que Sette de Barros havia dirigido e que, sem dúvida alguma, trouxe reais benefícios à população, com seu pronto-socorro atuando durante as vinte e quatro horas do dia.

A Prefeitura inicia também o serviço de calçamento de ruas no Distrito do Vau-Açu e anuncia que a obra toda compreenderia 2.700 metros quadrados.

Apesar dos tumultos, os "settistas" trabalhavam para transmitir uma boa imagem em nível estadual. Para isso, nada melhor que agradar o Governador Tancredo Neves. Assim, ele se torna Cidadão Honorário de Ponte Nova, através do indicação dos Vereadores Wallace Eudes e Wilton Tavares, aprovada por onze votos a três.

Em Belo Horizonte, outro ponte-novense destacava-se no política. Ronaldo Vasconcellos Novais, filho do líder ruralista Catulino Novais e sobrinho dos ex-deputados Fábio e Geraldo Vasconcellos, havia sido eleito vereador à Câmara da capital. Foi de sua autoria o projeto de lei que, em certo momento, movimentou os meios políticos e a colônia ponte-novense em Belo Horizonte. Esse projeto, aprovado pelo Legislativo belo-horizontino, concedia o nome do ex-deputado Federal Geraldo Vasconcellos a uma rua do Bairro Estoril, naquela cidade.

Com todo esse burburinho, outros fatos políticos poderiam passar despercebidos não fosse a atuação marcante de seus protagonistas. No dia 26 de fevereiro, por exemplo, foi fundado o Partido dos Trabalhadores em Ponte Nova. A Convenção Municipal foi realizada em clima de festa, sob os auspícios de um dos principais articuladores da partido, Gabriel Romano de Freitas Neto, que se elege o primeiro presidente da sigla.

Gabriel Romano de Freitas Neto, popularmente conhecido como Bié, era sobrinho de dois políticos conhecidos na Cidade de Ponte Nova. Rosemburgo Romano, ex-Prefeito de Itajubá e ex-deputado Federal, notabilizou-se, também, como médico e educador, tendo fundado importantes estabelecimentos de ensino. Sondoval Romano, vereador em Ponte Nova por várias legislaturas, em alguns desses períodos fez oposição aos prefeitos, denunciando, sempre que podia, os deslizes do Executivo. Enfrentou também, e não podia ser diferente, violentas críticas de seus opositores. O polêmico Sandoval Romano marcou a história política de Ponte Nova.

Gabriel de Freitas foi um político alegre e divertido. Suas campanhas eram brincalhonas, de apelos originalíssimos.

Certa feita, candidato a vereador, apareceu com o "slogan" "Bié, o Vereador que caiu do céu". E todo o seu material de propaganda, "santinhos" e cartazes, aparecia com a sua foto impressa de cabeça para baixo, como se estivesse, de fato, em queda livre.

Eleito vereador em 1976, dispôs-se a concorrer à Prefeitura em 1982. Derrotado e considerando-se traído pelos companheiros de partido, o PMDB, ele deixa a sigla e funda o PT em Ponte Nova.

Naquela memorável campanha de 1982, ele, com pouquíssimos recursos, surge com mais uma de suas idéias originais. Adquire uma mula e sobre a sua cangalha monta uma parafernália, que compreendia bateria, alto-falante, microfone, cartazes e faixas. Acompanhado do quadrúpede, percorria ruas e bairros da cidade, desenvolvendo sua campanha eleitoral.

É bem verdade que os resultados das urnas não foram favoráveis ao candidato, mas o nome "Bié" ficou indelevelmente marcado na história política de Ponte Nova.

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