Sette de Barros X João Brant
- Anos 80

O Brasil inteiro viu surgir, em 1984, uma das maiores manifestações cívicas de toda a sua história, a campanha pelas Diretas. O movimento, que apaixonava a maioria da população brasileira, visava à sucessão do Presidente Figueiredo, o último dos Generais-Presidentes do Governo Militar.

A alta cúpula do PMDB, com Ulisses Guimarães e Tancredo Neves à frente, uniu-se a dirigentes de outras agremiações da oposição para dar força e credibilidade ao movimento. A população, de modo geral, absorveu intensamente o campanha, que se alastrava por todo o País.

Os comícios Pró-Diretas reuniam multidões nas praças públicas de várias capitais brasileiras. No interior, o movimento também alcançava repercussão inaudita. Era o clamor do povo brasileiro pelo liberdade política, pela verdadeira democracia, pela volta do País à normalidade constitucional.

O brasileiro queria o fim do Governo Militar, queria eleger o seu Presidente e queria, a todo custo, um Presidente Civil.

Ponte Nova estava vivendo uma das fases mais tumultuosas de sua história política.

A imprensa local estava bem dividida entre as forças políticas pontenovenses. O "Jornal de Ponte Nova" manteve-se na oposição radical até meados de 1984. Divulgava as reuniões da Associação Comercial, opositora implacável do prefeito, e as sessões da Câmara Municipal, dando cobertura aos vereadores contrários a Sette de Barros. "O Município" não abandonava a sua linha de oposição corajosa e violenta. Atacava o prefeito como podia. Criticava a "destruição" do Parque Florestal do Possa-Cinco, quando assessores de Sette de Barros autorizaram a retirada de lenha de dentro de seus limites. Chamava o prefeito de turista, em razão de suas constantes viagens ao Rio de Janeiro. Condenava a morosidade das obras públicas e, em outro momento, estampava, em letras garrafais: "Rombo de Cr$6.500.000,00 na Prefeitura", acusando o desvio dessa quantia dos cofres municipais.

A única emissora de rádio do cidade, a "Rádio Sociedade Ponte Nova" havia sido arrendada pelo Deputado Felipe Nery.

Para se defenderem através da imprensa escrita, os "settistas" criaram o jornal "O Piranga", no final de 1983. O periódico tinha nos seus quadros nomes como os de José Alexandre Fonseca, que retornara de Belo Horizonte especialmente para assumir o redação, Ricardo Motta, Assessor de Imprensa do prefeito, Marcos Braga; Francisco Mayrink; Ayrton Pyrtz e o próprio filho do Prefeito, José Sette de Barros Filho. Assim estava distribuído o espaço na mídia, e de ambos os lados os ataques aumentavam em número e intensidade. A oposição defendia a criação do "Tribuna Livre" na Câmara dos Vereadores, argumentando que a medida era democratizante.

Essa mesma oposição criticava a construção da nova casa do prefeito, que, de acordo com o projeto inicial, possuiria mais de oitocentos metros quadrados de área construída, A denúncia tomava corpo e ganhava importância quando afirmava que a casa estava sendo construída com máquinas, equipamentos e mão-de-obra da Prefeitura Municipal.

A Unidade dos Trabalhadores Mirins, entidade criada e dirigida pelo Secretário Municipal de Educação, padre Ademir Ragazzi, também era alvo das críticas e acusações da oposição. Esta facção foi às alturas quando, em julho de 1984, a coluna de Zózimo Barroso do Amaral, no "Jornal do Brasil", estampava seguinte notícia: "A sensação do shopping de Copacabana na sábado era a peregrinação pelas lojas do bairro do carro de chapo 001 do gabinete do Prefeito de Ponte Nova, Minas Gerais. A bordo uma senhora com ar extremamente distinto, crianças e embrulhos que não acabavam mais".

Os partidários de Sette de Barros e ele próprio defendiam-se e contra -atacavam. Os alvos dos ataques eram os mesmos: João Brant, Diretor de "O Município", que era criticado com a mesma virulência utilizado por seu periódico nos ataques ao prefeito, e a Associação Comercial de Ponte Nova, que já havia declarado guerra a Sette de Barros há mais tempo e que agora elegia Roberto Gazire, um dos mais ferrenhos opositores do prefeito, para seu presidente. A Diretoria dessa Associação possuía, ainda, Adib Jorge, Antônio Bartholomeu e Walter Isaac, dentre outros declarados adversários de Sette de Barros.

Essa entidade, que congrega comerciantes, industriais, profissionais liberais e demais classes produtores do município, já era forte e muito bem estruturada naquele tempo. Com quase cinqüenta anos de existência, tinha vasta folha de serviços prestados a Ponte Nova. Fundado em 1938 por idealistas como Celso Barroso, Luiz Vilani e Constantino Carvalho, a associação foi dirigida, durante os últimos 44 anos, por Pio Gonçalves Pena. Nesse período, ele criou a Escola Técnica de Comércio Pontenovense, que evoluiu para o Colégio Pontenovense; instalou a Companhia Telefônica Pontenovense; e fez funcionar a Faculdade de Ciências Contábeis, dentre outras importantes realizações.

Por tudo isso, a Associação Comercial era uma instituição respeitada e tinha credibilidade perante a população local. Definitivamente, sua posição política incomodava o prefeito.

Sette de Barros não realizava obras de vulto, e as que conseguia concluir tinham a divulgação comprometida pelo intenso noticiário político.

No Passa-Cinco, a Prefeitura instalou áreas de lazer, incluindo uma imenso piscina de água corrente, bares, "playground", emborcadouro e pedalinhos no represa principal, tudo isso aberto à população.

Foram calçadas algumas ruas e instalados novos sistemas de iluminação pública. O Bairro do Pacheco ganhou, do Governo do Estado, um novo Posto de Saúde, que recebeu o nome de "Dr. Juquinha", homenageando José Mariano Duarte Lanna Filho, médico e ex-Prefeito de Ponte Nova.

O ano de 1984 foi essencialmente político, com muitas polêmicas, discussões e desavenças.

Dentro do PMDB local, os conflitos entre as facções pró e contra Sette de Barros eram, na verdade, a luta constante pela domínio efetivo do partido. Mais uma vez, em julho de 1984, o grupo settista tento utilizar-se da estratégia da renúncia coletiva, como ocorrera em janeiro desse mesmo ano. Renunciaram todos os correligionários do prefeito, dentre eles o próprio prefeito José Sette de Barros; o Secret6rio Municipal de Saúde e Bem-Estar Social, Luiz César Vieira; os Vereadores José Pinto da Paixão, Cristino Lucindo, Wilton Tavares e Wallace Eudes, líder do partido na Câmara. Antônio César Gonçalves Pereira, Presidente do PMDB, com uma medida relâmpago, que evitaria a implosão da sigla, convoca o Diretório para escolher nomes que ocupariam os cargos vagos com a renúncia dos settistas.

Ao episódio das substituições nos quadros do PMDB seguiram-se outros importantes acontecimentos. João Reynaldo Brandão foi exonerada do Diretoria do DMAES pelo Prefeito Sette de Barros. Esse ato deixou as relações entre o prefeito e o Deputado Felipe Nery de Almeida ainda mais fragilizadas.

No dia 31 de agosto, Sette de Barros lança outro torpedo contra a oposição. Assina decreto, declarando de utilidade pública, para fins de desapropriação, o amplo e antigo casarão pertencente à família Brant Ribeiro, no qual residia João Brant e funcionava o jornal "O Município". Para provocar o jornalisto, Sette de Barros, em entrevista, declara que iria instalar naquele imóvel o Museu, o Arquivo Público e a Casa da Cultura, que receberia o nome de "Antônio Brant", pai do dono do jornal.

A Associação Comercial sai em defesa do jornal oposicionista e de seu proprietário. Roberto Gazire, da tribuna da entidade, afirmava que a medida do Chefe do Executivo não passava de um ato covarde, de uma vingança. "O Prefeito pede concórdia e diálogo. Mas como atendê-lo com este comportamento violento ?", afirmava.

Da Câmara, também vêm algumas manifestações de apoio a Brant, mas o pior ainda estava por acontecer. A intenção era, de fato, intimidar João Brant. Sua oposição sistemática e corajosa chegava, em certas ocasiões, a perturbar profundamente o prefeito e todo o seu "staf". Esperavam que, com a desapropriação, Brant se calaria, assustado.

Como determinava a lei, era necessária a publicação do decreto em um órgão de imprensa local. O prefeito tinha, para isso, outros meios que não o jornal "O Município". Envia, no entanto, como uma nova provocação, cópia desse decreto para fins de publicação naquele periódico. Seu diretor nega-se a publicá-lo, devolvendo-o ao remetente.

No seu número seguinte, aquele jornal estampava na primeira página matéria referente ao assunto: "O burlesco executivo da comuna, sob o falso pretexto de dotar Ponte Nova de uma caso da cultura, tombou o antigo solar da família Brant Ribeiro. Não o fez, porém, sob a fé de um anseio social de que nunca participou. Fê-lo pelo incontido desejo de represália ao diretor deste semanário. O Município lhe mostra que é independente. O 'burlesco' quer mostrar-lhe o quanto pode. Arbitrário, investe contra a propriedade privado e, pelo corgo que ocupa, vezeiro no mau uso dos valores públicos à sua mão, troca a palavra de que faz uso rotineiro, por expropriação. Não esgota na vingança, refestela na provocação. Com um ofício e decreto para publicação em nossa edição".

O episódio da desapropriação da casa onde funcionava o principal veículo da oposição não parou por aí. No dia 3 de setembro, o Prefeito Sette de Barros registrou queixa na Delegacia de Polícia contra João Brant, acusando-o de desrespeito à sua autoridade por ter lhe devolvido em um envelope confidencial o decreto do dia 31 de agosto "sujo de matéria fecal"

A respeito do desdobramento do fato "O Município" satirizava: "...assoalhou uma inolvidável queixa à autoridade policial uma história palhaça, digno do histrião por que se faz passar, e é conhecido do povo que enganou. O papel onde escreveu a vingativa decretação de assalto, a uma propriedade, divertiu a cidade com o odor que lhe agregou, dizendo-o alheio, o que a ninguém convenceu, porque todos sabem que o cheiro atribuído ao papel só podia vir de quem lhe tocou pela primeira vez".

Outras vozes faziam coro ao jornal "O Município". O Vereador Walter Isaac pedia a saída do Secretário da Fazenda, Alberto Kfouri, acusando-o de pregar subversão em Ponte Novo. Da Tribuno da Câmara, ele afirmava que o homem de confiança de Sette de Barros era um "pontenovense transviado de Belo Horizonte". Gazire, na Associação Comercial, questionava a sanidade mental do Chefe do Executivo e desencadeava uma campanha contra os secretários e os assessores de Sette de Barros.

Discutia-se, no Legislativo, o novo Código Tributário, e os ânimos acirravam-se.

A conturbada política municipal ocupava quase todo o espaço da imprensa local e pouco, ou quase nada, era veiculado do importantíssimo momento da vida político do País.

Em abril, a "Emenda Dante de Oliveira", que propunha as eleições diretas para Presidente da Repúblico, é rejeitado pelo Congresso Nacional. Quatro meses depois, em agosto, a Convenção do PMDB aprova a coligação com uma ala dissidente do PDS, batizada de "Frente Liberal", e lança Tancredo Neves candidato a Presidente do Brasil.

Tancredo deixa o Governo de Minas e, no dia 14 de agosto, em cerimônia apoteótica na Praça da Liberdade, transmite o cargo de governador ao vice, Hélio Garcia.

O Deputado Federal Paulo Maluf havia derrotado o Ministro do Interior Mário Andreazza na Convenção do PDS e era o candidato da situação.

A campanha pelas "Diretas Já" dá lugar a um novo movimento: o "Muda Brasil"

O ano de 1985, também, seria um ano de muita agitação política. Grandes esperanças e trágicas decepções estavam reservadas para o povo brasileiro.

No dia 15 de janeiro, Tancredo de Almeida Neves obtém 480 votos do Colégio Eleitoral, derrotando seu concorrente, Paulo Salim Maluf, que tivera apenas 180 votos, e se elege Presidente do Brasil.

No "Auditório Petrônio Portela", do Congresso, aguardava-se, com ansiedade, o 344º voto, que daria a vitória a Tancredo. Coube ao Deputado paulista João Cunha o pronunciamento histórico: "Há 27 anos, pensei que o sonho de grande nação tinha se acabado. Hoje, entretanto, veio que, mercê de Deus, com o meu voto, dou o golpe final na ditadura fascista, corrupta e entreguista, que violentou a pátria tanto tempo. Voto em Tancredo Neves, na vitória!"

Em Ponte Nova, o trabalho do Colégio Eleitoral suscitou grande interesse. Tão logo foi divulgado o voto que decidiu a eleição do candidato peemedebista, a cidade explodiu em uma vibração poucas vezes vista. Como em todo o País, as festas entraram noite a dentro com alegria carnavalesca. Era o referendo popular à decisão do Colégio Eleitoral.

Passado o momento de euforia pela eleição de Tancredo Neves, as atenções voltaram-se para os problemas da política local.

As chuvas castigaram Ponte Nova, mais uma vez, durante o mês de janeiro e reeditaram os velhos problemas de ruas alagadas e casas inundadas e destruídas. A violência das enchentes daquele ano foi, sem dúvida alguma, muito menor que a de 1979, mas suficiente para levar o prefeito a divulgar que levantaria empréstimos, da ordem de oitocentos milhões de cruzeiros, para cobrir as despesas com obras de reconstrução da cidade.

Em fevereiro, a cidade "estremece" com mais uma manchete bombástica de "O Município": "Festinha na residência oficial do prefeito vem à tona envolvendo marginais, roubo e tóxico". O longo título servia a uma matéria que divulgava o roubo que uma ex-funcionária "fantasma" do DMAES perpetrara, durante a madrugada, em uma festa na casa de Sette de Barros.

Os objetos roubados pela acusada foram encontrados com traficantes na Cidade de Ouro Preto.

A crise instalou-se no Gabinete do Executivo. O Secretário-Geral da Prefeitura, advogado Ananias Alvarenga, irmão da esposa do prefeito, pediu demissão do cargo em caráter irrevogável.

O prefeito reage, publicando "Nota Oficial" nos seguintes termos:

"O jornal' denominado 'O Município de Ponte Nova', em seu n" 94, datado de 9 de fevereiro deste ano, trouxe em sua primeira página, matéria grosseira e infamante, contra várias pessoas, e o Prefeito Municipal, sob o título 'Festinha na residência oficial do Prefeito vem à tona envolvendo marginais, roubo e tóxico'.

A matéria é fruto de imaginação e de execução criminosos. Só admissível em mente doentia; acostumado à violência mais íntima no submundo do crime e da marginalidade. Trata-se de encrepação grosseira, falsa, sementida, faticiosa e fornidade de fuxico. Matéria mal concebida e pessimamente redigida, fazendo, aliás, pleno justiça à imprensa marrom, companheira noturna do coachar dos sapos que vivem no mesmo pântano e no mesmo charco. Havendo, porém, desta vez, os insensatos responsáveis, invadido as fronteiras criminais serão eles, nos próximos dias, processados na forma da lei. No justiça, terão eles o direito e a oportunidade de provar a verdade do que afirmaram. Se não provarem, o prefeito provará que eles são. O que aliás será mera demasia, porque isto, em termos de presente e de passado, toda a cidade já sabe...

Ponte Nova, 72 de fevereiro de 1985."

O jornal não tinha o que provar. A queixa, informando sobre o roubo, foi registrada na Delegacia de Polícia. Os objetos que sumiram da caso do prefeito foram encontrados, pela polícia, em Ouro Preto, nas mãos de pessoas ligadas à ex-funcionária do DMAES. A própria autora do roubo confessara sua autoria, e certo motorista de táxi afirmara que a transportara da casa do prefeito à sua residência, às 4h30min daquela madrugada.

O episódio teve repercussão estadual, com referências na grande imprensa

Em um verdadeiro turbilhão, precipitam-se os fatos políticos.

Sette de Barros, em atitude de desespero, tenta impedir a circulação dos jornais que lhe faziam oposição, principalmente "O Município". Pressiona o proprietário das bancas de distribuição de jornais e revistas que, instaladas em

logradouros públicos, dependem da boa vontade do prefeito para o seu funcionamento.

Na terça-feira de carnaval, o Diretor de "O Município", João Brant, é alvo de um atentado a bala. As 11h30min, ao atender a um chamado na porta de sua residência, é surpreendido por dois disparos de arma de fogo, que, no entanto, não o atingem. As suspeitas, é lógico, recaem sobre o prefeito, que é logo acusado de mandante do crime por Brant.

Em ofício, datado de 12 de março de 1985, Nery oficializa ao prefeito seu rompimento definitivo com a Administração Sette de Barros e enumera treze pontos que o levaram a tomar tal atitude, Critica o afastamento de Brandão do DMAES, afirmando que ele fora "vítima de intriga de seus auxiliares diretos". Em outro momento, no documento, Felipe Nery explica: "Percebo que os meus companheiros têm razão; não tenho condições de continuar apoiando a sua administração. Liberto-me deste encargo!"

No dia 14 de março, todo o País volta, novamente, os olhos para Brasília. O Presidente eleito passa mal durante uma celebração religiosa, na véspera da sua posse. Internado no Hospital de Base de Brasília, Tancredo Neves não assume a Presidência, que passa a ser exercida por José Sarney, Vice-Presidente.

A partir daí, todos passam a acompanhar a agonia do Presidente Tancredo Neves, que luta contra a morte, primeiro em Brasília e depois em São Paulo, para onde foi levado à procura de mais recursos. Finalmente, a 21 de abril, o porta-voz da Presidência, Antônio Brito, em cadeia nacional de televisão, anuncia a morte do Doutor Tancredo.

O Brasil comove-se com o desfecho fatídico, e em Ponte Nova são inúmeros as manifestações de pesar pela morte do estadista.

A morte e o enterro de Tancredo Neves funcionaram como um armistício. Passados esses momentos, reinicia-se a guerra política que se desenrolava em Ponte Nova, havia dois anos, sem precedentes em sua história.

Durante o mês de abril surgem as primeiras notícias sobre o estado de saúde do Prefeito José Sette de Barros. As primeiras versões dão conta de que ele sofria de algum tipo de câncer, e chegou-se a anunciar que pediria licença para tratamento médico.

Em entrevista, Sette afirma que havia se submetido a duas cirurgias, mas que nada tinham a ver com a aludida doença. "Isto é macumba de urubu magro para cima de cavalo gordo", afirma ele.

Doente ou não, Sette de Barros preparava-se para mais uma batalha. Agora era a vez de atacar a Associação Comercial.

Havia alguns meses, essa entidade vinha intensificando seus ataques à Prefeitura. Primeiro foram as campanhas contra os impostos, que surgiram ainda no início do ano. A seguir, a Associação denunciou corrupção no Prefeitura. Em ofício, encaminhado ao Tribunal de Contas de Minas Gerais, ela afirmava que "funcionários da Prefeitura de Ponte Nova, devidamente acobertados pelo Chefe do Executivo, utilizam o Departamento de Abastecimento Municipal para transações em proveito próprio". Anexo a essa correspondência seguiu o extrato bancário de Márcio Barros de Carvalho, Chefe do Pátio de Máquinas da Prefeitura e responsável pelo Departamento de Abastecimento Municipal, no qual apareciam movimentações de altas somas. Novas denúncias da Associação Comercial davam conta de que a Prefeitura adquirira grande quantidade de cimento de forma irregular, em Belo Horizonte.

Juntamente com intensa movimentação política, aquela entidade fazia outros planos. Queria construir um edifício de doze andares no lugar onde estava sua sede. Para tal, ela inicia a demolição do antigo sobradão, construído pela Companhia Telefônica Aliança Mineira, durante a década de 30, e que a abrigava.

Sette de Barros não perde a oportunidade. Edita decreto desapropriando o imóvel e determina ò Polícia Militar o embargo dos serviços de demolição. Diferentemente do que ocorrera com a desapropriação da casa da família Brant Ribeiro, no ano anterior, Sette faz recolher, em juízo, o valor da desapropriação.

A Associação Comercial reage, promovendo uma caravana a Belo Horizonte, onde é ouvida pela congênere do Estado de Minas Gerais. Em Ponte Nova, ela promove uma Ação Popular contra o prefeito, ameaçando-o com o "impeachment".

Enquanto a "guerra política" continuava, eram observadas, ainda em 1985, as primeiras movimentações para as eleições do ano seguinte.

O Presidente da CARPE, Aloísio Marcos Vasconcellos Novais, inaugurava novos edifícios escolares em todo o Estado. Numa dessas ocasiões, durante as solenidades de entrega da Escola Estadual Miguel Lanna, no Bairro São Pedro, ele assumiu a postura de candidato, e a festa tornara-se um verdadeiro comício eleitoral. Além das inaugurações, ele proferia aulas inaugurais e participava de formaturas, com a periodicidade e a desenvoltura de um forte candidato.

Em Belo Horizonte, seu irmão, Ronaldo Vasconcellos, vinha desenvolvendo um bom trabalho como vereador. Tinha espaço na mídia e aproveitava os momentos certos para marcar a presença. Fora candidato a Presidente do Legislativo da capital, e sua derrota por apenas um voto credenciou-o a disputar, no próximo pleito, cargo mais expressivo.

Felipe Nery estava bem politicamente. Parcimonioso, aguardara o momento exato para romper com Sette de Barros, e saíra fortalecido da convenção do PMDB, realizada no dia 7 de julho de 1985, na qual a vencedora fora a chapa encabeçada por José André de Almeida, seu irmão, médico e Chefe do Centro Regional de Saúde. Com essa vitória, Nery olijava, de uma vez por todos, o Prefeito Sette de Barros do partido.

Outros candidatos, em potencial, passavam por Ponte Nova, em campanha.

O viçosense Antônio Chequer, Presidente do Loteria Mineira, fazia propaganda com as extrações itinerantes, ocasiões em que, em praças públicas, promovia apoteóticos shows durante os sorteios da loteria. No dia 7 de junho ele passa, com todo o aparato da "Mineira", por Ponte Nova.

Sílvio de Abreu Júnior e Leopoldo Bessone, Secretários de Estado do justiça e do Esporte, Lazer e Turismo, respectivamente, também faziam suas incursões por Ponte Nova. Eram as eleições parlamentares de 1986 que se aproximavam.

O ano de 1985 ficou marcado pelos sentimentos extremos. No início, o povo brasileiro vibrou com a eleição de Tancredo Neves, o primeiro Presidente Civil depois de vinte anos. Chegava ao fim um regime autoritário e despótico, que tantos males trouxe ao País. Logo a seguir, vieram a decepção e a tristeza. A doença do Presidente eleito, que se agrava na noite anterior à sua posse, deixa o País em sobressalto. Transcorrem trinta e seis dias, durante os quais o quadro de saúde do Presidente vai-se agravando e, por fim, no dia 21 de abril, Tancredo Neves morre no INCOR, em São Paulo. A tristeza e a desolação se abatem sobre os brasileiros.

O ano de 1985 pode ser chamada de "ano" do Tancredo.

Tancredo de Almeida Neves, são-joanense, político inteligente e sagaz, ocupou em sua longa vida pública todos os cargos que um político brasileiro pode almejar. Foi Vereador, Prefeito, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador da República, Secretário de Estado, Ministro, Presidente eleito e até Primeiro Ministro durante a curta existência do Governo Parlamentar brasileiro.

Vivo e perspicaz, Tancredo deixou páginas interessantíssimas para o história da política brasileira. Sua biografia é rica em ensinamentos políticos e traz também lances de humor que definem bem o seu espírito alegre e jovial.

Ronaldo Costa Couto, assessor e homem de confiança de Tancredo Neves durante parte de sua vida pública, conta uma destas passagens alegres que tiveram como protagonista o eminente homem público mineiro:

Eleito Presidente, Tancredo empreendeu uma viagem aos Estados Unidos da América do Norte, em fevereiro de 1985. Recebido pelo vice-Presidente americano, George Bush, e acompanhado do neto, Aécio, e do Embaixador brasileiro Paula Tarso Flecha de Lima, Tancredo parecia muito à vontade durante toda a entrevista. Em dado momento, o assunto era eleição, e Bush, sempre falando vagarosamente, para facilitar o trabalho do tradutor e o entendimento de Tancredo, afirmou que os resultado das eleições americanas poderiam ser conhecidos vinte e quatro horas depois de encerrada o votação graças às vantagens da informática. Tancredo Neves não se acanha e, certamente com um quase imperceptível risonho nos cantos dos lábios, responde:

- Nisso o Brasil está muito à frente dos senhores!

Todos ficaram espontados, mas ele não demorou poro se explicar:

- Desde 1964, os brasileiros sempre souberam quem ia ser o próximo presidente muito antes das eleições.

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