Sette de Barros e as eleições de 1988

A saúde de Sette de Barros estava bastante abalada. Fumante inveterado e inimigo das dietas e dos tratamentos médicos, ele já sofria, há algum tempo, de diversos males. Hipertenso e portador de pancreatite, gastrite e uma forte bronquite, Sette de Barros ainda convivia com a diabetes que, em vão, clamava por um tratamento sério e complexo.

Em abril de 1986, os médicos constataram mais uma doença no organismo já debilitado do prefeito. Ele sofria de câncer no sistema linfático.

Seu médico em Ponte Nova era Luiz Eustáquio Linhares que, nomeado por Sette, ocupava a Diretoria do SAMMDU. Foi ele quem afirmou que seu paciente "...seguia corretamente só o tratamento do linfoma, porque não queria morrer. Sua vontade de viver era muito..."

O agravamento do quadro, com a nova doença, influenciou profundamente os rumos da política ponte-novense. "Sem dúvida nenhuma doença prejudicou demais sua administração. Sua vitalidade que era intensa no início caiu progressivamente e com isto ele foi delegando cada vez mais poderes a terceiros, o que nem sempre foi correspondido à altura. Sem forças para controlar de perto as coisas, vários equívocos aconteceram."

O impacto causado pela notícia da doença de Sette de Barros abalou a cidade. Os adversários, a princípio, assustaram-se. Ficaram sem saber que atitude tomar, se continuavam à carga ou se retraíam em respeito ao portador de tão insidiosa doença.

Seus correligionários se apavoraram com a notícia. Sette de Barros não era um homem sadio e, além disso, era extremamente extravagante. também já não era jovem, e agora vinha essa doença grave.

Os assessores imediatos do prefeito, que também, em maioria absoluta, gostavam do chefe e consideravam-no um verdadeiro guru, ficaram desolados.

A partir daquele mês de abril de 1986 as coisas não seriam mais as mesmas na política local.

Sette de Barros tinha planos de lançar seu filho, José Sette de Barros Filho, candidato a Deputado Estadual. Não seria difícil elegê-lo. Sette acumulara grande experiência política, conhecia, como poucos, a arte de cooptar, de conquistar aliados, de angariar votos. Ele também tinha a seu dispor a máquina administrativa de um pólo regional.

A doença veio alterar também esse plano, e Sette Filho não seria candidato, perdendo, sem dúvida alguma, grande oportunidade de tornar-se um Deputado Estadual.

Sette de Barros escolhe José Geraldo Ribeiro e Aloísio Garcia para dar votos e ajudá-los a se elegerem Deputados Federal e Estadual, respectivamente.

Felipe Neri de Almeida reelege-se, assim como Domingos Sávio Teixeira Lanna. O segundo, peefelista, repetia o mandato pela quarta vez consecutiva.

O ponte-novense Ronaldo Vasconcellos Novais salta da Câmara Municipal de Belo Horizonte para a Assembléia legislativa de Minas Gerais, enquanto seu irmão, Aloísio Marcos Vasconcellos Novais, ex-presidente da CARPE, elege-se Deputado Federal. Os dois receberam pouquíssimos votos em sua terra natal.

O Prefeito de Ponte Nova, Sette de Barros, debatia-se contra a doença.

Procurava tratamento nos grandes centros, onde se submetia a longas e penosas seções de radioterapia. Em Ponte Nova, tinha o desvelo do amigo devotado, Dr. Taquinho Linhares, que lhe aplicava a quimioterapia.

Os tratamentos só prolongavam um pouco mais a vida do Chefe do Executivo, mas não conseguiam interromper o processo cancerígeno, que se agravava à medida que o tempo passava. Sette de Barros era médico e, mesmo não clinicando há muito tempo, tinha consciência do seu estado. Eram habituais as crises de depressão e os momentos de dolorosas recaídas.

Em meio a esse quadro de dor, incerteza e aflição, Sette de Barros ainda encontrava forças para articular sua sucessão. Estava, há tempos, "criando" o padre Ademir Ragazzi para ser seu candidato a prefeito em 1988.

Quando Sette assumira a Prefeitura, em 1983, encontrara Ragazzi dirigindo o Colégio Dom Helvécio e percebeu logo, com a sua perspicácia de político experiente, as qualidades do padre Salesiano. Ademir Ragazzi era jovem, nascido em Castelo, no Estado do Espírito Santo, em 29 de abril de 1948. Orador fluente, forjado nos púlpitos e nas salas de aulas, era dono de um carisma pouco comum.

Sette convida-o para assumir o Departamento Municipal de Educação (DEMEC) e a Direção do Colégio Municipal Prof. José Maria do Fonseca.

Inovador e versátil, Ademir Ragazzi criou o jornal "A Cidade" e a Unidade de Trabalhadores Mirins (UTM), que, em certo momento, tira das ruas dezenas de crianças, que passaram a se ocupar das atividades dessa unidade.

Sette de Barros escolheu seu candidato a Prefeito, bem antes das eleições de 1988. Nomeou-o assessor e manteve um contato permanente com ele, num trabalho paciente de conscientização e formação política: talhava-o, formava-o. "Catequizava" o padre de acordo com os seu "dogmas" e princípios.

A escolha do vice foi um pouco mais complicada. Era visível a necessidade de unir todas as forças contra o PFL. A corrente "settista", no PDT, sozinha, não venceria os eleições; da mesma forma que o PMDB, do Deputado Felipe Nery, tinha pouquíssimas possibilidades se caminhasse só, para aquela eleição.

As convenções, no entanto, nunca evoluíam favoravelmente. O deputado queria que a cabeça de chapa fosse de seu grupo, enquanto o prefeito não abria mão dessa indicação. Impossível que esse acordo não tenha saído em razão da própria doença de Sette de Barros, que, cansado e abatido, não agüentava mais arquitetar as armações políticas. Seus assessores não enxergavam essa necessidade ou, simplesmente, eram incapazes de viabilizar tal coligação.

Foi aí que Sette de Barros, sem esperanças de acordo com a corrente "felipista", convidou o médico e amigo pessoal Luiz Eustáquio Linhares para ser o candidato a vice-prefeito na chapa de Ademir Ragazzi.

Linhares era filho do médico Francisco Linhares Ribeiro, que militara ativamente no política municipal por longos anos. Fora vereador e presidente do Câmara por diversas legislaturas. Também dirigira por muitos anos o UDN e gozava de bom conceito entre os dirigentes estaduais deste partido. Luiz Eustáquio tinha passagem pela política estudantil e, uma vez formado em medicina e lá em sua terra, ainda aguardou alguns anos para ingressar na política partidária.

Felipe Nery também esgotou seus recursos para efetivar o coligação e lançou a chapa composta por João Antônio Vidal de Carvalho, candidato a prefeito, e Ernesto Trivellato, candidato a vice-prefeito. Não era a composição ideal, porque não houvera a união com os partidários de Sette de Barros, mas esses dois nomes era m bons candidatos. Joãozinho Carvalho carregava a tradição do nome de seu pai, ainda querido nos quatro contos do município. Era muito jovem e poderia atrair o voto da juventude ponte-novense. Nezinho Trivellato era líder ruralista e capaz de fazer convergir para o seu nome grande parte dos votos da direita ponte-novense. A sorte, contudo, não estava ao lado dos candidatos peemedebistas, principalmente do vice-prefeito. No auge da campanha, Ernesto Trivellato aparece com um câncer, que, galopante, leva-o rapidamente à morte. Sem muito tempo para uma escolha mais discutida e avaliada, Felipe Nery inscreve a sua própria irmã, a advogado Maria Inácia de Almeida, como companheira de chapa de Joãozinho Carvalho. A escolha não acrescentava muito à chapa peemedebista, uma vez que Maria Inácia era dos quadros do partido e, naquele momento, eles precisavam de um nome que trouxesse votos de outras correntes políticas.

O PFL estava unido, inteiro e mais forte do que nunca. Ele iria enfrentar um PMDB que se esfacelara e se subdividira em dois partidos, o próprio PMDB e o PDT de Sette de Barros e seus companheiros de dissidência.

O nome escolhido pelo partido do Deputado Domingos Lanna, o PFL, foi o do ex-Prefeito Antônio Bartholomeu Barbosa. Contavam, os peefelistas, com a sua experiência e a idéia de equilíbrio e tranqüilidade que tinham de sua primeira administração. Seu companheiro de chapa era Edy Castanheiro, também líder ruralista e administrador de importante entidade ligada aos plantadores de cana do município.

O estado de saúde de Sette de Barros não permitiu que ele se empenhas se na campanha de seu candidato. Estava debilitado e sofria constantes crises.

Convivendo com as brigas políticas e com a doença, Sette de Barros ainda fez algumas obras no final de seu governo. Asfaltou ruas do centro e de bairros e viu a instalação da Defensoria Pública. Mas não pode dedicar-se a campanha sucessória como desejava, e o resultado não poderia ter sido outro que não a derrota.

Antônio Bartholomeu elegeu-se novamente Prefeito de Ponte Nova. Os votos de Ademir Ragazzi, que ficou em segundo lugar, somados às de João de Carvalho, terceiro colocado, no entanto, teriam sido suficientes para vencer o candidato peefelista.

Os últimos dias do governo Sette de Barros foram nostálgicos. O prefeito estava muito doente e desiludido com os resultados das eleições. Algumas obras estavam em andamento, como a canalização dos córregos da Vila Alvarenga e do Pito que chegavam a ter 80% de sua extensão já concluídos. O asfaltamento da avenida que margeia o rio Piranga pelo lado esquerdo, apelidada de Avenida Perimetral, estava sendo levado a cabo.

No apagar das luzes, entretanto, o governo Sette de Barros não poderia deixar de ter lances polêmicos. No dia 16 de dezembro, os servidores municipais deflagram uma greve geral, reclamando solários atrasados e protestando contra os elevados salários pagos a um grupo de assessores do prefeito. No dia seguinte, a CEMIG cortou o fornecimento de energia elétrica à Prefeitura, que devia à esta tal a elevada quantia de 12 milhões de cruzados, referente a inúmeras contas não quitadas.

Também marcou aquele final de ano a aprovação, pela Câmara, do projeto que instituía, naquela Casa Legislativa, a Tribuna Livre.

Mesmo abatido com a derrota nas eleições de 1988 e antevendo a proximidade da morte, Sette de Barros não perdia a sua antológica irreverência.

As crises eram constantes e lhe traziam dores e desespero. Nos intervalos dessas agruras, no entanto, ele diria, rindo, que os seus inimigos eram a sua fonte de vigor e, voltando-se para os presentes, sempre surpresos, afirmava:

- "Nem o câncer me levará antes que eu sepulte politicamente todos esses safados, essa cachorrada que anda por aí."

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