Pe.Ademir destituído, assume Carlos Jardim - 1994

Nunca, em tão pouco tempo, tantas desordens e tantos desatinos foram observados em Ponte Nova. Ademir Ragazzi sobrepujou seu mestre e mentor, fazendo com que o seu período se tornasse muito mais conturbado e agitado que o de Sette de Barros.

Mesmo com todo a confusão da política municipal, não passariam despercebidas as importantes eleições de 1994. A partir de julho, as campanhas eleitorais tomaram fôlego, sem que, contudo, o ponte-novense se esquecesse dos seus problemas domésticos.

Seriam eleitos em apenas um turno, a ser realizado em 3 de outubro, deputados estaduais, federais e senadores; num segundo turno, no dia 15 de novembro, os governadores e o Presidente da República.

No dia 2 de julho de 1994, foi inaugurado o primeiro Comitê Eleitoral de Ponte Nova, do candidato a deputado estadual Paulo Cézar da Silva. Empresário do setor automobilístico, Paulinho da Ford, como era conhecido, reuniu, naquela ocasião, importantes lideranças, como o ex-Prefeito de Nova Lima e candidato a vice-Governador Vítor Penido; o Deputado Federal Ibraim Abi-Ackel, candidato à reeleição; o ex-governador e candidato ao Senado do República, Francelino Pereira dos Santos; o ex-Prefeito e ex-Deputado Estadual Domingos Sávio Teixeira Lanna; e o ex-Prefeito, Antônio Bartholomeu.

Paulo Cézar, natural de Teixeiras-MG, desde o lançamento de sua candidatura catalisou o apoio de diversas correntes políticas locais. Tinha quase todo o Diretório do PFL, partidários do Prefeito Ademir Ragazzi que não se dispunham o caminhar com o PDT, parte expressiva do PMDB e um bom número de vereadores.

José Silvério Felício da Cunha, o Zezé Abdalla, dispunha-se a disputar, mais uma vez, um cargo eletivo e lançava, em grande estilo, sua candidatura a deputado estadual pelo PSDB. Para a inauguração de seu comitê, traz a Ponte Nova o candidato ao Palácio da Liberdade, Eduardo Azeredo.

Outros ponte-novenses estavam em campanha, como o radialista Ede Mauri, filiado ao PMN, que tentaria chegar à Assembléia. Ronaldo Vasconcellos, do PL, com escritório político em Ponte Nova, candidata-se o um terceiro mandato

de deputado estadual, e o desportista Reinaldo de Limo, agora no PDT, tentava se reeleger. O Assessor e homem de confiança do padre Ademir Ragazzi, João Paulo de Britto, também pleiteia uma cadeira de deputado pelo PDT.

Para o Câmara Federal, faziam companha na cidade os ponte-novenses Felipe Nery de Almeida, Aloísio Marcos Vasconcellos Novais e Antônio Zaidan. Este último, radicado em Juiz de Fora, era médico e professor e tentava pela segunda vez, se eleger. Apareciam também na cidade os nomes de Ibraim Abi-Ackel, defendido por antigos correligionários; Silvio de Abreu Júnior, líder pedetista, apoiado por João Paulo de Britto; João Magalhães, da Cidade de Matipó, carregado pelo padre Ademir e Saulo Coelho, filho do ex-governador Ozanan Coelho, companheiro de chapa de Zezé Abdalla; Agostinho Valente, do PT; e os viçosenses José Rezende de Andrade, ex-Secretário de Segurança, e Danilo de Castro, ex-presidente da Caixa Econômica Federal. Os dois últimos contavam com o apoio de cabos eleitorais esparsos, mas tinham a seu favor todo um trabalho de alto penetração, durante o tempo em que exerceram aqueles cargos de confiança.

Para o Governo de Minas, polarizaram na disputa Hélio Costa, animado com seu bom desempenho em 1990 e com os altos índices de aceitação com os quais aparecia em todas as pesquisas, e Eduardo Azeredo, ex-Prefeito de Belo Horizonte e candidato do Governador Hélio Garcia. O primeiro era apoiado por Ademir Ragazzi e o segundo por Zezé Abdalla, em Ponte Nova.

A proximidade das eleições não paralisou os trabalhos de apuração das denúncias contra Ademir Ragazzi e seus assessores. No dia 28 de setembro, a Comissão Processaste da Câmara dos Vereadores convoca o prefeito para depor. Afrontando aquela comissão, Ragazzi não comparece e desconhece a ameaça de ser julgado a revelia.

O Secretário de Governo, Brício de Vasconcellos de Souza Lima, torna-se o novo alvo da oposição, quando assina alguns vetos a proposições de Leis e Decretos do Executivo. Esses vetos são de competência exclusiva e privada do Prefeito Municipal. Assim ficava caracterizado crime de falsificação de documento público, afirmava a oposição.

Contra a vereadora Nilda Guimarães leite (PMDB), uma das mais fiéis correligionárias de Ademir Ragazzi, também são viradas as "metralhadoras" da oposição. Ela é acusada, dentre outras coisas, de "falta de decoro parlamentar" durante as sessões da Câmara, de se recusar o participar de Comissões Parlamentares e de se beneficiar, material e politicamente, em troca do apoio incondicional ao Prefeito Ademir Ragazzi. O pedido de cassação de seu mandato foi feito por líderes sindicais, e uma "Comissão Processante" foi imediatamente formada. Afastada por 90 dias, Nilda deixa a sua vaga para o suplente Betinho Caminhoneiro.

Outro vereador, José Rubem Tavares, é acusado de doar a eleitores lotes em área verde do Bairro São Geraldo. A denúncia é feita pela própria Secretária de Ação Social Fatinha Alves Costa, na Tribuna Livre da Câmara.

Os resultados das eleições de 3 de outubro de 1994 trazem notícias pouco auspiciosas para Ponte Nova e região. Nenhum dos três ponte-novenses que se candidataram o deputado federal lograram êxito. Felipe Nery de Almeida, o mais votado em Ponte Nova, com 5.410 votos, interrompe uma carreira política que já contava com dois mandatos de deputado estadual e um de deputado federal. Antônio Zaidan recebeu 343 votos na cidade, enquanto Aloísio Vasconcellos obteve apenas 193.

José Rezende, com 1 .721 votos dados pelos ponte-novenses, e Danilo de Castro, com 672, foram eleitos, com expressiva votação em todo o Estado. O ex-Presidente da Caixa Econômica Federal superou a casa dos 100 mil votos e foi o segundo deputado mais votado em toda a Minas Gerais.

Saulo Coelho obteve 61 2 votos; João Magalhães, 531 ;Agostinho Valente, 408; Ibraim Abi-Ackel, 362; e Silvio de Abreu, 293.

Para a Câmara Estadual, o desempenho dos candidatos ponte-novenses também não foi muito bom. Zezé Abdalla, que obteve a extraordinária marca de 9.790 votos só no Município de Ponte Nova, não conseguiu se eleger. Paulinho da Ford, com uma votação muito aquém da esperado - 2.558 votos em Ponte Nova e pouco mais de 10.000 em Minas - também não se elegeu. Reinaldo de Lima, que em Ponte Nova recebeu apenas 504 votos, não conseguiu a reeleição. Ede Mauri, que obteve 2.338 votos no cidade, mas não conseguiu aumentar muito esta votação no resto do Estado, e João Paulo de Britto, com 664 votos, não alcançaram êxito no pleito.

Ponte Nova, que outrora se fazia representar por vários deputados nas duas casas legislativas - Estadual e Federal - desta feita tem que se contentar apenas com um deputado estadual, Ronaldo Vasconcellos Novais, que recebera parcos 881 votos em Ponte Nova, conseguira votação suficiente, no Estado, para se eleger para mais uma legislatura.

Ronaldo já havia construído uma bela carreira política. Fora vereador em Belo Horizonte de 1982 a 1986. Nesse último ano, elegera-se deputado estadual. Quatro anos depois, nas eleições de 1990, ganhara mais um mandato para a Assembléia Legislativa. Durante esse período, ocupa a 4ª Secretaria da Mesa e torna-se o Presidente da Comissão de Meio Ambiente daquela Casa. No PL, ele é o Secretário-Geral do Diretório Estadual.

Por pouco mais de 1%, Hélio Costa deixa de ganhar as eleições no primeiro turno, obtendo a maioria absoluta dos votos válidos daquele pleito. A partir daí, as coisas se complicam para o candidato barbacenense. O nome de Azeredo cresce assustadoramente e logo alcança o do seu oponente nas pesquisas de opinião. Um curioso fenômeno eleitoral tem início. Dezenas de lideranças, que no primeiro turno apoiaram Costa, temerosos de uma reviravolta do candidato Palácio da Liberdade, "trocam de lado" e fortalecem a candidatura Azeredo em todo o Estado.

Hélio Costa ainda volta, durante a campanha, a Ponte Nova. Foi armado um grande comício na Praça Cid Martins Soares, em Palmeiras, que recebeu milhares de pessoas. Artistas famosos ajudaram a atrair eleitores e a população em geral, que superlotaram o centro do bairro. Esse evento político teria transcorrido normalmente, não fossem as vaias que foram ouvidas, por mais de uma vez, sempre que o candidato citava o nome do Prefeito Ademir Ragazzi e os de seus colaboradores diretos.

Hélio Costa, que no primeiro turno obtivera 8.014 votos em Ponte Nova, no segundo teve esse número aumentado para apenas 8.574. Já Eduardo Azeredo, que em 3 de outubro obtivera 6.788 votos, em 15 de novembro recebeu nada menos que 17.853 sufrágios.

Passadas as eleições, as atenções voltam-se para a política municipal. Concluídos os trabalhos da Comissão Processante nº. 2, é marcada para o dia 8 de dezembro a sessão de julgamento do prefeito, com base nesses trabalhos. A situação de Ragazzi não era nem um pouco cômoda. As possibilidades de ser cassado eram, agora, reais.

Enquanto, em Belo Horizonte, os advogados de defesa, contratados pela elevada soma de 50 mil reais, trabalhavam intensamente, mesmo durante o dia 8, feriado religioso na capital, a Câmara dos Vereadores, em Ponte Nova, reuniu-se a partir das 12h30m. Durante a exaustiva leitura, que se fazia necessária, do relatório da Comissão Processante, os Vereadores, a assistência e todo o centro da cidade são surpreendidos pela chegada espalhafatosa de um helicóptero, que conduzia os advogados constituídos por Ademir Ragazzi. Eles traziam uma liminar, expedida pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais, que suspendia a sessão da Câmara.

A oposição assistia indignada a todo o episódio. Estranhava ter o Tribunal se pronunciado em um feriado e se exaltava com o valor pago pela locação do helicóptero, que, de acordo com os informações, alcançava o valor de 800 reais.

Do outro lado, os adeptos do padre Ademir comemoravam ruidosamente, com fogos de artifícios e muita euforia, a decisão da justça mineira.

Menos de vinte dias depois daqueles "estrondosos" acontecimentos, em 27 de dezembro, a Primeira Câmara Criminal, do Tribunal de Justiça do Estado, acatada a denúncia do Procurador a Geral contra Ademir Ragazzi e por cinco votos a zero, determina o afastamento do chefe do Executivo. Essa mesma Câmara Criminal, entretanto, rejeita o pedido de prisão preventiva do acusado.

Para as advogados de defesa, o caso não estava encerrado. A todas as investidos da acusação, eles lançavam mão de novos recursos para manter Ademir Ragazzi no cargo. Todos esses intentos, no entanto, foram sendo derrubados, um a um, pelo Tribunal de Justiça.

Chega, afinal, o momento em que a defesa não tem mais argumentos. Todas as apelações se esgotam, e o Tribunal expede uma "Carta de Ordem", afastando, definitivamente, Ademir Ragazzi do cargo de Prefeito de Ponte Nova.

No dia 17 de agosto de 1995, Ponte Nova assiste, incrédula, à posse do vice-Prefeito eleito, Carlos Jardim de Rezende, no cargo de Prefeito Municipal.

O novo Prefeito de Ponte Nova tem suas raízes na Cidade de Paracatu, onde seu avo, João Emílio de Rezende, exercia o cargo de Juiz de Direito. Naquela cidade mineira nascera seu pai, Emílio Jardim de Rezende, que, anos mais tarde, transferira-se para Ouro Preto. Da então capital de Minas, Emílio mudara-se para Viçosa, onde lecionara, exercera o cargo de Juiz de Direito e ocupara destacadas funções na Guarda Nacional.

Carlos Jardim de Resende

Advogado preparado e dono de uma inteligência brilhante, jovem ainda ingressou na política pelos mãos do então Chefe Político local, Senador Vaz de Mello. Depois de participar da Câmara Municipal de Viçosa, na qual chegou a ocupar os cargos de Vice-Presidente e Presidente, o Coronel Emílio Jardim elege-se deputado estadual, pela 2ª Circunscrição, para o 6ª legislatura (de 1911 a 1914), reelegendo-se para o próximo período, que se estendeu de 1915 a 1918. No ano seguinte, ele chega à Câmara Federal. Cumpre quatro mandatos nas legislaturas compreendidas entre 6 de moio de 1919 e 31 de dezembro de 1920, entre 3 de maio de 1921 e 31 de dezembro de 1923, entre 3 de maio de 1924 e 31 de dezembro de 1926 e entre 3 de maio de 1927 e 31 de dezembro de 1929.

Carlos Jardim nascera no então capital do País, Rio de Janeiro, quando seu pai era deputado federal. Como funcionário do Banco do Brasil S/A, transfere-se para Ponte Nova, onde contrai núpcias com Sônia Lanna Marinho. Assim, Carlos Jardim torna-se genro do advogado Jayme da Cerqueira Marinha, filho e herdeiro político de um dos mais importantes homens públicos de Ponte Nova, Caetano Machado da Fonseca Marinho.

Com vocação para a política, Jardim ingressa no movimento sindical que representava sua categoria e no ano de 1954, indicado candidato pelo Sindicato dos Bancários, é eleito vereador à Câmara Municipal de Ponte Nova.

Inicialmente ligado à UDN, ele passa, após o Movimento de 1964, ao MDB e, posteriormente, ao PMDB, tendo sempre ocupado posições de relevância nessas agremiações políticas.

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(Extraído da obra"Lavoura e Riqueza, Voto e Poder"
do Historiador pontenovense Antônio Brant)

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