Sette Câmara e Milton Campos -Anos 40

Com a queda de Getúlio Vargas, toda a ordem política é alterada. José Linhares, Presidente do Supremo Tribunal Federal, assume o governo. Em Minas, o Desembargador Nísio Batista de Oliveira substitui, no dia 3 de novembro de 1945, o Governador/Interventor Benedicto Valladares.

Dentre os novos colaboradores do governo de Minas, destacava-se no primeiro escalão, como Chefe Político, cargo equivalente ao de Secretário de Segurança Pública, José de Paula Motta, que vinha substituir o ponte-novense Luiz Martins Soares.

Paula Motta, nascido em 30 de agosto de 1890, na Cidade de Palmira (hoie Santos Dumont), transferiu-se, ainda jovem, para Ponte Nova, onde foi ocupar o cargo de Promotor Público. A 30 de dezembro de 1915, assumiu o posto de Juiz Municipal e, em 29 de junho de 1929, passou a ser o Juiz de Direito da Comarca de Ponte Nova e como tal permaneceu até o ano de 1938. Nesta cidade, contraiu núpcias com Maria de Lourdes Marinho, filha do ex-Presidente da Câmara, Caetano Machado da Fonseca Marinho, e irmã do então advogado e líder político local Jayme Cerqueira Marinho. Era, portanto, uma autêntica Gonçalves Torres.

As mudanças vinham alcançando o interior, e em Ponte Nova Cid Martins Soares deveria ser substituído.

Sob a influência de Paula Motta, articulava-se, na cidade, um nome que pudesse substituir Cid sem, contudo, ir aos extremos, como queriam os membros mais radicais da oposição. A solução, das mais brilhantes, foi encontrada com a escolha de João Marinho Sette Câmara para ocupar o cargo de Prefeito de Ponte Nova.

Médico, ele tinha uma ascendência encravada no Distrito de Santa Cruz do Escalvado, da qual saíram inúmeros e influentes políticos. Sette Câmara, entretanto, nunca se havia interessado pela vida pública, dessa forma estava livre de qualquer aresta no meio político e, ainda, sua conduta como clínico sério e competente emprestava-lhe grande respeitabilidade.

João Marinho Sette Câmara era sobrinho de Caetano Marinho, sendo, portanto, primo em primeiro grau da esposa do Chefe de Polícia, Paula Motta. Ele era um Gonçalves Torres, entretanto sua esposa, Regina Vieira Martins, filha de Ângelo Vieira Martins, era uma Martins da Silva. Como se isso não bastasse, Sette Câmara era sogro de Cid Martins Soares, que havia desposado uma de suas filhas, Maria Célia.

João Marinho Sette Câmara

Era a solução que agradava a "gregos e troianos". Ele não era parente direto de Luiz Martins Soares, o poderoso Zito Soares, mas contra ele nada poderia ser feito. Sette Câmara também não era um membro militante da oposição, mas sua indicação, emanada do gabinete do Chefe de Polícia, Paula Motta, substituto de Zito Soares neste cargo estadual, dava certo "gostinho" de revanche àquela corrente política.

No dia 25 de novembro, uma semana antes das eleições presidenciais e constituintes, o PSD reuniu mais de seis mil pessoas em grande comício, na Praça Getúlio Vargas. Prestigiaram o evento políticos importantes como Pimenta da Veiga e o líder trabalhista Antônio Abrão Caram. No palanque, exaltados pronunciamentos de José Maria da Fonseca, Adolfo Parentoni, Reynaldo Alves Costa e Mário Clímaco, além do ex-Prefeito Cid Martins Soares. Era uma demonstração do poderio daquela corrente política. De fato, este encontro foi como uma prévia do que ocorreria a 2 de dezembro.

Em Ponte Nova, Dutra, apoiado por Luiz Martins Soares, obteve 7.205 votos, quase o dobro dos 3.494 que os udenistas e peerristas deram ao Brigadeiro.

Para Deputado Federal Constituinte, os resultados também indicaram significativa vantagem para o PSD. Zito Soares, abrigado nesta legenda, alcançou a marca de 7.156 votos, enquanto José André de Almeida, candidato do PR, teve 2.037 e Jayme Marinho, pela UDN, apenas 1.147 votos.

Nessas eleições ocorreu outro fato de grande importância para a política regional. Elegeu-se Deputado Federal Constituinte o advogado Milton Soares Campos, ponte-novense de nascimento, que entrara para a vida pública com o respaldo da UDN de Minas.

Milton Campos nasceu em Ponte Nova a 16 de agosto de 1900. Seu pai, Francisco de Castro Rodrigues Campos, fora para Ponte Nova como Juiz de Direito e já se casara com Regina Martins Soares, filha do Maior Manoel Olympio Soares. Milton Campos era, portanto, sobrinho de Otávio e Luiz Martins Soares e primo em primeiro grau de Cid Martins Soares.

É bem verdade que, seguindo o pai, que exercera o cargo de Juiz em outras cidades, vindo a ser Desembargador na capital, Milton Campos deixou Ponte Nova ainda na adolescência. Também, não foi indicado candidato a deputado por sua terra natal, mas ele estava, como sempre esteve, muito ligado a Ponte Nova, mantendo estreito relacionamento com os familiares e amigos.

No País, o General Eurico Gaspar Dutra também saiu vitorioso, obtendo 3.325.530 votos e derrotando seu principal adversário, o Brigadeiro Eduardo Gomes, que obteve apenas 2.029.886 sufrágios. Dois outros candidatos, menos expressivos, Yedo Fiúza e Mário Rolim Teles, obtiveram, 569.818 e 10.001 votos, respectivamente.

As últimas eleições fortaleceram ainda mais Zito Soares. O segundo Deputado Federal mais votado de Minas, numa chapa que contava com nomes dos mais expressivos como o de Juscelino Kubitschek de Oliveira, José Maria Alkimim, Israel Pinheiro, Bias Fortes, Cristiano Machado e Benedicto Valladares. Seus dois principais adversários em Ponte Nova, José André de Almeida e Jayme Marinho, não se elegeram.

Na capital do Estado, tudo corria às mil maravilhas para o PSD de Ponte Nova. Nísio Batista é substituído por João Tavares de Corrêa Beraldo, que quase imediatamente à sua posse, no dia 3 de fevereiro, nomeia Cid Martins Soares para, novamente, ocupar a Prefeitura de Ponte Nova. Escolhe, também, o Deputado Federal Zito Soares para ser o Secretário de Interior e Justiça.

Empossado em 4 de fevereiro de 1946, Zito volta a "dar as cartas" em toda a região.

Cid inicia o seu terceiro período como Chefe do Executivo, planejando inúmeras obras de urbanização. Encomenda ao paisagista Antônio Brant Ribeiro o projeto de um jardim a ser construído no largo de Palmeiras e o das calçadas e da arborização da Avenida Arthur Bernardes.

O Decreto nº. 2.208, de 14 de fevereiro de 1946, cria o terceiro estabelecimento de ensino público estadual em Ponte Nova. De imediato, recebe o nome de Grupo Escolar Otávio Soares.

A oposição continua atuando e, através da imprensa regional, ataca o governo Cid com certa desenvoltura.

Em Belo Horizonte, deputados da oposição criticam o governo do Estado por ter permitido o retorno de ex-Prefeitos às Prefeituras da região. Em Rio Casca, retornara João Camilo Teixeira Fontes. Em Teixeiras, voltara à Prefeitura José Mariano da Rocha. Benedito Vasconcellos Lanna assumira novamente o Executivo barralonguense, e José Augusto Ferreira Filho era, mais uma vez, Prefeito de Caratinga.

A primeira vez que Cid Soares ocupou a Chefia do Executivo pontenovense, permaneceu no cargo apenas 15 dias (de 14 a 29 de julho de 1937). Na segundo ocasião, ficou quase 13 meses ( de 23 de outubro de 1944 a 21 de novembro de 1945) e, desta feita, também não teve uma longa permanência.

Sucederam João Beraldo no governo de Minas, num período de pouco mais de quatro meses, Júlio Ferreira de Carvalho e Noraldino Lima, até que, em 21 de dezembro de 1946, assume o Palácio da liberdade Alcides Lins, que deveria dar posse a um novo governador, eleito pelo voto. direto.

Novas investidas da oposição fazem com que Lins, através do Decreto nº. 2.371, de 30 de dezembro de 1946, exonere Cid Soares e nomeie, para substituí-lo na Prefeitura de Ponte Nova, José Maria da Silveira Júnior.

O médico José Maria também não permaneceria no cargo por muito tempo, mas, sem dúvida alguma, viveu, como Chefe do Executivo, um dos momentos de maior tensão a que Ponte Nova assistiu em sua história recente.

José Maria da Silveira Júnior

O toucinho, parte dos suínos largamente utilizada na alimentação daquela época, tinha, por esta razão, um sistema de comercialização especial. Um cidadão se habilitava e tornava-se o fornecedor do produto. Alguns poucos pontos de vendas no varejo faziam o toucinho chegar à população, ao preço tabelado de 14 mil réis.

De repente, sem maior explicação por porte das autoridades e numa época em que se convivia com uma inflação de pequeno porte, o preço do toucinho foi majorado, passando o custar 17 mil réis. Certos elementos da oposição, não medindo os conseqüências, aproveitaram para insuflar a população, principal mente as classes mais baixas e que seriam, justamente, as mais prejudicadas. O clima ficou tenso, e não tardaram a surgir manifestações por toda a cidade.

Os tumultos eram cada vez mais intensos e mais violentos. Centenas de pessoas arrombaram e depredaram o Açougue Santana, situado na Rua da Praia.

Dali passaram ao Bairro Palmeiras e na "venda" de Francisco Machado, vulgarmente conhecido por Chico Miséria, nova destruição.

Incidente mais grave ocorreu nessa altura. O Corpo Policial da cidade, tentando conter as manifestações, fez alguns disparos que, de imediato, foram respondidos por elementos que se achavam infiltrados entre os manifestantes. Um dos projéteis atingiu, de forma fatal, um simples agricultor que, de curioso, assistia, de certa distância, à baderna.

Ao entardecer do dia 16 de março, a turba enlouquecida se postou em frente à casa do Prefeito, gritando palavras de ordem e fazendo terríveis ameaças a sua integridade física e de seus familiares.

Enquanto o tumulto entrava noite adentro, o Delegado Carlos Soares de Moura, avaliando a situação, pedia reforços a Belo Horizonte. José Maria da Silveira, por sua vez, também telefona ao Chefe de Polícia, Campos Cristo, na capital, pedindo urgência no envio de policiais.

Amanhecia o dia 17 quando chegou um caminhão, conduzindo um contingente da Força Pública, "armado até os dentes". Com a presença ostensiva de dezenas de policiais, portando metralhadoras, os manifestantes se acalmaram e os tumultos foram, aos poucos, cessando.

A solução encontrada para evitar novos problemas foi a intervenção da Prefeitura, que fechou os açougues e se responsabilizou pela distribuição do produto, objeto de tanta confusão. Os cofre públicos passam também a subsidiar a diferença dos 3 mil réis.

A democratização do País seguia a passos largos, a despeito do governo reacionário do General Dutra. De fato, o mal-humorado ex-Ministro da Guerra conseguiu estagnara processo de industrialização do País e emperrar a máquina governamental

A nova Constituição foi promulgada em 18 de setembro de 1946, e as eleições para os Estados foram marcadas para 19 de janeiro de 1947. Minas fervilhava com a proximidade do pleito. Afinal, seria uma eleição livre como há muito não se via.

A UDN realizou sua convenção no dia 9 de novembro de 1946, na qual saiu indicado candidato a Governador do Estado Milton Soares Campos, que obtivera 297 votos contra apenas 42 dados, pelos convencionais, ao seu principal concorrente, João Frazen de Lima. Outras lideranças udenistas, como Pedro Aleixo, Virgílio de Mello Franco, Gabriel Passos e Odilon Braga, pleitearam a vaga do partido, obtendo, entretanto, votação insignificante.

A princípio, a candidatura de Milton Campos pareceu quixotesca. "Era apenas uma candidatara de protesto, iniciada desportivamente: meia dúzia de udenistas percorrendo o interior do Estado, para levar a palavra esclarecedora daquele pregador cívico que semeava o trigo na terra árida dos 'eleitores de cabresto'. Uma verdadeira aventura romântico."

Com a instalação, em Belo Horizonte, do Comitê Pró-Milton Campos, na Avenida João Pinheiro, a companha udenista passou a crescer assustadora mente

Em dezembro, o PSD também fez o sua famosa Convenção do Teatro São Luiz. A cúpula do partido levara o nome do ex-Presidente Wenceslau Braz, mas, desde o início, houve forte resistência a esse nome. No final, Wenceslav foi substituído por Bias Fortes, o que levou o partido o uma cisão. Um grupo numeroso, liderado por Cristiano Machado, Mello Viana, Levindo Coelho e Carlos Luz, também cogitados para a vaga, formou o dissidência pessimista, que passou a apoiara condidatura udenista de Milton Campos.

A partir daí, a campanha cresceu, mas, ao mesmo tempo, tornou-se violenta. Os udenistas ficaram exaltados, e novas adesões, de partidos menores, aglutinavam-se em torno do nome de Milton Campos, além do Partido Republicano-PR e do PSD Independente, como se intitulou a ala dissidente do PDS.

Não fosse a propalada calma, tranqüilidade e objetividade do candidato ponte-novense, com toda certeza teríamos tido momentos mais graves durante aquela memorável campanha.

Milton Campos tinha uma linguagem diferente. Suas palavras não compunham discursos empolgantes para comícios, mas eram, antes, verdadeiras orações de fé cívica e democrática. Falava o linguagem apostolar, que constroi, paro o futuro, atirando contra o vento do imediatismo político, a boa semente que termina, um dia, por germinar no solo fértil da consciência eleitoral.

Estava ganho o eleição. A vitória foi, para alguns, uma reação do povo mineiro ao governo excessivamente longo e arbitrário de Benedicto Valladares e, para outros, apenas uma conseqüência de uma campanha desenvolvido com seriedade e, sem dúvida alguma, ungido pela sorte.

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