OS PRIMEIROS ANOS

Na época da fundação de Ponte Nova, a exploração do ouro já estava em franco declínio. É bem verdade que ainda não se haviam esgotados, completamente, os filões, como deixaram claro Saint-Hilaire, John Mawe, Johann Pohl e outros europeus que visitaram o Brasil no século passado.

Ocorreu que a exploração era feita sem qualquer técnica, de forma bastante rudimentar. Essa forma imprópria de extração fez com que o mineiro abandonasse o sitio num curto espaço de tempo, pois, quando lá permanecia, necessitava fazer vultosos investimentos para dar seguimento à mineração.

Extraíram ouro nos tabuleiros dos córregos e ribeirões. Depois, passaram a explorar as margens desses afluentes para, finalmente, retirarem o metal das grupiaras. Tudo isso de forma bastante empírica, à procura de grandes e imediatos resultados.

O ouro foi extraído em maior abundância entre os anos de 1741 e 1761. A partir daí, um declínio irreversível na produção levou os mineiros a procurarem outras atividades.

O diamante, que já havia sido descoberto no território de Minas Gerais junto com a lavoura e o gado, absorveu a mão-de-obra, cada vez mais disponível do garimpeiro que deixava as regiões onde o ouro escasseava.

Nos últimos 30 anos do século XVIII, intensificou-se o povoamento de toda a região compreendida entre os rios Paraíba e Doce, com um fluxo, cada vez maior, daqueles que deixavam a região aurífera de Mariana e Ouro Preto.. Em Ponte Nova, outras sesmarias foram solicitadas e, na medida em que eram concedidas, muitas fazendas iam sendo instaladas.

Fazendas como a das Palmeiras, do Quebra Potes, do Xopotó, do Córrego Grande e da Ventania vinham fortalecendo, de forma crescente, a economia do arraial .

Em 1785, o plantio da cana já se tornara comum entre os fazendeiros da região. Espécies como a caiana, a caiana-branca e a cristalina eram as mais difundidas e usadas como matéria-prima na fabricação do açúcar mascavo, do açucar-de-forma e da aguardente. Pequenos engenhos verticais, ainda muito rudimentares e movidos por rodas d'água, eram instalados nas fazendas. Mesmo contrariando alguns historiadores, hoje pode-se afirmar que a cana já se havia popularizado na região de Ponte Nova ao final no século XVIII.

Referências indicam que em 1792, na Fazenda do Vau-Açu, já existiam lavouras de cana e um "engenho de boas proporções".

A criação de gado também já havia, nessa época, constituído importante atividade ao lado do plantio de cereais.

Havia, então, certa diversificação na produção, e as fazendas não mais ficavam restritas ao pequeno plantio de milho e à criação de porcos.

Um pequeno núcleo habitacional foi sendo formado em volta da capela, com moradias de maior porte, mais sólidas e de arquitetura um pouco mais trabalhada que a das pequeninas casas já existentes junto à ponte.

A palha e o sapé, que cobriam as primeiras habitações, foram sendo trocados por telhas nas construções dessa fase. O taipá de pilão e o adobe de boa qualidade iam substituindo as paredes finas e de duração efêmera. Afinal, construíam-se casas definitivas para as famílias que haviam optado pela fixação na região.

No povoado, dois segmentos sociais distintos possuíam casas. Um era representado pelo proprietário de terra, que mandava fazer sua moradia urbana para ser usada nos fins de semana, em ocasiões de festas ou quando da realização de algum negócio. O outro segmento era composto pelo comerciante, pelo ferreiro, pelo carpinteiro, pelo boticário, pelo alfaiate, pelo seleiro e demais profissionais que vinham suprir, com seu trabalho, as necessidades do arraial e compor, com sua família, a população do lugar.

Nessa fase, as construções rurais eram maiores que as erigidas no povoado e seguiam certo padrão arquitetônico. Sua planta baixa delineava a forma de um "O" ou de um "U", formando um pátio interno, geralmente calçado. O andar térreo era utilizado para depósito de cereais produzidos na fazenda, para quarto de arreios, para moradia de agregados, para a cozinha grande e, até mesmo, na falta da senzala, para abrigar escravos. No andar superior, as peças sociais, como salas de refeições e de visitas, eram, geralmente, bem maiores que as dependências íntimas, às vezes muito pequenas, como os quartos e alcovas.

Casa que pertenceu ao Dr.Miguel Antônio de Lanna e Silva, exemplo das construções urbanas dos primeiros anos de Ponte Nova - Ainda resite aos tempos à Rua Cantídio Drumond (ao lado da Faculdade de Ciências Humanas)

 

Na maioria das vezes, esses edifícios não possuíam um cômodo especifico que servia de banheiro, necessitando, os moradores, de lançarem mão de enormes tinas de madeira, que eram transportadas para os quartos e enchidas com água quente, para o banho diário.

Na fachada superior, uma enorme varanda ocupava quase toda a sua extensão. Essa varanda era interrompida, nas duas extremidades, por dois cômodos: a capela ou oratório e o quarto de hóspedes. Em alguns casos, as varandas duplicavam-se no andar inferior.

Na frente da casa, um vasto terreiro, às vezes calçado com pedras enormes, reunia em volta de si a senzala, a tulha, o engenho com as fábricas de rapadura e de aguardente e as cobertas para o carro de boi e as carroças.

O arraial ia sendo formado com construções normalmente boas e sólidas, porém de menor porte. Não havia, entretanto, um planejamento a ser obedecido, e as casas surgiam de forma desordenada, se se considerarem os padrões de engenharia, urbanismo e ciências afins.

Escolhia-se o local para construir a casa, tratava-se com a Igreja a respeito da posse do terreno e levantava-se a construção, sem maiores preocupações com um projeto urbano pre-estabelecido.

Exemplo dessa desordem ainda hoje pode ser observado na atual Avenida Caetano Marinho, provavelmente uma das primeiras ruas a ser delineada em Ponte Nova, onde, na altura da Prefeitura Municipal, sua largura ultrapassa vinte metros e, em frente ao número noventa, a mesma avenida tem apenas oito metros entre os meios-fios.

Sede da Fazenda do Quebra Canoas, primoroso exemplo da arquitetura desenvolvida pelos povoadores da região.

Também, nas Ruas Cantídio Drumond e Benedito Valadares, outras das mais antigas vias da cidade, nota-se exagerada tortuosidade, assim como irregularidade em suas dimensões.

A presença do índio ainda era marcante. Os botocudos continuavam sendo ameaça constante às fazendas e ao povoado, com seus ataques sistemáticos.

Os colonos defendiam-se como podiam e, nas fazendas, eram mantidas verdadeiras milícias, com grande contingente de "companheiros" ou 'Jagunços". Estes eram homens afeitos as armas que, selecionados pelos fazendeiros, protegiam a vida e o patrimônio de seu senhor. Dentro da propriedade, gozavam de certos privilégios e eram respeitados pelos demais serviçais.

Em todo deslocamento, quer seja da fazenda para o arraial ou de uma fazenda para outra, os "companheiros" seguiam junto com os viajantes ou no meio da tropa, pronto para enfrentar o terrível botocudo.

No povoado, os moradores se organizavam e, em pouco tempo, começaram a se impor, diante das investidas dos aimorés. Pelo menos um destes ataques foi registrado. Referencias indicam que, ainda no século XVIII, um grupo, numeroso e ferocíssimo, atacou o arraial. Houve algumas vítimas e três casas e a capela foram incendiadas. O pavor espalhou-se entre os habitantes de Ponte Nova durante o ataque, que durou mais de 24 horas.

Coube ao padre Francisco Soares de Araújo a reforma do templo. Ele já tinha seu nome ligado ao lugar, pois foi um dos procuradores que, no ano de 1770, representaram o padre João do Monte no processo de doação das terras à Capela de São Sebastião e Almas da Ponte Nova.

Os índios puris, mais pacíficos, aproximaram-se do colonizador, e era comum a presença deles nas fazendas como agregados. Até durante o primeiro quartel do século XIX, os puris mantinham aldeamentos bem próximos do povoado. Duas dessas maiores aldeias situavam-se no local onde hoje é o Bairro do Pacheco e no alto do Morro do Pau D` alho, onde está construído o Colégio Dom Helvécio.

Em 1780, D. Rodrigo José de Menezes assume o governo da Província de Minas Gerais.

Esse governador empreendeu inúmeras viagens pela Província, tendo, inclusive, estado em Ponte Nova, em agosto de 1781. Dessas andanças resultaram a abertura e a conservação de muitos caminhos e estradas.

Por ordem de D. Rodrigo, foi aberta uma estrada para as paragens da Serra dos Arrepiados (Araponga-MG). 0 caminho foi melhorado em direção ao rio Doce, assim como foi construída uma ponte sobre o rio Piranga, em substituição à anterior, arrancada por grandes chuvas.

Depois dessas obras, o número de viajantes que passavam por Ponte Nova aumentou. Em todas as fazendas, que margeavam esses e outros caminhos, eram construídos pequenos e toscos abrigos, que serviam de pouso aos viajantes.

Instalados na "casa da tropa" ou "pouso da tropa", os viajantes abasteciam-se de gêneros alimentícios e descansavam para continuar a viagem.

Os alimentos adquiridos pelos viajantes eram pagos em moeda corrente, em ouro ou, ainda, com outras mercadorias, na base da troca.

Nas propriedades mais abastadas, o viajante podia ainda trocar seus animais, cansados ou doentes, por outros em boas condições, desde que, e evidente, pagasse pela transação.

O cônego Raimundo Trindade, em correspondência destinada ao professor Mário de Souza Clímaco, afirmava que os primeiros povoadores de Ponte Nova, "de que se tem noticia certa", foram os Monte, os Lana-Marinho, os Toledo, os Toledo Pisa, os Godoi e os Romeiro.

A luz de novas pesquisas, hoje podem-se atribuir a essas e a outras famflias a ocupação e o infcio do povoamento da região de Ponte Nova. Os primeiros povoadores foram, sem dúvida, as famílias dos sesmeiros, principalmente aquelas que chegaram à região entre os anos de 1754 e 1770.

De 1754 ou 1755 datam as primeiras cartas de sesmarias, concedendo terras a leste de Mariana, além de São José da Barra (Barra. Longa-MG). Em 1770, quando ocorreu a fundação do povoado, pelo menos trinta famílias já haviam se instalado, em suas fazendas, próximo da capela construída pelo padre João do Monte Medeiros.

A partir daí, no decorrer dos anos, muitas outras famílias foram se transferindo para Ponte Nova. E elas contribuíram para a definitiva formação do lugar e tiveram participação decisiva no crescimento e progresso da região.

Ao padre João do Monte Medeiros, membro da família Monte, Ponte Nova deve a sua fundação. Entretanto, seus irmãos Miguel Antônio, Sebastião e Catharina, assim como sua mãe, D. Maria, foram também proprietários de sesmarias na região, onde formaram grandes e prósperas fazendas e deixaram vasta geração.

A Fazenda do Vau-Açu, formada pelo padre João do Monte, é um exemplo desse tempo, aliando o pioneirismo do desbravamento e da povoação, formação e ao enriquecimento da região.

Fazenda Vau-Açu (vista dos fundos), construída na sesmaria concedida ao padre João do Monte Medeiros que durante mais de 100 anos pertenceu à família Monte (Ainda existe a sede).

Essa fazenda, herdada pelo sobrinho do padre João, José Francisco Pereira do Monte, por mais de um século sempre foi administrada pelos Monte Medeiros. Foi um dos maiores estabelecimentos agrícolas da região, tendo sido, inclusive, sede de uma das primeiras usinas de açúcar instaladas em Ponte Nova.

Da família Monte, uma extensa geração uniu-se a tradicionais troncos como os Maciel, os Caldeira Brant, os Coelho Leal, os Coelho Barbosa, os Serra e os Caldwell, dentre outros. Tais uniões legaram a Ponte Nova e ao Brasil nomes ilustres, nos mais variados ramos das atividades humanas.

Velhos moradores de Ponte Nova contavam curiosa história sobre o casamento de um membro da família Monte, em que são mostrados certos hábitos da época, com relação aos enlaces matrimoniais.

Um rico negociante de Diamantina, Felisberto Ferreira Brant, descendente do tradicionalíssimo tronco "Caldeira Brant", tinha, dentre outras atividades, a mineração de diamantes. Uma vez por ano, seu filho, Augusto Ferreira Brant, levava o produto de suas lavras para ser comercializado no Rio de Janeiro.

No ano de 1859, fortes chuvas impediram que Augusto fizesse o percurso habitual, obrigando-no a alterar o itinerário.

Seguindo para Vitória do Espirito Santo, Augusto Brant passa por Ponte Nova. À frente de sua tropa e cansado de uma longa caminhada, manda pedir pousada na fazenda mais próxima, a Fazenda do Córrego das Almas, de propriedade do capitão Sebastião José Pereira do Monte. Autorizado a pernoitar na "casa da tropa", local construído com a finalidade de acolher tropeiros que comumente passavam por lá, Augusto recolhe-se com seus "camaradas".

Pela manhã, muito cedo, a tropa inicia nova jornada, com Augusto Ferreira Brant seguindo na frente, mas antes mandara entregar ao proprietário da fazenda que o recebeu, uma carta de agradecimento.

Na casa-sede, Sebastião do Monte, impressionadíssimo com as belas letras sobrepostas no mais puro pergaminho alemão e com as formas do brasão de armas impresso pelo sinete do viajante, manda chamá-lo imediatamente.

Atendendo ao convite para saborear o desjejum junto à família Monte, o jovem diamantinense conhece Margarida uma das filhas de Sebastião.

Retornando de Vitória do Espirito Santo, Augusto Ferreira Brant pede ao capitão a mão de sua filha em casamento.

Augusto só precisou de poucos meses para ir a Diamantina comunicar à família, organizar seus negócios e voltar a Ponte Nova. Foi o terceiro encontro de Augusto com Margarida do Monte, ocorrido na ermida da Fazenda do Córrego das Almas, durante o casamento dos dois.

Os Gonçalves Torres vieram para Ponte Nova, representados pelos irmãos Antônio e Domingos, nascidos em Portugal.

O primeiro, casado com a também portuguesa Mônica Maria de Souza, instala, na sesmaria que havia ganho, a Fazenda do Pontal. Domingos, casado com a lendária D. Violante de Godoi e Castro, e com uma carta de sesmaria que lhe concedia terras junto às margens do rio da Guarapiranga, como era conhecido o rio Piranga, formou a Fazenda do Engenho.

Essa Fazenda, cuja casa-sede ainda existe, imponente, próxima às margens do Piranga, já no terceiro quartel do Século XVIII era muito produtiva e diversificada. Possuía extensas roças de cereais e um possante engenho de serra, possivelmente o único da região, que desdobrava a madeira retirada das grandes matas existentes.

Foi justamente por possuir este equipamento que a propriedade recebeu o nome de "Fazenda do Engenho".

Fazenda do Engenho, fundada por Domingos Gonçalves Torres em 1755 e há mais de duzentos anos pertencendo à mesma família.

 

Entretanto, toda essa atividade deve ser creditada ao casal, posto que D. Violante, para ajudar o marido, assumia as mais árduas tarefas.

Violante de Godoi e Castro casara-se, em segundas núpcias, com Domingos Gonçalves Torres e, com ele, completou a fecunda geração de sete filhos. Era uma mulher de gênio forte, corajosa e resoluta, não se intimidando e, muito menos, detendo-se ao primeiro obstáculo.

Conta-se que, em certa ocasião, destratada por uma autoridade da capital da Província, D. Violante ergueu-se destemida e, com o dedo em riste, dirigiu-se ao indivíduo com a seguinte ameaça:
- Quero prevenir-vos que estais falando com um homem !

O tronco Gonçalves Torres cresceu, unindo-se a outros, de mesma importância e tradição, como o Fonseca Marinho, o Martins Chaves, o Sette e Câmara, o Silva e o Silveira Lobo.

Domingos Gonçalves Torres faleceu, ao que parece, antes de 1785, vindo, então, a Fazenda do Engenho a pertencer a sua sobrinha Ana Joaquina de Souza, filha de Antônio Gonçalves Torres.

Ana Joaquina, casada com o português José Lopes de Oliveira, deixou uma única filha: Ana Francisca Constância da Rocha, a qual se tornou proprietária do "Engenho".

Em 26 de novembro de 1790, Ana Francisca casou-se com o sargento-mor Miguel Martins Chaves, também português, passando a morar na fazenda.

O casal teve cinco filhos, dentre eles o padre José Miguel Martins Chaves, vigário de Ponte Nova e que se tornou o dono da Fazenda do Engenho. Outra filha do sargento-mor, Francisca Velocina Fidelis de Souza, casou-se com José Caetano da Fonseca, dos Fonseca Marinho.

José Caetano havia, nessa ocasião, contraído seu segundo casamento, pois em 1796 casara-se com Mariana de Jesus e Lanna, com quem viveu por vinte e quatro anos e teve doze filhos. Em 1820, José Caetano e Mariana de Jesus separaram-se legalmente, tendo, inclusive, obtido autorização do bispo de Mariana para tanto. Esse episódio foi, possivelmente, o primeiro caso de divórcio ocorrido em Ponte Nova.

O casamento de José Caetano com Francisca Velocina foi a união dos Fonseca Marinho com os Martins Chaves, da qual nasceram quatro filhos, dentre os quais João Nepomuceno da Fonseca Marinho, que se tornou o quinto dono da Fazenda do Engenho. Seus bisnetos são hoje os atuais proprietários da fazenda, construída por Domingos Gonçalves Torres.

Assim, por oito gerações consecutivas e por 235 anos, essa fazenda, símbolo da história da colonização de Ponte Nova, tem pertencido a uma mesma família.

O sargento-mor Miguel Martins Chaves, que havia se casado com Ana Francisca Constância da Rocha em 1790, era um abastado português há pouco chegado do Reino e que se instalara em Mariana.

Miguel aumentara significativamente suas posses com a herança que recebera do tio, Francisco Martins Lopes Chaves. Francisco faleceu solteiro e deixou seus muitos bens para o sobrinho, incluindo grandes extensões de terra no Inficcionado, hoje Santa Rita Durão.

Mudou-se para Ponte Nova, entre os anos de 1790 e 1793, já que seu filho José Miguel Martins Chaves fora batizado na capela de Ponte Nova, em 06 de novembro de 1793. O sargento-mor adquiriu, anexa à Fazenda do Engenho herdada por sua esposa, a Fazenda Paciência, dos sucessores de João Ferreira Bastos. Esta fazenda passa, por herança, para a filha de Miguel e Ana Francisca, Maria Messias Claudia de São José.

A D. Maria Messias e ao capitão Inácio Martins Guedes, seu marido, sobreviveram três filhos: José Joaquim Messias, Inácio Chaves e Francisco de Oliveira Guedes. O primeiro, a quem coube a Fazenda Paciência, casou-se com Maria Amélia Mitraud, com quem teve dois filhos: José Martins Messias, que faleceu solteiro, e Júlio Martins Messias, que era avô do atual proprietário da "Paciência" .

Fazenda Paciência, de 1768, seguindo o padrão arquitetônico das contruções rurais da época, com enorme varanda, tendo nas extremidades a capela e o quarto de hóspedes.

 

A Fazenda Paciência e um notável exemplo das construções rurais mineiras do período colonial. Mantida durante mais de duzentos anos sem que se processasse qualquer alteração em seu estilo, é hoje um autêntico monumento ao heróico povo que desbravou e colonizou Ponte Nova.

Manoel Francisco Moreira Serra, com uma carta de sesmaria datada de 03 de março de 1760, instala uma grande fazenda próxima ao local onde hoje se encontra o centro urbano da Cidade do Amparo do Serra.

A Fazenda do Quartéis, como era chamada, tornou-se uma das grandes propriedades de toda a região, com duzentos escravos e uma estrutura complexa e sofisticada para a época.

As qualidades de seu dono tornaram-se, também, legendarias. Muito rico, extremamente ativo e dedicado ao trabalho, esse português atendia e auxiliava a todos que o procuravam, sempre com solicitude e delicadeza.

O nome de Manoel Francisco Moreira Serra difundiu-se a tal ponto, que toda a região passou a ser conhecida como sendo "as terras do Manoel Serra", ou simplesmente "as terras do Serra".

Mais de cem anos depois, em 12 de setembro de 1862, Domingos José da Fonseca dotou de patrimônio a capela de Nossa Senhora do Amparo, construída próxima à Fazenda do Quartel, que então lhe pertencia.

O nome do primeiro povoador daquela localidade atravessou os anos, e a capela de Nossa Senhora do Amparo teve seu nome completado pelo povo do lugar, passando a se chamar Nossa Senhora do Amparo do Serra.

Esta é a razão pela qual, até hoje, aquela cidade, que durante muitos anos fez parte do Município de Ponte Nova, é chamada de Amparo do Serra e não "da Serra" como seria natural.

Os irmãos Manoel e João Pereira Martins ganharam sesmarias na região de Ponte Nova. O primeiro, na cabeceira do ribeirão Baguassuí, em 09 de agosto de 1769, e o segundo, em 23 de março de 1773, nas paragens da Cachoeira do Tatu.

Luiz Ferreira Martins, como os outros dois, era português e foi beneficiado com uma sesmaria no sertão do rio Xopotó, em 02 de junho de 1758.

Entretanto, os primeiros Martins que lançaram, com sua descendência, as raízes em Ponte Nova foram os do tronco Martins da Silva.

Os irmãos Manoel José Martins da Silva e Francisco Martins da Silva vieram de Portugal, logo no início do século XIX, e se instalaram em Furquim. Lá desposaram as duas filhas de Maria Genoveva da Conceição.

Maria Genoveva, por sua vez era irmã dos padres José, João e Joaquim Ferreira de Souza, bem como do mestre régio Manoel Ferreira Velho e do capitão Antolho Ferreira de Souza, e se casou com o alferes Leonardo José Teixeira. Este,por seu turno, era também um "Martins", tendo em vista ser filho do português João Martins.

O jovem alferes Leonardo José, comerciante em Furquim, empreendeu, no final do século XVIII, uma funesta viagem ao Rio de Janeiro, da qual não retornou.

Ao descer a Serra da Mantiqueira, nas proximidades do rio Macacu, foi atacado por um bando de ladrões que infestava a região. Estes salteadores tornaram-se famosos pela crueldade com que tratavam suas vitimas.

Conhecidos como a "Quadrilha da Mantiqueira", eram chefiados pelo lendário "Mão de Luva".

A lenda conta que "Mão de Luva" era um moreno alto e robusto, chamado Manuel Henriques e, em Portugal, namorara a filha de D. José I, que viria a ser a rainha D. Maria I. Como castigo pela ousadia, Manuel Henriques foi degredado para o Brasil, e em sua despedida, ainda apaixonada, D. Maria beija-lhe a mão. Assim, ele teria coberto a mão com uma luva para o resto da vida, evitando fosse tocado o lugar beijado pela amada.

Assaltando o alferes, esses malfeitores, liderados pelo "Mão de Luva", assassinaram-no e esquartejaram-no, bem como a todos os serviçais que o acompanhavam.

D. Maria Genoveva, ficando viúva, passou a ser herdeira de seus irmãos padres José e João Ferreira de Souza e de seu cunhado, o alferes João José Teixeira, que era solteiro. Dentre os bens herdados estava a Fazenda do Quebra Canoas, que havia pertencido ao padre José.

Das duas filhas de D. Genoveva, a primeira a se casar foi Ana Leonarda da Conceição, que desposou, em 15 de maio de 1809, o tenente Manoel José Martins da Silva.

Com a morte de seu tio, o padre José Ferreira de Souza, que era vigário em Barra Longa, ocorrida em 25 de julho de 1811, Ana, Leonarda e Manoel José mudaram-se para a fazenda.

Dez anos depois, a filha mais nova de D. Genoveva, Maria Joaquina de Souza, casou-se com o capitão Francisco Martins da Silva, transferindo-se, também, para a Fazenda do Quebra Canoas, onde residiu até a morte, em 1838.

Morando na Fazenda do Quebra Canoas, os dois casais deram origem ao clã que escreveu, com a própria história, a história de Ponte Nova.

Todas as famílias antigas de Ponte Nova têm sua história ligada a uma fazenda. A própria origem da cidade, através do povoamento promovido pelos sesmeiros, assim como a vocação rural de Ponte Nova durante todo o período de sua formação, obriga quem pretende estudar sua história a relacionar sempre um sobrenome com uma propriedade rural. Assim é a do Quebra Canoas, dos Martins da Silva.

Essa fazenda possui uma casa-sede, que é um belo exemplar da arquitetura colonial. Com seu traçado original, até hoje é citada em livros e revistas especializadas. Seu interior foi, até ha bem pouco tempo, decorado com uma ermida magnifica, onde se destacavam pinturas de mestre Atayde e imagens de Aleijadinho.

O nome Quebra Canoas é oriundo do córrego que banha as terras da fazenda. E foi assim denominada pelos índios que habitavam a região.

Contam que eles desciam o córrego, aproveitando a correnteza, que imprimia a suas canoas grande velocidade. Só que essa corrida era interrompida, abruptamente, pelas pedras grandes e pontiagudas localizadas na barra do córrego com o ribeirão do Carmo, que lhes destroçavam as embarcações.