O INÍCIO DO NOVO SÉCULO

No inicio do século XIX, o arraial de São Sebastião e Almas da Ponte Nova. Já havia adquirido importância e crescia com velocidade, principalmente se comparado às freguesias da região mineradora como Furquim, São Sebastião, São Caetano de Mariana, Sumidouro, Inficcionado e outras que, com a queda na produção do ouro, já apresentavam nítidos sinais de decadência.

Se durante o século XVIII o fluxo migratório supria a região aurífera de Mariana e Ouro Preto, no inicio do século seguinte esta tendência acentua-se em direção ao leste dessas cidades.

Exuberantes matas tropicais, indicando solo fertilíssimo, atraiam agora novos habitantes.

Com a vinda da Família Imperial para o Brasil, novas e importantes providências foram tomadas para que se processasse, no mais curto período, a povoação do vale do rio Doce.

O Príncipe Regente D. João acenava com isenções de impostos, moratórias, honrarias e distinções especiais a todos aqueles que se instalassem ao longo do rio Doce, dedicando-se à lavoura, à mineração ou à conquista e aculturação do indígena.

O resultado destas e de outras medidas foi a rápida ocupação do vale do rio Piranga pelo colonizador.

Em 1823, a paróquia do Senhor Bom Jesus do Furquim, que tinha como filiais os curatos de Ponte Nova, Ubá, Conceição do Gualaxo do Norte e Conceição da Lixa, possuía 6.870 almas. Dessa população, residiam em Ponte Nova 2.890 habitantes.

A agricultura tornava-se, definitivamente, forte e bastante diversificada. Além dos cereais como o milho e o feijão, viveres básicos para a população local, plantavam-se cana para o fabrico do açúcar mascavo e da aguardente, mandioca para as farinhas e até o café, que já chegara à região.

Têm-se notícias de que o plantio do café começara, nas zonas auríferas, ainda no século XVIII.

Affonso de Taunay, em "Subsídios para a História do Café no Brasil Colonial", considera que as primeiras culturas do café foram estabelecidas nas regiões mineradoras e não, como querem outros historiadores, no sul do Estado.

"apenas principiaram a dar os cafeeiros das Chácaras do Rio de Janeiro, logo levaram os tropeiros e viandantes algumas sementes da rubiácea para os pomares dos ricos mineradores, deixando, contudo, pelos pousos do caminho algumas bagas da preciosa planta exótica... "

Taunay também afirma que, em princípios do século XIX, expandia-se o cafeeiro por diversos sítios da Zona da Mata.

John Mawe também cita em sua "Viagem ao Interior do Brasil" de 1809, quando relata sua visita a Fazenda da Barra, na região de Barra Longa, de propriedade do conde de Linhares, a existência do café:

"Depois do jantar fomos passear no jardim, onde o cafeeiro florescente se assemelhava, no seu canto, a uma árvore coberta de neve... "

Documentos da família Monte de Medeiros dão conta de que, em 1803, já se colhia café nas terras de sua propriedade, em Ponte Nova, e parte da produção era enviada a Furquim.

Na segunda década do século XIX, o plantio da cana, ao que parece, já tinha adquirido corpo e importância e caminhava para se tornar, por muitos anos, a vocação agrícola de toda a região.

Machado de Magalhães assinala a existência em Ponte Nova, nessa época, da variedade Oitali ou Cayanna, que teria sido mandada importar pelo Príncipe Regente D. João.

Dos dois produtos oriundos da cana, o açúcar era o que liderava as exportações e alcançava bons preços nos mercados de Mariana e Ouro Preto.

Existem referências de que o açúcar produzido em Ponte Nova, nessa época, atingia, também, mercados mais distantes, como Barbacena.

A aguardente era quase toda consumida na região, muito apreciada que era pelos escravos e demais trabalhadores braçais. O excedente da produção do arraial era comercializado, principalmente, nas vizinhas Barra Longa, Furquim, Mariana e Ouro Preto, transportado sobre tropas.

A existência de poucos animais de carga nas Minas até o final do século XVIII fazia com que todo o transporte de carga ficasse restrito a carregadores.Ííndios, negros escravos e mamelucos assalariados é que venciam as distâncias pequenas e grandes, tendo às costas toda espécie de mercadorias.

José Alípio Goulart afirma que atas da Câmara Municipal de São Paulo registravam, no ano de 1721, um verdadeiro e grande comércio de alugueis de carregadores humanos e que o percurso ate as Minas custava de 16 a 20$000 e consumia de três a quatro meses de caminhada.

Com o inicio da comercialização de animais de carga e a conseqüente expansão da criação desses nas zonas de mineração, foram surgindo as tropas, que se foram popularizando na região e em todo o Brasil.

As tropas eram de tamanhos variados e se subdividiam em lotes. O número de animais nos lotes mudava de acordo com a região.

Na província do Rio de Janeiro, por exemplo, contavam os lotes com sete bestas. Já as tropas mineiras eram compostas de nove animais em cada lote.

Cada um dos lotes era cuidado por um "camarada" ou "tangedor", que se incumbia da direção e orientação dos animais a ele confiados.

Toda a tropa era comandada pelo "tropeiro", que, montado a cavalo, percorria toda a extensão da fila de animais, dando ordens e chamando a atenção dos "camaradas". Também, acompanhavam a tropa um arreeiro, encarregado dos arreios e de todos os apetrechos congêneres, e um cozinheiro.

As tropas consideradas de primeira categoria eram compostas de pelo menos cinco lotes, mas havia as grandes tropas que chegavam a possuir mais de duzentos animais.

Sobre cada besta ora colocada a "cangalha" ou "albarda", a que se prendia a carga, geralmente acondicionada em recipientes confeccionados com taquara, cuja forma e tamanho permitiam perfeito ajustamento aos rudimentares arreios.

Para proteger as cargas das intempéries, usava-se o "ligal", que era de couro cru de boi, dobrado de forma que o pelo permanecia no lado de dentro.

Os animais chegavam a suportar, sem sacrifícios, de oito a dez arrobas (120 a 150 quilos). Assim, uma tropa com cinco lotes de dez animais transportava até 7.500 quilos de mercadorias.

A tropa propriamente dita não pertencia a nenhum produtor ou comerciante. Era propriedade do tropeiro, que ia pelo interior alugando seus serviços.

Efetuava-se um intercâmbio econômico: do litoral vinham mercadorias estrangeiras ou produzidas nos grandes centros, destinadas aos núcleos habitacionais espalhados nas mais variadas direções. Demandavam do interior, com destino às grandes cidades e aos portos de Nossa Senhora da Estrela, na baia da Guanabara, ou ao de Santos, no litoral paulista, a produção agrícola e as matérias primárias da prática extrativista.

Conviveram com a tropa, sem entretanto com elas competir, os cargueiros. Estes eram grupos de animais, apropriados ao transporte, com arreios, formação e disposição semelhantes aos das tropas. Pertenciam, no entanto, a um rico proprietário rural ou a um grande comerciante e, basicamente, atendiam às suas necessidades.

Entre pequenas distâncias e quando a topografia permitia, usavam-se também para o transporte os carroções ou carros de boi, até hoje bastante comuns na região.

A produção agrícola já era significativa e forjava as primeiras fortunas do lugar.

A longa e penosa viagem ate as cidades e vilas mais próximas fazia com que os habitantes de Ponte Nova procurassem a capital da Província e outros lugares mais desenvolvidos somente quando era imprescindível.

Tanto nas fazendas quanto no povoado, as dificuldades e o desconforto eram enormes. O comércio de manufaturados e os serviços públicos de saúde e educação inexistiam.

Os proprietários mais abastados faziam vir do Rio de Janeiro, e ate da Europa, tecidos finos, rendas e roupas as mais requintadas. Para o conforto doméstico, importavam louças de qualidade, cristais trabalhados e talheres de prata. Belos lustres pendiam dos tetos e, com velas ou azeite, iluminavam as grandes fazendas. Imagens esculpidas por artistas da época embelezavam os oratórios e as capelas das casas grandes.

Os chás e as beberagens, conhecidos das velhas amas, aliviavam quaisquer dores e indisposições. Vez por outra, passava pelo arraial e visitava as principais fazendas, consultando e receitando, um médico de verdade, vindo do Rio de Janeiro, de São Paulo ou da Bahia.

Os fazendeiros mais ricos contratavam professores para ensinarem as primeiras letras a seus filhos e aos filhos de seus empregados de confiança.

Geralmente, as moças tinham uma educação mais aprimorada: aprendiam a costurar, bordar e administrar a casa, que, na maioria das vezes, era grande e muito cheia. Algumas tinham, ainda, noções de francês e latim e aprendiam música e canto.

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