AS USINAS DE AÇÚCAR

O plantio da cana-de-açúcar em Ponte Nova, em meados do século XIX, já havia se disseminado a tal ponto, que a maioria absoluta das grandes propriedades possuía engenhos e, em vastas extensões de terra, haviam se formado grandes lavouras.

Até a segunda metade do século, os engenhos eram movidos ou a tração animal ou através de rodas d'água. A aguardente e o açúcar cansado e de forma eram largamente exportados para diversas regiões do Estado.

O primeiro engenho de ferro fundido, com moendas dispostas no sentido horizontal, que chegou a Ponte Nova foi instalado na Fazenda Sacramento. Seu proprietário, o Dr. Francisco Martins Ferreira da Silva, ex-deputado, adquiriu a máquina do governo da Província, que havia comprado para difundir a novidade em Minas Gerais.

Em seguida, no ano de 1862, a Fazenda do Vau-Açu, pertencente aos herdeiros de José Francisco do Monte, e a do Pontal, de Francisco Machado de Magalhães, instalaram engenhos horizontais, importados da Inglaterra.

O primeiro Engenho Central, ou Usina de Açúcar, de toda a Minas Gerais foi instalado em Ponte Nova, no ano de 1885.

Os irmãos Francisco e José Vieira Martins, estimulados pelo sucesso do Engenho Central de Quipamã, que já operava há cinco anos na Cidade de Araruama-RJ, resolveram constituir a firma Vieira Martins & Cia, para viabilizar a instalação de uma usina em Ponte Nova que se tornaria a primeira indústria açucareira de Minas Gerais.

Os sócios fundadores desta usina foram os irmãos Francisco, José e Ângelo Vieira Martins, o cunhado deles Manoel Vieira de Souza, fundador da Cidade de Rio Casca.

Nascido no local denominado "Minhocas", José Vieira Martins transferiu-se para Ponte Nova, adquiriu a Fazenda do Pião e casou-se com Anna Florência Martins.

Jovem ainda, aos 46 anos de idade faleceu, em 1863, deixando a viúva e quatro filhos: Ângelo, qe se diplomou em direito pela Faculdade de São Paulo, Francisca Florência, que se casou com o Dr, Manoel Vieira de Souza; e os gêmeos José e Francisco que concluíram o curso da Academia de Medicina do Rio de Janeiro em 1882.

Retornando imediatamente após suas formaturas, os jóvens médicos dão início as obras de construção do Engenho Central. A Fazenda do Pião era local apropriado para a instalação da Usina: próximo a Ponte Nova, de boas proporções e possuidora de terras férteis.

As teraplanagens e as construções de diques, túneis, estradas e demais obras pesadas ficaram sob a responsabilidade do Sr.Antônio Moreira Maciel Pinto.

Contratada na cidade de de Campos - RJ, a empresas Thompson Black & Cia. enviou seus funcionnário de Ponte Nova, com a determinação de proceder a insalação do maquinário.

Conta o Dr. Ângelo Vieira Martins, em sua monografia intitulada "Uzina Anna Florência"., que a equipe da Thompson era chefiada pelo técnicos Mr Thomaz e Mr. Alexandre. Dirigiam os serviços de assentamento das peças de ferro, cobre e bronze Mr. Guilherme e os irmãos Inocêncio e Adalberto Alves Costa. Polycarpo de Oliveira administrava as obras de alvenaria.

No Ano de 1884, as máquinas importadas da Inglaterra para usina chegaram ao Rio de Janeiro. De lá até até a cidade de São Geraldo, seguiram em vagões da Estrada de Ferro Leopoldina Railway.

De São Geraldo até Ponte Nova, o transporte de grandes e inúmeras peças para a usina foi uma epopéia. Foram construídos vários carros de boi, com dimensões maiores que as dos convencionais, para transportarem os equipamento mais volumosos. Todos os carros em bom estado, disponíveis na região foram alugados, Trechos de estradas foram alterados para a passagem das máquinas e as porteiras, muito comuns mesmo nas estradas mais transitadas, tiveram seus esteio retirados.

Jarbas Sertório de Carvalho afirma, em seu "Aspectos da Indústria Açucareira no Município de Ponte Nova ", que o transporte dos equipamentos durou mais de quarenta dias e que, pelo menos, um acidente ocorreu nessa verdadeira aventura: O veículo que transportava o "Vácuo" aparelho de colossal dimensão, já alcançava o alto da Serra de São Geraldo, quando rolou despenhadeiro abaixo.Foram necessários dias e a ajuda de moradores da região para que um novo trecho de estrada fosse feito para o resgate do "vácuo" daquele abismo.

A usina foi inaugurada no ano de 1885 e recebeu o nome de "Uzina Anna Florência". Tal denominação foi escolhida para homenagear dona Anna Florência Martins, esposa do major José Vieira de Souza e mãe dos irmãos Francisco, José, Ângelo e Francisca, sócios do empreendimento.

A capacidade inicial da usina era de 240 a 300 arrobas diárias, e sua primeira safra foi, em grande parte, exportada para Ouro Preto.

A Usina Anna Florência teve sua razão social alterada algumas vezes, e Sócios foram incluídos, prevalecendo, sempre, as figuras dos dinâmicos Francisco e José Vieira Martins à frente da empresa.

Novos investimentos eram feitos constantemente, para melhorar e aumentara produção, Foram adquiridas outras fazendas que, anexadas às terras da usina, permitiram a expansão das lavouras.

O açúcar da Anna Florência chegava ate os grandes centros e compunha exposições especializadas, que lhe conferiam vários prêmios e distinções.

Para facilitar e agilizar o transporte da cana das lavouras ate a usina, foram construídos ramais de uma pequena estrada de ferro, com 75 centímetros de bitola.

Esses e outros itens de sofisticada tecnologia contribuiram para que a Usina Anna Florência ocupasse, durante anos a fio, posição de destaque no Estado e no País.

Dos vários funcionários da Thompson Black & Cia. que vieram para Ponte Nova trabalhar na construção da usina, alguns se adaptaram tão bem na cidade que, com a conclusão das obras, se instalaram definitivamente na cidade, constituíram família e deixaram descendentes.

Polycarpo de Oliveira continuou em Ponte Nova, trabalhou na construção de outra usina e prestou relevantes serviços em inúmeras obras, de grande porte, no município e região.

Os irmãos Alves Costa encontraram, em Ponte Nova, suas esposas. Inocêncio casa-se com Emma Garavini, e Adalberto une-se a Balduina Lessa.

Com a inauguração da usina, em 1885, as presenças de profissionais como os irmãos Alves Costa tornaram-se imprescindíveis. Os equipamentos precisavam de manutenção e constantes reparos. Assim, os Vieira Martins convenceram os irmãos Adalberto e Inocêncio a montarem uma grande oficina, na cidade, para o necessário serviço de assistência à Anna Florência e a outras propriedade que possuíam engenhos de cana.

Surgiu, então, no Largo Santa Rita, a "Fundição Progresso".

Por determinação de José e Francisco Vieira Martins, que muito se empenharam na instalação da fundição, assumiu as obras dos edifícios o experiente construtor Augusto Mayrink.

No ano de 1887, a oficina já funcionava com significativo número de funcionários, sob a administração dos irmãos Alves Costa.

Outra figura importante não só durante a construção da Usina Anna Florência, como também na instalação e crescimento da fundição, foi a do mecânico Emílio Garavini. Imigrante italiano, instalou-se, primeiramente, na Cidade de Rio Pomba. Convidado pelos Vieira Martins para integrar a equipe que montaria a usina, Emílio aceita. Entretanto, impõe uma condição: que fossem trazidos, da Itália, sua mãe viúva e seus irmãos menores, pois estava decidido a se fixar, definitivamente, em Ponte Nova.

Da Anna Florência, Emílio Garavini acompanha Adalberto e Inocêncio para a fundição, o qual se dedica ate sua morte.

Outro nome que se acha intimamente ligado à históna da Fundição Progresso é o de Acácia Martins da Costa.

Vindo jovem para Ponte Nova, empregou-se, em 1892, naquele estabelecimento, como aprendiz de mecânico. Anos mais tarde, em 1922, Acácio assume a construção da Jatiboca, tomando-se um de seus grandes acionistas e a ela se dedicando durante todo o resto de sua longa existência.

Outras usinas, ou engenhos centrais foram instaladas no município.

José Mariano Duarte Lanna, animado com a construção do trecho da Estrada de Ferro que ligava Ponte Nova à Estação de Piranga (hoje Xopotó),inaugurado em 30 de junho de 1886 por D. Pedro II e que cortava grande parte de suas terras, resolveu seguir o exemplo dos irmãos Vieira Martins.

Associou-se ao coronel José de Almeida Campos, a seus tios capitão Ignácio Mariano da Costa Lanna e capitão Venâncio Mariano da Costa Lanna e a seu primo, filho deste último, José Mariano Gonçalves Lanna.

No ano de 1887, já inauguravam o Engenho Central do Piranga, que tinha capacidade para produzir, em apenas 16 horas de trabalho, 400 arrobas de special açúcar.

Os modernos equipamentos do Engenho Central do Piranga, unidos, naturalmente, à qualidade da matéria-prima e à capacidade de seus funcionários e administradores, produziam um açúcar que foi apreciado em grandes centros, conferindo prêmios à segunda usina construída em Ponte Nova.

A Primeira Exposição Brasileira de Açúcares e Vinhos realizada em janeiro de 1889, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, por exemplo, premiou a Companhia Engenho Central do Piranga, proprietária da usina.

Alguns anos mais tarde, uma série de dificuldades, incluindo a política governamental para o setor açucareiro, levou a dissolução da sociedade e da companhia.

Os equipamentos modernos e eficientes foram vendidos a Henrique Dumont, irmão de Alberto Santos Dumont, que, transferindo-os para Ribeirão Preto (SP), reequipou uma usina de sua propriedade.

A terceira usina instalada em Ponte Nova foi a Vau Açu, na fazenda de mesmo nome, no ano de 1888.

O surto desenvolvimentista estimulava o investimento, e os tradicionais e pacatos agricultores passaram a aplicar seus lucros na instalação de indústrias e modernização de suas propriedades.

O major João José Pereira do Monte, com o falecimento de seu pai, o capitão Sebastião José Pereira do Monte, tornou-se proprietário da Fazenda do Vau Açu, a mesma que fora construída pelo padre João do Monte, fundador de Ponte Nova.

A disponibilidade de água farta e em locais adequados serviu para a montagem de rodas d'água, que movimentaram um grande engenho.

Esse engenho, assim como as três turbinas, os aparelhos de vapor e demais equipamentos foram importados da França.

A Usina do Vau-Açu produzia, no ano de 1889, 200 arrobas de açúcar diariamente.Essa produção seguia toda para o Rio de Janeiro, onde era comercializada.

Esse empreendimento teve como sócios, além de João José, os senhores Eliziário Pereira Serra e Arthur Victor Serra.

Nesta época, apesar da existência de três engenhos centrais em Ponte Nova, as grandes fazendas não desativaram suas fábricas de rapadura e aguardente. No final do século XIX, eram 116 as propriedades rurais que mantinham seus engenhos funcionando.

Nessa ocasião surgiu, também, a figura do "fornecedor de cana". Eram fazendeiros que, não utilizando toda a cana plantada em sua propriedade, vendiam o excedente para a usina mais próxima.

Com as reformas, ampliações e aquisições de maiores e mais modernos equipamentos para as usinas, veio a necessidade de aumentar as áreas plantadas com cana. Assim, proprietários cujas terras eram vizinhas das usinas iniciaram a formação de grandes lavouras para suprir as necessidades das usinas pontenovenses.

As demais usinas de Ponte Nova foram instaladas no século XX, são elas: Usina Jatiboca, em 1920; Usina do Pontal, em 1935; Usina São José, em 1935; e Usina Santa Helena, em 1940.

 

Extraído do Livro "Ponte Nova 1770 -1920, 150 anos de História"
do escritor Antônio Brant À este,, todos os créditos.